O setor de lácteos da China atravessa um período de profunda transformação. Ao longo da última década, o país intensificou políticas voltadas à autossuficiência em produtos lácteos, movimento que ganhou ainda mais força durante a pandemia, quando a segurança alimentar passou a ocupar posição central na agenda nacional. Como resultado, a produção doméstica de leite cresceu de forma acelerada.
No centro dessa estratégia está a expansão das grandes fazendas leiteiras industriais. Essas unidades, frequentemente chamadas de “mega fazendas”, operam com genética avançada, vacas de alta produtividade importadas e sistemas automatizados de ordenha. Esse modelo permitiu que a produção nacional de leite alcançasse quase 42 milhões de toneladas em 2023, superando as metas oficiais antes do previsto. Em paralelo, as pequenas fazendas familiares perderam espaço, à medida que as grandes operações passaram a dominar o setor.
Apesar do avanço da oferta, a demanda não acompanhou o mesmo ritmo. Nos últimos anos, o consumo per capita de lácteos na China recuou. O enfraquecimento da economia reduziu os gastos das famílias, enquanto mudanças nos hábitos alimentares limitaram o crescimento do consumo de leite líquido. Somam-se a esse cenário fatores demográficos, como taxas de natalidade historicamente baixas, que impactaram a demanda por produtos como fórmulas infantis.
O descompasso entre oferta e demanda resultou em um excedente estrutural de leite. Em diversas regiões, os preços do leite cru passaram a ficar abaixo dos custos de produção. Diante desse contexto, produtores menores e menos eficientes vêm se consolidando ou deixando a atividade.
O excesso de oferta também reduziu a necessidade de importações. Em 2023, as compras totais de lácteos pela China caíram cerca de 12%, com destaque para o leite em pó integral, cujas importações recuaram aproximadamente 38%. Esse movimento afetou diretamente exportadores tradicionais, como Nova Zelândia, União Europeia e Austrália, que registraram queda nos volumes destinados ao mercado chinês.
Ao mesmo tempo, a China passou a explorar de forma mais estratégica seu potencial como exportadora de lácteos. Embora os volumes ainda fossem relativamente modestos quando comparados aos grandes players globais, o movimento de expansão tornou-se evidente. Em 2024, o país embarcou cerca de 70 mil toneladas de produtos lácteos, com destaque para o leite em pó, destinadas principalmente a mercados do Sudeste Asiático, África, Oriente Médio e Ásia Central. Esse avanço esteve associado tanto à ampliação da capacidade industrial quanto à necessidade de escoar excedentes gerados pelo rápido crescimento da produção doméstica.
Esse processo ganhou ainda mais intensidade em 2025. Apesar dos volumes totais ainda limitados em termos globais, as exportações chinesas de laticínios avançaram de forma expressiva ao longo do ano. Nos primeiros nove meses de 2025, o país exportou cerca de 147,9 mil toneladas, enquanto o valor embarcado alcançou aproximadamente US$ 430 milhões, alta de 34,2% na comparação anual. Esses números reforçam a consolidação da China como um exportador emergente no mercado internacional de lácteos, impulsionada pela ampliação da capacidade industrial e pela maior inserção em mercados regionais.
De forma geral, a indústria chinesa de lácteos chega a um ponto de inflexão. O forte crescimento da produção elevou a autossuficiência, mas a fraqueza da demanda interna alterou os fluxos comerciais. Caso essa tendência se mantenha, a China tende a assumir um papel mais ativo nos mercados regionais de exportação de lácteos nos próximos anos.
As informações são do Dairy Dimension e Foodmate, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.