Os produtores de leite brasileiros estão investindo na modernização da produção - instalação de tanques refrigerados para a coleta a granel, ordenha mecânica e melhor alimentação do gado leiteiro - o que gerou o aumento da produção nacional, eliminando a diferença tradicionalmente observada entre a escassa oferta da entressafra, entre abril e setembro, e o fornecimento abundante na safra, de outubro a março.
Neste contexto, laticínios, indústrias de alimentos, cooperativas e governo começaram na última quinta-feira, em Brasília, a traçar um plano para enxugar o excesso de oferta de leite no Brasil por meio do apoio à exportação de derivados, especialmente leite em pó, e do financiamento à estocagem de excedentes nos armazéns do setor privado. Os embarques de produtos lácteos ao exterior podem começar nas próximas semanas entre as grandes empresas.
O grupo - que reúne indústria, cooperativas, Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e governo, estudou várias medidas para incentivar as vendas externas de lácteos, entre elas, linhas de financiamento à exportação e certificação da qualidade na origem.
A Nestlé, empresa que mais compra leite no Brasil, prepara-se para exportar o derivado em pó ao México - um dos maiores importadores de lácteos do mundo - embora oficialmente não queira comentar o assunto. Alguns entraves burocráticos precisam ser removidos para viabilizar a venda. Na América Latina, México e Venezuela são candidatos preferenciais nas negociações de exportação de lácteos do Brasil.
Outra companhia que se prepara para exportar é a Parmalat, vice-líder do setor, que inaugurou no segundo semestre do ano passado uma fábrica de leite em pó em Santa Helena de Goiás com a finalidade de reservar parte de sua produção para embarcar para a Venezuela - onde a multinacional italiana conta com uma filial. Até o momento, nada foi exportado.
Outros mercados bastante visados pelo Brasil são os países africanos e asiáticos. Além disso, tem sido dada uma atenção especial aos países produtores de petróleo e grandes importadores de leite em pó, como a Argélia, no norte do continente africano.
Segundo uma fonte de mercado, até a Argentina, exportadora de quase 100 mil toneladas de produtos lácteos por ano, estaria recebendo em 2001 leite brasileiro, na forma de queijos fornecidos por uma multinacional européia e uma rede de fast food. Calcula-se que a Argentina importará cerca de 1,5 mil toneladas.
Segundo Almir Meireles, presidente da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), para que o País consiga evitar que as taxas crescentes de aumento na produtividade das vacas, geradas pela modernização acelerada neste segmento da pecuária, continuem reduzindo os preços dos produto, é necessário que o Brasil exporte anualmente o equivalente a, no mínimo, 500 milhões de litros de leite, na forma de leite em pó (cerca de 50 mil toneladas). Meireles afirma que este volume deveria ser atingido em 2 a 3 anos.
Porém, segundo Vicente Nogueira, chefe do departamento econômico da CNA, o País precisaria exportar ainda este ano pelo menos 15 mil toneladas de leite em pó, a fim de reduzir os excedentes. Sem isso, os estoques que as cooperativas e as indústrias formarão, a fim de enxugar o excesso de oferta, poderão continuar pressionando negativamente os preços do leite pagos ao produtor, o que representa um cenário preocupante com relação à produção de leite na entressafra de 2002.
A expectativa da CNA é que o financiamento à estocagem na forma de leite em pó - segundo proposta do Ministério da Agricultura somará R$ 200 milhões - enxugue do mercado perto de 570 milhões de litros de leite, 27% da produção prevista em 2001, se for tomado como parâmetro a cotação de R$ 0,35 por litro.
Nogueira e Meireles concordam com a avaliação de que será muito dura a batalha para elevar as exportações brasileiras a um piso de 500 milhões de litros anuais, 2,5% da produção nacional. Nogueira lembra que o leite é um dos produtos agropecuários mais protegidos nas políticas agrícolas dos países desenvolvidos. Do orçamento de subsídios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de quase US$ 362 bilhões, 14% são destinados a garantir preços aos produtores de leite, diz.
Fonte: Gazeta Mercantil (por José Alberto Gonçalves), adaptado por Equipe MilkPoint
Brasil prepara-se para exportar lácteos
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