Investimentos pesados, "boom" de crescimento, forte concorrência e excesso de produto. Como costuma acontecer com novidades lançadas no mercado, o leite longa vida, há 31 anos vendido no Brasil, não escapou desse ciclo, que está se fechando agora, segundo especialistas, com o empurrão da queda do poder aquisitivo da população e, consequentemente, da demanda. Para driblar a conjuntura adversa, restam aos laticínios a especialização, a busca de rentabilidade ou os mercados regionais.
Lançado em 1972 no país, o longa vida só começou a fazer sucesso na década de 90, depois que o governo desregulamentou o mercado de leite. Desde então, as vendas cresceram, em média, 27% ao ano, desbancando o produto pasteurizado. A fatia do longa vida no mercado de leite fluído saltou de 4,4%, em 1990, para 74% em 2002.
Com isso, mais de 100 marcas se acotovelavam nas gôndolas dos supermercados brasileiros em meados de 2002. "Houve um fenômeno de consumo. Quem não entrasse ficaria num mercado de pasteurizado em queda livre", disse o diretor-superintendente da Elegê, segunda maior fabricante de longa vida do país, Frederico Düher.
Tanta concorrência, contudo, transformou o produto em commodity e provocou uma crise de preços, cujo ápice foi em 2001. Segundo a Scot Consultoria, o preço médio real do longa vida no atacado paulista, deflacionado pelo IGPD-I, caiu 11% naquele ano, sobre 2000, para R$ 1,28 por litro.
Com as margens apertadas, para algumas empresas o "ouro branco" azedou. Pequenos laticínios fecharam e companhias como Itambé e Vigor se voltaram para produtos mais rentáveis, como leite em pó, refrigerados e leite condensado. "Muitas empresas mudaram o foco. Isso permitiu que os preços do longa vida subissem nos últimos meses", disse o presidente da Leite Nilza, Alexandre Maia Lemos, que detém 20% do mercado do interior de São Paulo. Desde dezembro, as cotações reais do produto subiram 2%, conforme a Scot.
Mas esse reajuste ainda está longe de ressuscitar o apetite dos laticínios. Pelo menos agora, com o consumo retraído. Segundo fontes do setor, as vendas de longa vida caíram 10% nos primeiros três meses do ano. "Poucos voltaram ao pasteurizado. Na verdade, o consumidor deixou de fazer estoque e compra só o necessário", observou Maurício Nogueira, da Scot.
"Essa estagnação do mercado está detonando o processo de consolidação do setor", acredita o diretor comercial do laticínio paulista Jussara, Laércio Barbosa. Só ficaram na atividade as empresas que se especializaram e têm escala de produção, condição ímpar para quem trabalha com commodities. Além disso, o peso do frete, que chega, em média, a 10% do valor do produto, regionalizou os mercados, conforme especialistas.
"As grandes empresas irão atender aos maiores centros, como São Paulo e Rio. Empresas menores podem atuar em regiões próximas às fábricas, desde que os volumes não cresçam muito", disse Düher, da Elegê. A líder Parmalat é a única hoje com distribuição nacional. A Elegê vende longa vida do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro. Mas, para reduzir o custo com frete, planeja construir uma fábrica no sul do Mato Grosso do Sul. As demais possuem atuação regional.
É um cenário bem diferente do intenso tráfego de longa vida pelo país vivido durante o "boom" do setor. "O frete hoje é um fator limitante. Reduzimos a produção e estamos enviando menos leite para São Paulo", disse o diretor do Laticínio Morrinhos, de Goiás, dono da marca Leitbom, Domingos Vilefort.
Conforme fontes do setor, outro fator que colabora na consolidação do mercado é a mudança de postura da Tetra Pak. A empresa que, no início financiou vários pequenos laticínios, está mais criteriosa no crédito, pois a inadimplência aumentou com a turbulência econômica, dizem as fontes. A Tetra não se pronunciou.
Fonte: Valor On Line (por Raquel Landim), adaptado por Equipe MilkPoint
Fim do "boom" nas vendas de leite longa vida
Publicado por: MilkPoint
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