Especial: Produtores colhem a falta de opção no mercado de milho dentado

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Não há produtor de leite que circule pelo curral e não perceba algo curioso nas fezes das vacas que se alimentam de silagem de milho: grãos inteiros, quase intactos, excretados em meio às fezes dos animais. Uma ocorrência bastante comum em rebanhos alimentados com silagem de milho duro ("flint"), que chamou a atenção do veterinário, PhD em nutrição animal e professor de bovinocultura de leite da UFLA, Marcos Neves Pereira.

Em um trabalho conjunto entre a Universidade Federal de Lavras e a Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, Marcos orientou um experimento que comparou a digestibilidade do milho duro, muito usado no Brasil, com o milho dentado, de semente mais macia. A pesquisa, que foi realizada nos Estados Unidos, comprovou que diferente do milho dentado o milho duro não é bem digerido pela vaca, o que acarreta grande perda de amido pelo animal.

Em outro momento dos estudos, 14 sementes de milho americanas foram comparadas com outras 5 sementes brasileiras. O autor das pesquisas, o veterinário Clóvis Eduardo Corrêa, diz que o resultado dos testes não foi animador. "O híbrido mais macio do mercado brasileiro ainda é mais duro que os do mercado americano".

De acordo com o engenheiro agrônomo, especialista na cultura do milho, Renzo Garcia Von Pinho, os estudos de melhoramento para o desenvolvimento de milho dentado específico para silagem são muito trabalhosos e têm um custo muito alto. "As empresas fornecedoras de sementes acabam optando por selecionar e avaliar, em uma etapa final das pesquisas, aqueles cultivares que possam ser utilizados tanto para a produção de grãos como para a produção de silagem", comenta.

Como afirma Renzo, a resposta para falta de incentivo às pesquisas de melhoramento do milho dentado vem do mercado. Apenas 10% da área total de cultivo de milho no Brasil é de milho destinado para a produção de silagem. "O agricultor tem que ter mais opção de plantio. Existe a necessidade de aumentar a oferta de milho dentado no Brasil. Se o produtor quiser e exigir esse milho a empresa vai ter que investir nisso", acredita.

Há algum tempo, o professor Marcos orienta produtores a plantar o híbrido dentado. Ele diz que, "se usarmos grão duro na silagem, teremos que aumentar a concentração de carboidratos não fibrosos na dieta das vacas". Para ele, o milho macio ainda apresenta outras vantagens. Como no Brasil a ensilagem do milho é realizada no período chuvoso, sempre existe a chance haver atraso no ponto da colheita por problemas operacionais. "A janela de corte é maior para o milho dentado. O atraso na colheita é mais prejudicial à digestibilidade do amido em grãos duros que em dentados", diz.

Entre tantos benefícios existe uma dificuldade: o produtor rural brasileiro ainda não pode contar com muitas opções de híbridos dentados. Para se ter uma idéia, uma grande empresa fornecedora de sementes colocou no mercado o grão dentado há quinze anos e, de lá para cá, desenvolveu apenas mais um tipo de híbrido macio para o agricultor. O representante comercial da empresa, Manoel Lima Ramalho explica: "É que até então a empresa não vendia tanto dentado".

Segundo Manoel, a procura por sementes dentadas foi grande nos últimos anos. Ele afirma que só no Sul de Minas, 70% dos produtores de leite já preferem o híbrido dentado para a produção de silagem.

Produtividade certa

O agropecuarista José Augusto de Almeida terminou de encher os quatros silos de seu sítio, no Sul de Minas, no último dia 02 de março. As mil e duzentas toneladas de silagem produzida servirão de alimento para cerca de 55 vacas holandesas em produção.

Assistido por Marcos Pereira, José Augusto plantou o híbrido dentado, pela primeira vez, há quatro anos. Ele afirma que quando o assunto é produtividade o tipo de híbrido macio que ele planta supera o milho duro, tradicional. "É um milho muito bom para silagem. Ele rende tanto em grãos quanto em volumoso, porque é um milho de pé cheio e de espiga grande". De acordo com o produtor, o milho dentado chega a render 65 toneladas por hectare desde que bem plantado e adubado.

Como conta José Augusto, o milho dentado ainda facilita o trabalho na hora de encher o silo. "O milho duro passa direto na ensiladeira, a máquina não consegue quebrar o grão; já o milho mole é picado mais fino, mais moído", diz.

Diferenças não podem ser generalizadas

Muitos acreditam que a diferença entre o milho duro e o dentado está na cor do grão, tamanho da espiga ou mesmo no tamanho da planta, o que não é verdade. O engenheiro agrônomo Renzo Von Pinho diz que as diferenças entre esse dois tipos de cultivares não podem ser generalizadas, pois existe uma grande variabilidade genética entre elas. "A diferença básica está apenas na disposição dos glânulos de amido no endosperma do grão. No milho duro esses glânulos se encontram mais condensados, compactados. No milho mole, os glânulos de amido ficam dispostos mais frouxamente no grão o que provoca a formação de uma pequena depressão na cabeça da semente chamada de endentação", explica.

Fonte: MilkPoint, por Milena De Almeida
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