Hamra 3D - Novas Dimensões no Desenvolvimento da Produção de Leite

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Cerca de 250 pessoas de 35 países se reuniram entre os dias 11 e 13 de junho, na Harma Farm, próximo a Estocolmo (Suécia), em evento organizado e patrocinado pela DeLaval, com participação técnica da FAO.


Visão geral da Hamra Farm, fazenda da DeLaval na Suécia


Visão do "Big Barn", um dos auditórios em que foi realizado o Hamra 3D

A DeLaval é líder mundial no segmento de equipamentos de ordenha, com faturamento anual de quase 800 milhões de euros. A empresa faz parte do grupo Tetra Laval, do qual faz parte a empresa Tetra Pak, líder no setor de embalagens.

O evento teve o objetivo de discutir o futuro do Produtor de leite, do Consumidor e do Bem-estar animal, daí as três dimensões abordadas o evento. Cinco países foram destacados, sendo representados por um vídeo realizado pela DeLaval em cada um deles, bem como 4 apresentações sobre:

- Crescimento e desenvolvimento da produção
- O produtor de leite hoje e amanhã
- Produção de leite e desenvolvimento rural
- Condições de trabalho nas fazendas de leite

Os países em destaque foram Brasil, Rússia, Nova Zelândia, Estados Unidos e União Européia. Pelo Brasil, foram palestrantes Marcelo P. Carvalho (MilkPoint), Vidal Pedroso de Faria (FEALQ), Luis Fernando Laranja da Fonseca (FMVZ/USP) e Maurício Silveira Coelho (médico veterinário e produtor de leite em Passos/MG).

Completaram a delegação brasileira Wiliam Tabchoury, da Láctea Brasil, Marcel Barros, da DPA, Ernesto Krug, da Elegê, Nelson Rentero, da Revista Balde Branco, Cléber Carneiro, produtor de leite em Passos (MG), Fabiano Amaro, presidente da DeLaval Brasil e Daniel Neves, também da DeLaval Brasil.

Além das apresentações dos países, foi tema do evento as tendências do consumidor e o bem-estar animal, algo que vem ganhando força na Europa e que já afeta o sistema de produção utilizado nas fazendas.


A Princesa Victoria, da Suécia, inaugura escultura na Hamra Farm


Protecionismo é criticado

A abertura do evento foi feita pelo Diretor Geral da FAO, Jacques Diouf. Ele abordou a questão da fome no mundo e da desigualdade social existente. Segundo ele mais de 800 milhões de pessoas vão dormir diariamente com fome e cabe a todos enfrentar esse problema. A FAO propõe a cooperação entre instituições nacionais e internacionais envolvendo o governo, o setor privado e o voluntariado.


Jacques Diouf, Diretor Geral da FAO

Joakim Rosengren, Presidente and CEO mundial da DeLaval enfatizou o compromisso da empresa com a redução dos subsídios e com a redução do protecionismo dos países desenvolvidos para que a produção de leite seja fomentada em países do terceiro mundo.


Hans G. Ekdahl, Presidente do Conselho da DeLaval, e Joakim Rosengren, Presidente e CEO da DeLaval

O combate aos subsídios também foi reforçado pela representante do parlamento europeu, Marit Paulsen. Ela disse ter vergonha de fazer parte da instituição, ao se defrontar com o fato de serem gastos US$ 2 por vaca/dia em subsídios na Europa, ao passo que milhões de pessoas vivem com menos de US$ 1 por dia.

Crescimento e desenvolvimento

Nos painéis sobre crescimento e desenvolvimento da produção, Marcelo P. Carvalho, do MilkPoint, mostrou que o Brasil pode ser auto-suficiente na produção de leite nos próximos anos, visto que há área disponível, a eficiência de produção pode ser muito melhorada e as importações não representam mais de 10% do consumo total.

Porém, há diversas variáveis envolvidas afetando as previsões, entre elas o crescimento do consumo, o câmbio, as cotações internacionais de leite no mercado externo e a atratividade da produção de leite como atividade econômica. Segundo ele, o mais provável é que, até 2010, o Brasil seja levemente auto-suficiente, com perspectivas de se tornar exportador de maior peso somente entre 10 e 15 anos. O investimento de empresas como a Fonterra no Brasil, através da joint-venture com a Nestlé, bem como o interesse crescente de produtores estrangeiros, principalmente da Nova Zelândia, são indicativos de que o Brasil gera muitas expectativas em relação ao crescimento potencial do mercado. A própria ênfase dada ao país no evento sugere essa expectativa.

O produtor de leite hoje e amanhã

Pode o leite competir com a soja ? De acordo com o Prof. Vidal Pedroso de Faria, que apresentou o tema na conferência, há produtores com rentabilidade superior à soja, desde que trabalhando com eficiência (tabela 1). Há, portanto, possibilidade do leite competir com outras atividades. O problema, segundo ele, é que o leite é explorado em áreas menores, gerando como resultado um lucro absoluto menor ao produtor.

Essa desvantagem, no entanto, pode também ser uma vantagem para pequenos produtores, pois o leite permite a exploração econômica em áreas pequenas, algo que se mostra bem mais difícil em culturas como a soja, que necessita de escala para ser viável. A soja cresce em grandes fazendas no oeste do país, substituindo principalmente fazendas de gado de corte.

Tabela 1. Receita bruta, custo e lucro por hectare em fazendas bem manejadas

Segundo Vidal, para produzir leite para uma população com baixa renda é necessário aplicar tecnologia, melhorar o manejo, utilizar o alto potencial de produção e a qualidade razoável das forragens tropicais, produzir forragem suplementar de boa qualidade e baixo custo e utilizar vacas com alta persistência de lactação. Finalizando sua apresentação, Vidal mencionou a necessidade de educação do produtor, permitindo eliminar conceitos culturais equivocados, bem como a necessidade de se acreditar que podemos produzir leite de qualidade, a baixo custo, e ainda assim ganhar dinheiro.

Por fim, Vidal mencionou a importância de se produzir leite com qualidade, de acordo com os requisitos cada vez mais evidentes de segurança alimentar.


A delegação brasileira na Suécia, com Ulf Jaern, da DeLaval, à direita

Produção de leite e desenvolvimento rural

O Prof. Luis Fernando Laranja da Fonseca, da FMVZ/USP, mostrou que a produção de leite tem crescido a uma taxa média de 3,5% ao ano, uma das mais altas do mundo, mas que, apesar disso, o consumo ainda é menor do que o recomendado pela FAO. Ele enfatizou que a atividade envolve cerca de 1,2 milhão de fazendas, gera 3,5 milhões de empregos e US$ 2,7 bilhões anuais, sendo uma importante fonte de empregos, renda e, conseqüentemente, de desenvolvimento rural no Brasil.

Laranja, no entanto, alertou que, devido às características da atividade, é necessário que haja maior ação governamental, traduzida em linhas de crédito, investimento em infra-estrutura, políticas como a garantia de preço mínimo, programas de distribuição de alimentos, como o Fome Zero e investimentos em educação rural e extensão.

O futuro da indústria leiteira depende do aumento da produção, fruto da educação rural e da criação de infra-estrutura institucional. Por outro lado, é preciso aumento do consumo, que por sinal é relacionado à melhoria da renda da população. Laranja mencionou também a importância de programas de alocação de recursos e alimentos como mecanismo de elevação do consumo e regulação de preços em momentos de excesso de oferta. Isso levaria à redução das importações, gerando economia de recursos, em um círculo virtuoso para o setor.

Condições de trabalho nas fazendas de leite

Maurício Silveira Coelho, produtor de leite em Passos (MG) e médico veterinário, comentou sobre as condições de trabalho na Fazenda Santa Luzia, que produz 8.500 litros diários de leite, com 18 funcionários em 413 hectares. Maurício mencionou o salário médio de US$ 200 por funcionário, fora os benefícios como moradia, eletricidade, água, escola e benefícios trabalhistas. Ele também comentou a melhor qualidade de vida em comparação à vida na cidade

Maurício investe em treinamento de mão-de-obra, trabalha com bonificação em função dos resultados adquiridos e oferece estabilidade, fatos que fazem com que a fazenda seja referência na região, sendo considerada uma boa empresa para se trabalhar.

Outros países

Nova Zelândia - Há preocupação crescente com o manejo ambiental, tanto que a Fonterra, principal cooperativa existente, está implementando um programa de controle ambiental ao qual todas as fazendas deverão se submeter. O produtor neozelandês tem uma visão global da atividade, cujo foco está no mercado externo. De todos os presentes, é o mais aberto e atento ao que ocorre no setor lácteo mundial. Sabe que precisa ser competitivo e quer saber mais sobre mercados emergentes e países com potencial de crescimento, como o Brasil e a Rússia.

Europa - a grande dificuldade é encontrar mão-de-obra qualificada para trabalhar nas fazendas. O alto custo e a escassez de pessoal qualificado abre espaço para o crescimento da ordenha robotizada (V.M.S. - Voluntary Milking System, lançado pela DeLaval). O alto custo é ainda um empecilho - um barracão com V.M.S. custa em torno de 300.000 euros (R$ 1.000.000), com capacidade de ordenhar cerca de 7 a 8 vacas por hora, durante 24 horas por dia, com 2,4 ordenhas/vaca/dia. Também, o europeu se vê frente a um desafio quase que insolúvel: depende de subsídios para se manter competitivo, luta contra um consumo estagnado ou em queda e já não goza do apoio irrestrito da sociedade, sendo exemplo até a postura da DeLaval contra o protecionismo.


A ordenha robotizada (V.M.S.)

Rússia - a Rússia parece estar se levantando no cenário econômico. A produção de leite, no entanto, ainda apresenta sérias limitações decorrentes da falta de infra-estrutura disponível. Cerca de 57% do leite é proveniente de fazendas com 1 a 2 vacas apenas, sendo este dado suficiente para se ter idéia de como a produção de leite está estruturada neste país. Porém, a Rússia apresenta grande extensão de terras férteis e pode se tornar uma potência na produção de alimentos, entre eles o leite, o que justifica o investimento de laticínios estrangeiros no país.

Estados Unidos - a produção de leite dos norte-americanos cada vez se caracteriza por modelos de produção cuja matriz é composta de milhares de vacas de alta produção, confinadas, ordenhadas por imigrantes mexicanos e de outros países da América Latina. Há, também, pressões ambientais crescentes e um custo de produção que limita a participação do país no mercado externo. Dificilmente um produtor dos EUA sobrevive por muito tempo recebendo menos de US$ 0,24/kg de leite. No entanto, como o mercado interno dos EUA é muito grande, a produção é quase que totalmente consumida no país, fato que, certamente, contribui para o fato do norte-americano, em regra geral, não se caracterizar pela visão global que o neozelandês, por exemplo, demonstra.

Leite escolar

Michael Griffin, coordenador da FAO para a divisão de lácteos, mostrou a importância dos programas de leite escolar realizados em diversas partes do mundo, com o apoio da FAO. Griffin anunciou a 2ª Conferência de Las Americas - Los Beneficios de la Leche en la Alimentación Escolar, a ser realizado entre os dias 23 a 26 de novembro deste ano, em Montevideu, Uruguai. Mais informações no email conleche@montevideu.com.uy ou no site www.anep.edu.uy.


Prof. Luis F. Laranja
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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