Diagnóstico da Qualidade do Leite na Microrregião de Pirassununga Parte 2. Qualidade do Leite e Meios de Comunicação

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Por Alexandre Olival1, Andrezza Alves Spexoto1, Gustavo B. Mano2 e Marcos Veiga dos Santos2

1) Introdução

Esta segunda parte da pesquisa objetivou levantar a qualidade atual do leite na microrregião, através da coleta de amostras de leite em todos os produtores entrevistados, e avaliar quais os possíveis meios de comunicação poderiam ser utilizados para um projeto de educação e treinamento voltado ao tema - levantamento por meio de entrevistas.

Como parâmetros de qualidade utilizou-se a Contagem Bacteriana Total (CBT) e a Contagem de Células Somáticas (CCS). Para todas as análises foram utilizadas amostras representativas da produção total de cada propriedade (1 amostra/propriedade). A Tabela 1 mostra o total de produtores amostrados e existentes na microrregião de acordo com a produção diária de leite.

Tabela 1. Número de produtores entrevistados de acordo com a produção diária de leite



Serão apresentados primeiramente os resultados referentes aos meios de comunicação mais utilizados e em seguida os resultados das análises laboratoriais. É importante destacar que os hábitos de utilização dos meios de comunicação levantados dizem respeito aos produtores da microrregião específica - pesquisas de igual teor em outras regiões são de fundamental importância antes de traçar planos de utilização de tais meios de comunicação.

2) Resultados Obtidos

2.1 Meios de Comunicação
A Tabela 2 ilustra um fato bastante problemático da pecuária leiteira nacional - os produtores de qualquer nível de produção não estão acostumados a reunirem-se para discussões sobre resoluções de problemas que os afetam. Como demonstrado na tabela, cerca de 83,91% dos produtores da microrregião não possuem o hábito de reunir-se com outros produtores para discutir temas de interesse comum. Algumas causas para este fenômeno podem ser apontadas, tais como: sentimento individualista na atividade, falta de filosofia de grupo (principalmente nos pequenos produtores, que acreditam estar à margem da situação), descrença na capacidade própria de resolver os problemas, entre outros pontos. Em um quadro como este é difícil a elaboração de propostas que conciliam pequenos, médios e grandes produtores.

Tabela 2. Locais mais comumente utilizados para encontros com outros membros da comunidade para discussão de problemas.



A falta de hábito de trabalhar em grupo, aliada à falta de assistência técnica, oficial ou privada (conforme exposto no artigo anterior), faz surgir a necessidade de utilização de meios de comunicação de massa para levar informações técnicas aos produtores rurais da região. Neste sentido, foi pesquisada a efetividade do rádio e dos jornais para levar informação aos produtores. Os resultados estão expostos nas Tabelas 3 a 6. Estes meios foram escolhidos, pois seu acesso é fácil e de baixo custo.

Os resultados mostram que o rádio continua sendo o principal meio de comunicação utilizado pela população rural, principalmente dentre os pequenos produtores - aproximadamente 70% da população local possui o hábito de escutar rádio, sendo que praticamente 50% de toda a população escuta rádio especificamente para saber de notícias ou informações em geral. Quanto ao horário, ficou comprovado que programas que possam ser veiculados pela manhã, principalmente nas primeiras horas do dia, poderão ser mais ouvidos (horário da primeira ordenha, geralmente acompanhada por um rádio de pilhas). Além disso, poderão ser utilizadas rádios regionais (que abrangem mais de um município), pois foram estas as principais rádios mencionadas pelos produtores entrevistados.

Tabela 3. Hábitos de escutar rádio, de acordo com a finalidade:



Tabela 4. Horários mais freqüentes para escutar rádio:



Tabela 5. Rádios mais ouvidas pelos produtores entrevistados



Por outro lado, os jornais não se constituem como meio eficiente de levar informação ao público rural (aproximadamente 76% da população pesquisada não possui o hábito de ler jornal). Este fato aponta para duas questões importantes: primeiro, a desinformação geral que o produtor rural vive (mesmo grandes produtores) e, segundo, a ineficiência dos meios impressos de comunicação para o público. Incluem-se neste ponto: jornais de cooperativas, folhetos de informação técnica, panfletos, etc. - para este público específico, nenhum destes meios se mostraria eficiente na transmissão de informações técnicas, demonstrando novamente a importância do desenvolvimento de pesquisas como esta antes da elaboração de produtos educativos.

Tabela 6. Jornal mais lido pelos produtores entrevistados



Uma possível alternativa para o trabalho de educação rural é o desenvolvimento de atividades voltadas às crianças, filhos e filhas de produtores rurais. Para avaliar esta possibilidade, foram levantados os locais de estudo desta população. Os resultados mostraram que grande parte dos filhos dos produtores rurais não estuda em escolas localizadas nas zonas rurais, mas sim em escolas municipais nas zonas urbanas. Este quadro é extremamente prejudicial à produção rural: ao mesmo tempo em que cria uma cultura urbana nas crianças, desestimulando a permanência no campo e facilitando a eliminação da mão de obra familiar do campo, o aprendizado a partir da realidade urbana se mostra mais difícil para as crianças nascidas no meio rural. Esta situação mostra a urgência do desenvolvimento de projetos junto às escolas, em uma tentativa de reverter este quadro.

Tabela 7. Local de estudo dos filhos dos produtores entrevistados



2.1 Qualidade do Leite

As tabelas 8 e 9 mostram que, caso fosse instituído o limite de 1.000.000 ufc/ml e de 1.000.000 cel/ml para CBT e CCS, cerca de 24% dos produtores estariam desqualificados por conta da CBT e cerca de 13,58% por conta da CCS. Considerando a última fase da nova regulamentação de leite cru através da Instrução Normativa 51 de 2002, esta porcentagem seria de 75% de produtores desqualificados por conta da CBT e 48% por conta da CCS.

Estes resultados mostram primeiramente a necessidade de treinamento e educação dos produtores para a qualidade do leite - a desqualificação de 24% das amostras analisadas por conta de uma elevada contaminação bacteriana constitui um enorme entrave para o desenvolvimento da pecuária leiteira do Brasil. Em segundo lugar, os dados mostram que, nas condições pesquisadas, a contaminação bacteriana continua sendo o principal problema enfrentado pelos produtores. É interessante observar que a medida em que há aumento de produção, a contagem de células somáticas vai se mostrando mais importante, sendo o principal quesito de desqualificação dos produtores com produção superior a 400 litros de leite.

Tabela 8. Porcentagem de produtores com diferentes CBT no leite



Tabela 9. Porcentagem de produtores com diferentes CBT no leite



Como foram observadas grandes variações de resultados entre as análises efetuadas (produtores com CBT de 10.000 e produtores com CBT de 12.000.000 ufc/ml), optou-se por analisar e apresentar os resultados a partir do Log da CBT e Log da CCS. A Tabela 10 mostra as médias obtidas em cada estrato de produção:

Tabela 10. Resultados da média da CBT e CCS dos produtores analisados



Tabela 11. Coeficiente de correlação entre produção de leite e CBT, Log CBT, CCS e Log CCS nas propriedades estudadas.



De acordo com os resultados apresentados nas Tabelas 10 e 11, a CBT do leite não foi associada ao volume de produção diária, visto que foram observados resultados de CBT variáveis independentemente da produção (resultando em um coeficiente de correlação baixo e não significativo). Por outro lado, a CCS (quando analisada através do seu logaritmo) apresentou correlação positiva com a produção diária de leite (r = 0,34 - P < 0,05), demonstrando que a medida em que há aumento da produção diária de leite, ocorre aumento na CCS dos rebanhos. Este fato, no entanto, não implica que o volume diário de produção seja a causa do aumento da CCS nos rebanhos estudados, pois com a implementação de medidas de controle é possível a existência de baixa CCS em rebanhos grandes.

CONCLUSÕES FINAIS

Os resultados obtidos com a presente pesquisa apontam para a necessidade inadiável do desenvolvimento de programas efetivos de treinamento e educação rural, com vistas à melhoria da qualidade do leite. A ausência de tais programas aliada com a execução das medidas punitivas previstas na Instrução Normativa no. 51 podem acarretar em dificuldades para grande contigente de produtores em atender aos requisitos mínimos de qualidade do leite, ou o seu deslocamento para o mercado informal, cujo crescimento é bastante preocupante para a cadeia do leite e para os consumidores.

Deve-se ainda destacar a necessidade de estímulo ao desenvolvimento do espírito de grupo nos produtores rurais, incentivando formas de organização de produtores. Sendo assim, o tema da melhoria da qualidade do leite pode ser o elemento catalisador de ações para trabalhar estes aspectos de organização. Além disso, não se deve descartar a possibilidade da utilização dos meios de comunicação de massa como ferramenta de capacitação dos produtores, em particular o rádio, meio que ainda se destaca como uma das principais vias de informação ao público rural.

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1 Instituto Fernando Costa: Rua Gal. Osório, 508 sala 21 Pirassununga, SP. Tel: (19) 35167491

2 Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/USP: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Pirassununga, SP.
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