Compra da americana Hershey Foods pode diluir ganhos da Nestlé

Publicado por: MilkPoint

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Não há dúvida que a Nestlé é uma grande potência global, com marcas conhecidíssimas como Crunch, Nescafé e Friskies. Mas em seus 136 anos de vida a gigante suíça já levou muitas surras no mercado norte-americano lutando para alcançar suas concorrentes Kraft Foods e General Mills.

"Não tivemos sucesso nos Estados Unidos nem em termos de crescimento, nem em lucratividade", reconhece Joe M. Weller, há sete anos o principal executivo da Nestlé USA, com base em Glendale, Califórnia. Weller, de 57 anos, e seus chefes na sede em Vevey, na Suíça, esperam conseguir por meio das aquisições o crescimento que até agora foi impossível.

Nos últimos 18 anos a Nestlé engordou com três grandes compras. Pagou US$ 10,3 bilhões pela fortíssima marca de alimentos para animais Ralston Purina. Em seguida desembolsou US$ 2,6 bilhões por parte do controle da Dreyer's Grand Ice Cream, que possui ou licencia as marcas Dreyer's, Edy's, Starbucks e Godiva.

Em 6 de agosto anunciou um negócio no valor de US$ 2,6 bilhões pela Chef América, empresa de Englewood, Colorado, fabricante da Hot Pockets, um lanche congelado campeão de vendas, recheado de queijo e carne.

Tudo isso deve ajudar Weller a tornar-se o número 1 ou o número 2 em cada segmento do mercado de alimentos. Mas há uma decisão muito mais importante: fazer uma oferta pela Hershey Foods, a rainha das lojas americanas de doces e chocolates que, em breve, deve ser posta à venda.

Comprando a participação de mercado de 44% no segmento de doces e chocolates da Hershey, que domina o mercado americano de doces e chocolates, a Nestlé, que tem 11%, seria a líder do mercado americano.

A companhia suíça pode facilmente pagar os US$ 11 bilhões esperados pela Hershey e também tem condições de vencer outras possíveis ofertas, como a da Kraft Foods. Mas talvez chegue à conclusão de que o preço não vale a pena.

Como já está com as mãos cheias com suas as recentes aquisições, comprar a Hershey poderia prejudicar o altíssimo crédito de que desfruta e ainda diluir seus ganhos. Pior do que isso, a Nestlé também pode ter problemas com a legislação antitruste, por abocanhar uma fatia tão grande do mercado, diz o analista da Prudential Securities, John M. McMillin.

Weller reconhece que a atual posição da Nestlé como número 3 no mercado americano de doces, atrás da Mars e da Hershey, é problemática. "Precisamos nos fortalecer nessa área", diz.

Comprar a Hershey pode ajudar a Nestlé a atingir sua meta de 4% de crescimento anual das vendas internas, ao ganhar mais presença no mercado de doces, setor de pequeno crescimento, em expansão anual de apenas 2,5%. A Nestlé não revela seus resultados para a venda de chocolates nos EUA. Mas os lucros da Hershey, antes das despesas não recorrentes, subiram 14,5% no ano passado, alcançando US$ 378 milhões. Suas vendas subiram 8%, atingindo US$ 4,6 bilhões.

"A Hershey talvez seja uma guloseima apetitosa demais para a Nestlé deixar passar", diz o sócio da Cannondale Associates, consultoria de Westport, Connecticut, Donald Stuart.

Os ganhos mundiais da Nestlé subiram quase 13%, chegando a US$ 4 bilhões devido, em parte, a seus esforços de reestruturação e redução de custos. As vendas globais da Nestlé em todas as categorias, algumas de crescimento muito mais rápido que a dos doces, subiram 1% em 2001, batendo em US$ 50,4 bilhões. Cerca de um quarto dessas vendas veio do mercado americano.

Weller não comenta uma oferta pela Hershey, mas até agora os investidores deram apoio à política da Nestlé. Por exemplo, levantaram o preço das ações da empresa em 7%, chegando a US$ 227 na bolsa de Zurique, na semana após o anúncio da compra da Chef América. Com US$ 10 bilhões em dinheiro vivo no final de 2001 e US$ 5,1 bilhões em fluxo de caixa no ano passado, a Nestlé pode facilmente financiar outra aquisição.

Mesmo assim, Wall Street pode não gostar dos efeitos imediatos da aquisição da Hershey. Os analistas afirmam que, com o aumento da dívida líquida da empresa (sua dívida bruta menos seus ativos líquidos) subindo de US$ 2 bilhões para cerca de US$ 13 bilhões depois das recentes aquisições, os investidores também aumentarão a pressão para que a Nestlé transforme todas as suas novas marcas em lucrativas líderes nas respectivas categorias.

O analista da Schroder Salomon Smith Barney, Andy Smith, calcula que se a Nestlé pagar US$ 12,5 bilhões pela Hershey, vai acabar diluindo seus ganhos em cerca de 4% no primeiro ano.

Naturalmente, a Nestlé há muito vem refletindo sobre suas opções estratégicas a longo prazo e pode estar disposta a suportar uma breve queda nos ganhos. Entretanto, o analista da Standard & Poor, Christian Wenk, diz que para conservar o grande valor de suas ações a Nestlé terá de aumentar o fluxo de caixa de suas operações, subindo dos atuais 46% da dívida para 90% até 2004. Isso pode implicar na venda de mais ativos não-essenciais. A Nestlé já levantou US$ 2,3 bilhões em março vendendo 24% da Alcon, sua divisão de produtos oftalmológicos.

Weller afirma que vai economizar US$ 260 milhões por ano a partir do negócio fechado com a Ralston Purina. Se a economia americana tornar a cair na recessão e os consumidores ficarem hesitantes em gastar, todo esse processo de reestruturação se tornará muito mais complicado. Vários produtos que ela acaba de comprar nessa última onda de aquisições, inclusive os da Dreyer's e a Purina ProPlan, têm preços a varejo mais altos que a média em suas categorias. Isso os torna difíceis de vender numa economia fraca, quando os consumidores são mais atraídos pelas marcas genéricas, mais conhecidas e de preços mais baixos.

Há muito trabalho a fazer mesmo se a Nestlé decidir não comprar a Hershey.

Fonte: Valor On Line, adaptado por Equipe MilkPoint
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