Eduardo Kashiwagi, Fazenda Vale Florido: as fusões chegam ao campo

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Eduardo Kashiwagi, de 27 anos, é engenheiro agrônomo formado em 1997 pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ/USP. Logo que se formou, foi para os Estados Unidos, onde permaneceu por 6 meses fazendo um curso de nutrição, no estado de Virginia. Quando voltou, assumiu a Fazenda Vale Florido, de sua família, em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba (SP). A Fazenda Vale Florido guarda algumas peculiaridades que a diferenciam de grande parte das propriedades leiteiras, a começar pela opção feita de trabalhar com a Raça Jersey, reconhecida pela composição do leite e pelo porte menor dos animais. Mas é no aspecto gerencial que vem a grande diferença: a fazenda está concluindo um processo raro entre produtores, pelo qual o rebanho da Vale Florido fundiu-se com o rebanho também jersey do produtor André Zanaga Zeitlin, de Americana (SP), localizado a mais de 300 km de distância. Pelo acordo, criou-se uma sociedade por cotas e os animais de Americana estão sendo transferidos para Cachoeira Paulista.

É justamente entender e comentar esse processo, que pode inclusive sinalizar uma tendência para mais produtores, o objetivo dessa entrevista, que foi feita pelo MilkPoint inicialmente para a Merial. Por fim, não podemos deixar de destacar mais uma peculiaridade da Fazenda Vale Florido e da nova sociedade que se forma: em uma região tradicional, cujo noticiário leiteiro tem sido marcado por liquidações de plantel e produtores migrando para outras regiões, estes produtores estão fixando raízes ainda mais profundas e investindo na atividade. Vale a pena conferir.


O que motivou a fusão ?

EK: Um dos motivos foi poder utilizar de modo mais imediato os recursos da fazenda. Demoraríamos muito tempo para crescer sozinhos a ponto de ocupar todos os recursos disponíveis, especialmente a terra. À medida que ocupamos a área, a venda de animais passa a se constituir em uma fonte de renda significativa para o empreendimento. Hoje, se alguém quiser comprar um bom volume de gado jersey, não vai encontrar com facilidade. Acreditamos que exista espaço para abastecer este mercado. Para justificar a fusão, entram também aspectos como a economia de escala. Em utilização de mão-de-obra, por exemplo, vamos ter praticamente metade do pessoal que tínhamos somando-se as duas fazendas individualmente. A fazenda em Americana tinha 10 funcionários e nós, 7. Hoje, com 10 funcionários, tocamos o novo rebanho. O custo de mão-de-obra por animal será pouco mais do que a metade do que é hoje, além dos ganhos em relação ao uso do maquinário e instalações. Há, também, o ganho gerencial. A junção de profissionais com experiência e formação distintas tem muito a acrescentar ao negócio, cada um com experiência em sua área de atuação.

No que exatamente consistiu a fusão dos dois rebanhos ?

EK: Dividimos a empresa em cotas e cada sócio tem uma parte nas cotas. A fusão, dessa forma, foi total. Não interessa mais que vaca veio de que fazenda, por exemplo. Achamos que, desta forma, elimina-se eventuais aspectos sentimentais que podem vir a criar problemas no andamento do projeto, podendo criar brechas para desavenças.

Para orientar a fusão, vocês se basearam em alguma experiência prévia ?

EK: Meu pai, Massaro Kashiwagi, tem larga experiência na área de fusões de empresas; muita coisa foi extrapolada dessa experiência. Procuramos também ver exemplos mais próximos das características de nossa atividade.

Não parece uma certa ironia vermos várias cooperativas se canibalizando ao evitar fusões que parecem um caminho natural, ao passo que produtores de leite como vocês estão partindo para essa alternativa ?

EK: Eu acho que isso representa uma evolução. Não sei se os produtores de forma geral estão evoluindo mais rapidamente do que as cooperativas. Nós discutimos durante muito tempo esta fusão. Acho que temos uma visão um pouco distinta da maior parte dos produtores, que permitiu que partíssemos para este caminho. Muitos produtores inclusive consideraram nossa decisão uma loucura. Queremos mostrar para outros produtores e até para a cooperativa que esse caminho não só é possível, mas muito interessante. Acredito que veremos, cada vez mais, este tipo de solução no setor.

Como está o projeto hoje ?

EK: O gado adulto de Americana está aqui há cerca de 30 dias, ao passo que o gado jovem ainda não veio. Estamos, portanto, no meio do processo, com a estrutura ainda sendo montada para operar a mudança abrupta no número de animais que ordenhamos. O processo de aclimatação dos animais está sendo de certa forma traumático, principalmente em relação às vacas que vieram de Americana. Notamos, nas primeiras semanas, grande competição no cocho e a produção de alguns destes animais caiu bastante. Hoje, a situação já está voltando ao normal. Talvez devessemos ter recebido os animais em lotes menores para evitar um choque muito grande. Por outro lado, há o argumento de que, trazendo de uma só vez, passa-se apenas uma vez pelo stress gerado pela mudança. Nosso objetivo é atingir 4000 litros diários a partir de 300 matrizes da raça jersey. Hoje, estamos com 2400 litros diários de leite, com cerca de 90% das matrizes previstas.

Você poderia nos dar uma breve descrição do sistema de produção da fazenda ?

EK: A fazenda possui 50 alqueires (120 hectares) destinados ao rebanho, sendo 30 alqueires destinados ao rebanho adulto (72 hectares) e o restante sendo preparado para receber o gado jovem, que está ainda parcialmente em Americana, devendo chegar aqui no início do verão.

A fusão nos fez ajustar o sistema de produção adotado. Até pouco tempo, tínhamos um pouco de pastejo rotacionado de tanzânia em 7 hectares, utilizado mais para vacas secas. No verão do ano passado, começamos a usar também o pasto para vacas em lactação, porém enfrentando uma série de problemas. Acho que, em relação a esse plantio inicial, escolhemos uma área inadequada, com topografia desfavorável, longe do curral, com pouca sombra e problemas de água. O sistema de alimentação de verão será baseado no pastejo rotacionado, com suplementação.

Para isso, a área foi aumentada ?

EK: Plantamos no decorrer de um ano, 17 hectares de capim elefante para serem utilizados na forma de pastejo rotacionado no verão, para todo o rebanho. Temos, no total, 24 hectares para pastejo. Nesse primeiro ano, a produção desta área está sendo integralmente colhida na forma de silagem, visto que o rebanho aumentou de forma abrupta pela fusão e não teríamos como passar o inverno. Inclusive, estamos tendo que comprar silagem de milho, porque mesmo com o capim elefante ensilado, não teríamos como alimentar o rebanho combinado das duas fazendas. O custo ainda assim é menor do que se produzíssemos aqui, em função da topografia, solo e infra-estrutura disponível.

Em relação à suplementação de inverno, também temos mudanças. Nosso sistema baseava-se em silagem de milho e silagem de capim elefante. Em função da limitação de área, com o aumento do número de animais, nossa alternativa passou a ser a silagem de capim e a cana-de-açúcar, que produzem mais matéria seca por hectare do que a silagem de milho. Nesse sentido, já temos 7 a 8 hectares plantados de cana. O manejo de alimentação do gado jovem será também baseado em cana-de-açúcar no inverno e pastejo rotacionado no verão.

Como vocês vão trabalhar a suplementação concentrada dos animais no verão ?

EK: Ainda não definimos totalmente essa questão. O gado jersey produz um leite mais rico em nutrientes e, portanto, a suplementação deve fugir da recomendação padrão, de 1 kg de concentrado para cada 3 kg de leite. Por estarmos no início do projeto, estamos pagando para ver. Muito precisa ser ainda aprendido, com o próprio dia-a-dia, em relação ao comportamento dos animais no pastejo e à suplementação propriamente dita. Nossa experiência com pastejo de vacas em lactação é muito recente ainda. O desafio começa mesmo a partir desse verão. Agora, no inverno, trabalhamos com ração total, onde todos os alimentos são fornecidos no cocho e que apresenta maior facilidade de manejo e menor variabilidade na dieta.

Quais são os principais desafios práticos para o pastejo ?

EK: Faltam informações técnicas e também práticas. Sempre que achávamos que estávamos prontos para iniciar o pastejo, ocorriam problemas que não haviam sido previstos. Nesses dois anos e, com o apoio de pesquisadores como Artur Chinelato, temos conseguido entender melhor o processo, embora muito ainda precise ser feito.

O pastejo é mais rentável que o confinamento ?

EK: Ainda é muito cedo, em nosso caso, para dizer que o retorno do pastejo é superior ao confinamento. Ainda precisamos levantar os nossos números, especialmente após a fusão, que está apenas se iniciando. Independentemente disso, nossa percepção é que o pastejo oferece maior flexibilidade, permitindo que o nível de suplementação seja adequado ao momento de mercado. A nossa escolha se deu em função dessa argumentação.

E porque o Jersey ?

EK: Foi uma escolha do meu pai, procurando olhar para o futuro. O leite de jersey é mais rico em sólidos e, naquela época, muito se falava em pagamento por sólidos nos Estados Unidos. Ele tinha a visão de que não demoraria muito para essa tendência chegar aqui também. Há, ainda, aspectos técnicos e de manejo. A fertilidade é maior e o manejo, mais fácil. Os problemas de casco, por exemplo, são quase inexistentes, exceto quando há algum erro no balanceamento das dietas. Temos novilhas parindo bem, com 21, 22 meses. Com tudo isso, o descarte é menor e o crescimento do rebanho (ou venda de animais) tende a ser maior. O gado holandês, sem dúvida, produz mais leite, o que pode gerar um retorno maior quando se analisa um horizonte mais imediato. Nossa escolha foi pensando em uma alternativa futura.

Vocês estão investido em uma região que não passa por bons momentos na pecuária de leite. Qual a sua percepção sobre o futuro da pecuária de leite no Vale do Paraíba ?

EK: O Vale do Paraíba tem uma característica de tradicionalismo muito forte, que impede a adoção de mudanças que são necessárias. Quem não mudar, não procurar reduzir custos, otimizar o uso dos recursos, melhorar o rebanho, vai sair. Eu acho que quem procurar se adequar vai ficar na atividade, porque, afinal de contas, o Vale do Paraíba é ainda o local de melhor preço de leite. Por isso, não vemos muito porque sair daqui e ir para uma região que remunere menos. Estamos também próximos aos grandes mercados consumidores, entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. É uma região estratégica, tanto para fornecimento à cooperativa, como para distribuição de leite visando o mercado consumidor.

Hoje, onde vocês entregam o leite ?

EK: Na Cooperativa de Lorena, que faz parte do Sistema Paulista. Se considerarmos a média anual, Lorena tem o melhor preço de leite do Brasil. Acho que o futuro está muito ligado à abertura para discussão dos problemas, à participação, à busca de soluções, o que a Cooperativa de Lorena tem conseguido fazer, ainda que possa ser melhorado. Pelo menos um terço dos cooperados participa ativamente das decisões, em reuniões mensais, visando reduzir o custo da cooperativa e reverter isso ao produtor. É importante difundir o que está sendo feito aqui para outras cooperativas, pois parte do caminho que leva ao futuro é justamente esse.

A Cooperativa de Lorena se envolveu em um projeto de divulgação de leite em escolas. Como foi isso ?

EK: No ano passado, a Láctea Brasil e a Cooperativa de Lorena se associaram para fomentar o consumo de leite em Lorena. A Cooperativa entrou com o leite para degustação, e a Láctea Brasil com cartilhas e material de vídeo. Os produtores entraram com a execução propriamente dita: apresentação do produto, organização do trabalho e deslocamento até as escolas. Estamos procurando mais parcerias, inclusive com outras entidades dentro de Lorena, mas acho que foi algo muito positivo. Foi a primeira vez que trabalhamos a cooperativa junto a uma entidade não ligada a ela.

Os resultados foram positivos ?

EK: O retorno regional foi grande, sem dúvida. Porém, mais importante do que os resultados em si (visto que a ação é pontual), é o indicativo de que o produtor pode e deve fazer alguma coisa. É uma maneira indireta de começarmos a reunir produtores para discutir outros problemas. Acho que quando todos na cadeia do leite perceberem os ganhos de ações como essas, teremos realmente condições de fazer algo de porte, visando um público mais amplo, e que pode mudar o mercado.
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kazeli
KAZELI

DELFIM MOREIRA - MINAS GERAIS

EM 29/10/2012

Eduardo não sei se vai lembrar-se de mim,sou Kazeli Mizael da Silva e fui seu estágiario em 2004, preciso saber se voce ainda ta na fazenda e mexendo com vacas jersey por favor me envie uma resposta por email ou me ligue meus contatos são (35)99212167 ou kazelimdasilva@hotmail.com,um forte abraço desse apaixonado por jersey.
Qual a sua dúvida hoje?