
David Pelzer é Vice-Presidente da Dairy Management Inc, a entidade que recolhe uma taxa sobre todo o leite produzido nos Estados Unidos, com o objetivo de investir em pesquisa, promoção e desenvolvimento do mercado para lácteos, com verba de mais de US$ 230 milhões anuais. A famosa campanha Got Milk ?, por exemplo, é conduzida pela DMI. David Pelzer deu esta entrevista exclusiva ao MilkPoint no evento 3D - New Dimensions in Dairy Development, realizado entre 11 e 13 de junho na sede da DeLaval, na Suécia, reunindo membros de dezenas de países para discutir as tendências da produção, do consumo e do bem-estar animal.
Pelzer falou sobre as tendências de consumo de lácteos, sobre os problemas de obesidade e sobre marketing institucional do leite. Vale lembrar que, em agosto próximo, Craig Plymesser, outro Vice-Presidente da DMI, virá ao Brasil quando dará palestra no 6º Interleite (clique aqui para mais informações).
MilkPoint: Quais são as tendências para consumo de lácteos nos Estados Unidos?
David Pelzer: Nos últimos 20 anos, estamos vivenciando um aumento do consumo per capita de produtos lácteos da ordem de 12%, motivado pelo crescimento do consumo de queijos. Já o consumo de leite fluido tem se reduzido um pouco, em uma taxa relativamente constante, desde 1962. Em alguns anos, há queda, ao passo que, em outros, há estabilidade. Em resumo, as pessoas estão consumindo um pouco menos de leite fluido e muito mais queijo. Também, estamos comercializando mais soro e produtos secos, como leite em pó. O consumo de iogurtes também tem crescido. Já o consumo de manteiga é muito dependente do preço. Quando o preço cai, o consumo aumenta um pouco, com o oposto ocorrendo quando o preço sobe. No geral, porém, o consumo de manteiga apresenta ligeira tendência de queda, porém com algum crescimento nos últimos anos. Temos feito cada vez mais pesquisas com produtos com baixo teor de gordura, pois acreditamos que a tendência de aumento de consumo destes produtos continuará, especialmente em função do problema crescente que temos com a obesidade.
MKP: Porque o consumo de leite fluido caiu e o de queijos aumentou?
DP: Em relação ao leite fluido, boa parte da razão da redução no consumo se dá pelo fato do leite não "viajar" adequadamente. De fato, o leite tradicionalmente é consumido em casa, sendo comercializado em galões ou litros, cujo conteúdo é colocado em um copo. É muito difícil fazer isso quando se está com pressa, indo para o escritório ou para a escola. A indústria não está historicamente fazendo um bom trabalho de acompanhar o consumidor, à medida em que ele faz mais refeições fora de casa. Por outro lado, já no setor de queijos, pode-se considerar que tem sido feito um bom trabalho nesse sentido. Nos restaurantes, o queijo está disponível em diversas formas, sendo isso parte da explicação para o aumento do consumo de queijos, em oposição ao que ocorreu com o leite fluido. O leite fluido também sofre a competição direta de outras bebidas. Há 30 anos atrás, não havia muitas opções, mas hoje há uma enormidade de produtos, como águas, sucos, refrigerantes, com as mais variadas características. O leite fica meio perdido junto a tantas opções. Nós precisamos manter o leite na mente nas pessoas para solucionar essa situação, além de atuar no lançamento de novos produtos e novas embalagens.
MKP: Recentemente, empresas como a Coca-Cola e a Cadbury Schweppes, tradicionais fabricantes de refrigerantes, anunciaram produtos à base de leite. Como a indústria de lácteos dos EUA vê essa nova possibilidade?
DP: Esperamos que seja algo realmente muito bom. Se existem coisas que estas empresas fazem de forma muito eficiente é o marketing e a distribuição. Você pode encontrar seus produtos em quase todos os lugares. Se o leite estiver presente nestes produtos, será um ponto positivo para o setor. A dúvida, neste momento, é que ainda não estamos certos em que grau estas empresas estão realmente comprometidas com o leite. Se tivermos um produto com, por exemplo, 10% de leite e 90% de outros ingredientes, não haverá grande benefício ao produtor. Mas estamos confiantes de que isso não ocorrerá. A Cadbury Schweppes está lançando um produto com mais 50% de leite. A empresa está, inclusive, postulando a utilização do selo Real Seal, utilizado no rótulo de alimentos que cumpram determinados requisitos e que tenham mais de 50% de leite ou ingredientes lácteos em sua composição. Diversos distritos escolares dos Estados Unidos, como os de Los Angeles, baniram recentemente os refrigerantes das cantinas escolares, de forma que estas empresas estão se preparando para não perder estes mercados. Elas deverão produzir mais sucos ou bebidas com leite. Mesmo nos sucos, terão de alterar as formulações, substituindo açúcar por produtos nutritivos. Há, portanto, boas chances de utilização crescente de lácteos nestas formulações.
MKP: Como está a preocupação com a obesidade nos Estados Unidos?
DP: Há, de fato, uma preocupação crescente com a obesidade entre os nutricionistas, médicos e especialistas em saúde. Já em relação aos consumidores, esta tendência é bem mais fraca, visto que o consumo de alimentos com alto teor de gordura continua elevado. O fato é que estamos comendo em quantidade excessiva alimentos com alto conteúdo calórico. Há publicidade crescente estimulando o consumo de dietas mais ricas em proteína. Estamos atentos a esta pressão. Na área de pesquisa de queijos, por exemplo, procuramos desenvolver produtos com baixo teor de gordura. O maior problema em relação a isso tem sido manter o sabor do queijo com teor normal de gordura. As pessoas querem um queijo com baixa gordura, mas com o mesmo sabor. Isso não tem sido fácil.
MKP: Esta preocupação com a obesidade pode gerar riscos para empresas de alimentos?
DP: Nos Estados Unidos, temos um hábito de processar as pessoas ! (risos). Na área de cigarros, há um grande debate sobre a razão pela qual as pessoas fumam: até onde pesa a escolha individual, qual a responsabilidade das empresas de cigarros ? Há suficiente evidência que as propriedades viciantes da nicotina inalada ao se fumar, de forma que as pessoas estão processando os fabricantes de cigarro. Quando pensamos nos alimentos, a relação fica bem menos evidente, mas as pessoas estão procurando os mesmos argumentos em alimentos que consideram nocivos à sua saúde. Recentemente, um consumidor processou o McDonald's por ter se tornado obeso. Ele perdeu a causa, mas serviu de alerta. As empresas de fast food, com o McDonald's sendo o maior destaque, serão cada vez mais sensíveis a essa realidade, deixando claro o valor nutricional de seus produtos e valorizando produtos mais nutritivos, sendo esta uma ótima oportunidade para a comercialização de lácteos.
MKP: Como está a experiência de comercialização de leite no McDonald's?
DP: Eles estão comercializando ao preço de US$ 0,80 a 0,90 a unidade, em embalagens cartonadas muito tradicionais. Só se pode comprar um único tipo de leite. Na média, eles vendem 24 milhões de galões por ano (cerca de 90 milhões de litros) nos Estados Unidos, o que dá uma média de apenas 5 unidades por loja por dia, o que é quase nada. Há, portanto, um grande potencial para crescimento, mas queremos convencê-los a mudar a embalagem e oferecer mais sabores. Estamos muito otimistas e esperamos que no próximo verão ou no início do outono o McDonald's começará, em base permanente, a oferecer leite achocolatado, bem como utilizar embalagens plásticas mais atrativas.
MKP: De onde vem o dinheiro da Dairy Management?
DP: Todo nosso dinheiro vem dos produtores de leite. Eles pagam cerca de US$ 0,0033 por quilo de leite, que são direcionados a DMI. É o chamado "dairy checkoff", cuja retenção é obrigatória, de acordo com o interesse dos próprios produtores.
MKP: A indústria de laticínios não paga nada?
DP: Os processadores têm um fundo próprio, para o mercado de leite fluido. Em 1995, no mesmo ano em que a DMI foi criada, eles criaram um fundo próprio no valor de US$ 0,0044 por quilo, chamado MilkPEP, com bons resultados. A campanha do bigode, por exemplo, foi produto gerado pelo MilkPEP. Eles têm aproximadamente US$ 100 milhões anuais para propaganda e pesquisa. Há ações em conjunto entre as duas entidades, como por exemplo para a utilização crescente de "vending machines" (máquinas automáticas onde o consumidor adquire leite), desenvolvimento de novos produtos, como leites flavorizados e novas embalagens. Em relação ao marketing, o MilkPEP está focado mais em adolescentes e adultos jovens, ao passo que a DMI foca crianças e suas mães. Há uma ação coordenada entre as duas instituições, evitando duplicação de ações e desperdício de recursos.
MKP: Recentemente, houve um debate a respeito de uma propaganda, na Califórnia, que retratava vacas pastejando tranquilamente, com seus bezerros. Entidades radicais como o PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) argumentaram que se tratava de propaganda enganosa, visto que a grande maioria das vacas da Califórnia fica confinada e não vê seus bezerros senão logo após o parto. Que lição podemos tirar desse episódio?
DP: Na Califórnia, há a organização California Milk Advisory Board, que é independente da DMI, recebendo US$ 0,002 por quilo dos US$ 0,0033 retidos no dairy checkoff. Eles têm seus próprios projetos de marketing, com o objetivo de vender queijo especificamente da Califórnia. Eles têm US$ 20 milhões de dólares anuais para esse fim. Nós últimos 2 anos, a CMAB lançou uma campanha de TV muito bem sucedida, com o nome Happy Cows (Vacas Felizes), mostrando que estas vacas felizes produziam o leite que era utilizado nos queijos da Califórnia. A campanha foi muito popular, mas grupos de direitos animais protestaram, argumentando que as vacas da Califórnia não viviam em pastagens, mas sim em condições miseráveis, amontoadas em piquetes com lama e esterco. A Federal Trade Comission julgou o caso e considerou os anúncios apropriados, embora o debate ainda esteja ocorrendo. Os grupos radicais de direitos animais sempre buscarão novas formas de ganhar publicidade junto à sociedade.
MKP: Qual é a visão que os consumidores norte-americanos tem dos produtores de leite?
DP: A maior parte dos consumidores preza muito os produtores de leite. Eles acham que os produtores trabalham muito, cuidam do meio-ambiente e produzem leite de qualidade. Dito isso, é preciso reconhecer que muitos consumidores não têm a menor idéia de como o leite é produzido na fazenda e nunca visitaram uma fazenda de leite. Desta forma, esse apoio é largo, mas um tanto raso, tornando importante que mais informações sobre a produção de leite cheguem aos consumidores para que estes fiquem mais imunes às distorções propostas por grupos como o PETA. Estamos procurando treinar os produtores a contar sua história e sua realidade junto à mídia e à população urbana. Como eles têm alta credibilidade junto à população, são os mais indicados para informar o público a respeito de como o leite é produzido em suas fazendas.