O Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) convocou para hoje, em Brasília, uma reunião da Câmara Setorial do Leite, para discutir o impacto da falência da Parmalat na Itália em diversos estados brasileiros, entre eles Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Um dos estados brasileiros mais afetados, na avaliação do ministro Roberto Rodrigues, é Santa Catarina. A cadeia do leite envolve mais de 50 mil produtores no Estado, o sexto maior produtor do país, com 1,2 bilhão de litros em 2003.
Os pagamentos de fornecedores catarinenses estão atrasados e já foram renegociados. A dívida da Parmalat é de R$ 4,5 milhões, o que corresponde a menos de um mês de produção, calculou o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina, Neivor Canton.
Ele dirige a Agromilk, integrada por oito cooperativas que entregam 380 mil litros por dia para a Batávia e representando 50% da produção de seis mil associados. A Parmalat é a principal acionista da Batávia. Canton disse que não participará da reunião de Brasília, mas tentará um encontro com a direção da Parmalat, em busca de garantia de continuidade.
As cooperativas não alteraram a entrega do leite. O fornecimento está garantido pelo menos até 10 de janeiro, data para o pagamento da produção do mês, mas o preço do litro chegou a cair três centavos em dezembro, passando para R$ 0,38. Canton, porém, assegurou que o motivo não é a crise da Parmalat.
Rio Grande do Sul
O governo do Rio Grande do Sul, representado pelo secretário da Agricultura, Odacir Klein, defenderá, na reunião da Câmara Setorial do Leite, a adoção de medidas que assegurem a continuidade dos investimentos e da produção da multinacional Parmalat em Carazinho, pois a industrialização do leite da região pode ser afetada pela crise que atravessa o grupo italiano.
Ontem, o secretário reuniu-se com o governador Germano Rigotto para discutir os impactos que uma possível suspensão poderá trazer à cadeia leiteira gaúcha. "Por enquanto, no Rio Grande do Sul, é tudo especulação", assinalou Klein, que, mesmo não integrando a Câmara Setorial, está atento aos desdobramentos da Parmalat.
"É preciso uma ação conjunta no segmento do leite, tanto na área de produção quanto industrial", disse o governador. Amanhã, o secretário terá reunião com produtores para relatar os resultados do encontro e insistir na importância da mobilização que, entre outras questões, busca evitar, por exemplo, o achatamento do preço do leite.
"Sabemos que os produtores procurarão outras empresas", disse o secretário, preocupado em evitar migração, o que prejudicaria a atual planta industrial.
Klein disse que o primeiro pagamento que pode atrasar para os produtores é o de 15 de janeiro. Até lá, ele avalia que não há como saber se atrasarão os pagamentos ou não. "O enfoque do governo será avaliar o que fazer no caso de não haver pagamento ou, caso os produtores não tenham condições de entregar para a Parmalat, para onde irá esse leite, quais as possibilidades que se terá para não causar prejuízos para a economia do Rio Grande do Sul", explicou.
Goiás
A crise da Parmalat reflete-se negativamente sobre as cooperativas de leite em Goiás. Elas deixaram de fornecer para a indústria e a maioria recebeu leite em pó como pagamento do produto já entregue até novembro. As seis cooperativas ligadas à Centroleite recusaram a proposta e acertaram com a empresa o recebimento de uma dívida de R$ 616 mil, referente ao fornecimento de 1,5 milhão de litros de leite em novembro e dezembro, para o próximo dia 17, conforme o presidente da Centroleite, Haroldo Max de Souza.
Aos produtores individuais a Parmalat pagou em dia e o fornecimento do produto continua normal. O pecuarista Hélio Frutuoso, de Orizona, disse que a Parmalat garantiu que o dinheiro referente ao leite fornecido em dezembro será depositado no dia certo. "Estamos confiantes que isso vai ocorrer".
Ontem, a indústria de leite da Parmalat localizada em Santa Helena de Goiás continuava a operar normalmente, apesar de trabalhar com menor quantidade do produto. Max acredita que a empresa deverá ser vendida, e não fechada.
A grande preocupação dos produtores é perder mais um canal para a venda. Cerca de 80% da produção são vendidos no Estado, para a Nestlé, maior compradora, Parmalat (em segundo lugar), Itambé e Paulista.
Outra saída é o pagamento da dívida em leite em pó, já acordado entre a Cooperativa de Produtores Rurais de Quirinópolis e a Cooperativa Mista de Produtores de Leite de Morrinhos (Complem). A cooperativa de Quirinópolis recebeu 62 toneladas de leite em pó como pagamento de R$ 372 mil que tinha para receber referente a 855 mil litros. Já a Complem recebeu 147 toneladas referentes a crédito de R$ 878 mil. O presidente da Centroleite, porém, disse que somente aceitará o leite em pó em último caso, pois existem o deságio e a dificuldade de comercialização.
Os reflexos da crise da Parmalat na pecuária leiteira goiana serão discutidos na reunião no Mapa pelo presidente da Federação de Agricultura de Goiás (Faeg), Macel Caixeta, que, junto com os representantes dos produtores de outros estados, cobrará do governo federal gestões junto à Parmalat visando a garantir o pagamento dos seus fornecedores e solicitarão a liberação de Empréstimos do Governo Federal (EGF) para as cooperativas quitarem as dívidas com os pecuaristas.
A empresa deixou de repassar verbas para as cooperativas, desde a segunda quinzena de novembro, afetando milhares de produtores. Em Goiás, são cerca de dois mil prejudicados. Caixeta estima que cerca de nove mil produtores, 15% dos pecuaristas goianos, fornecem 900 mil litros de leite por dia para a indústria italiana.
Minas Gerais
A Parmalat também tem utilizado leite em pó como forma de pagamento aos fornecedores mineiros, afirmou ontem o presidente da Comissão do Leite da Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais), Eduardo Dessimoni. Segundo o dirigente, até o momento, foram identificadas cerca de seis cooperativas em Minas, a maioria no Triângulo Mineiro, que forneciam o produto à empresa italiana.
As cooperativas em todo o Estado, juntas, teriam cerca de R$ 400 mil a receber da concordatária. "O volume de recursos é pouco comparado à situação de outros Estados", disse Dessimoni. No entanto, ele reconheceu que "sempre há risco de calote".
Em sua opinião, a quebra da matriz italiana não deverá alterar o preço do leite para os produtores e consumidores e o Estado não será muito afetado com o plano de reestruturação da empresa.
O preço médio do litro do leite pago ao produtor, segundo a Faemg, varia entre R$ 0,38 e R$ 0,46. No entanto, Dessimoni teme que "oportunistas" utilizem o caso Parmalat para reduzir o preço do produto pago aos produtores independentes e às cooperativas. Ele ressaltou que o momento é de adequação do mercado em função da oferta do produto, "mas o meio industrial se ajusta rapidamente".
O presidente da Ocemg (Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais), Ronaldo Scucato, prevê que até a segunda quinzena do próximo mês o mercado esteja normalizado.
O principal desafio agora é garantir ao produtor de leite um destino para a sua produção. Embora não seja afetada pela insolvência da Parmalat italiana, a Cooperativa de Produtores Rurais de Pará de Minas (Coopara) teme que o mercado seja influenciado pela crise da gigante do setor alimentício. "Todo mercado fica sensível à essa notícia", opinou o presidente da Coopará, Jonas Morais Filho.
Rio de Janeiro
Além da reunião no Mapa, representantes de 11 cooperativas de leite das regiões norte e noroeste do Rio de Janeiro e da Faerj (Federação de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro) discutem hoje a questão das dívidas deixadas pela filial brasileira da empresa Parmalat, que não cumpriu compromissos financeiros equivalentes a R$ 4,8 milhões.
A reunião será presidida pelo secretário de Agricultura, Abastecimento, Pesca e Desenvolvimento do Interior, Christino Áureo, às 14h30, na Cooperativa Agropecuária de Itaperuna, no noroeste fluminense.
O secretário encaminhou à Procuradoria Geral do Estado pedido de estudo de viabilidade jurídica de futura ação contra a filial brasileira da Parmalat, com o objetivo de exigir o pagamento da dívida, parte já vencida e outra que vence amanhã, envolvendo 19 mil produtores de leite, segundo informações da Agência Brasil.
A Faerj proporá amanhã à direção da empresa italiana no Brasil o arrendamento ou compra da unidade industrial do noroeste fluminense. A fábrica processa 500 mil litros de leite por dia, dos quais 300 mil vêm das cooperativas da região e o restante é importado de outros estados.
Para o presidente da Federação, Rodolfo Tavares, a proposta deverá vir ao encontro de uma eventual estratégia da Parmalat de desmobilizar ativos no país. Ele citou como exemplo da re-adequação do perfil industrial da empresa, a venda, a partir de 2002, de 99,99% das ações da Companhia Brasileira de Laticínios (CBCL), imóveis e equipamentos em unidades em diversos estados como Minas e São Paulo e também do direito de uso das marcas Avaré e Neugebauer.
As empresas cooperativadas deverão formar uma nova empresa com o propósito específico de efetivar o arrendamento, para o qual contariam com apoio financeiro do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), embora o banco ainda não tenha sido consultado. "Estamos esperando o resultado da reunião de quarta-feira para poder fazer a consulta com bases sólidas ao BNDES", disse Tavares. Segundo ele, em caso de possibilidade de aquisição, as cooperativas pedirão parceria ao banco, com proposta de participação acionária.
Brasil
A Parmalat divulgou ontem comunicado à Bovespa informando que o pedido de concordata da matriz do grupo na Itália não tem efeito sobre as operações da empresa fora daquele país.
Segundo o texto, a divisão da Parmalat no Brasil se prepara para os eventuais impactos decorrentes do processo de reestruturação do grupo na Itália. A empresa lembra que vinha melhorando sua performance no Brasil desde o plano de reestruturação, há três anos.
O comunicado afirma que, "conforme vem sendo divulgado amplamente na imprensa, o Grupo Parmalat passa por um momento delicado. A interferência nesta situação está restrita à gestão na Matriz, mas merece uma atenção especial na forma de gerir as operações locais".
Fonte: Diário Catarinense (por Darci Debona), Jornal do Comércio/RS, O Popular/GO (por Sônia Ferreira), Diário da Manhã/GO, Diário do Comércio/MG (por Zu Moreira), O Tempo/MG e O Estado de S. Paulo, adaptado por Equipe MilkPoint
Estados são afetados pela crise da Parmalat; setor tem reunião hoje no Mapa
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 8 minutos de leitura
QUER ACESSAR O CONTEÚDO?
É GRATUITO!
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Publicado por:
MilkPoint
O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.