A declaração do CEO global do Carrefour, Alexandre Bompard, está gerando repercussões negativas no Brasil. Em comunicado publicado nesta quarta-feira (20/11) em suas redes sociais (Instagram, X e LinkedIn), Bompard afirmou que a gigante francesa do varejo "assume hoje o compromisso de não comercializar nenhuma carne proveniente do Mercosul". Ele destacou: "No Carrefour, estamos prontos, qualquer que seja o preço e a quantidade de carne que o Mercosul venha a nos oferecer".
A carta, endereçada a Arnaud Rousseau, presidente do sindicato francês FNSEA (Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores), ocorre em meio a protestos de agricultores franceses contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O Carrefour, segunda maior rede de mercados da França com mais de 5.800 lojas, enfrenta pressões domésticas por parte dos agricultores.
Segundo dados da COMEX, a França tem pequena participação na exportação do Brasil e representou 0,002% do mercado de exportação de carne bovina in natura do Brasil, medida pelo embarque, de janeiro a outubro em 2024. Já a UE tem uma representação um pouco mais representativa, participando com cerca de 2,3% dos embarques do País na parcial de 2024, até outubro.
No Brasil, o Grupo Carrefour informou que a decisão do CEO "não impacta as operações no país" e que continuará comprando carne de frigoríficos brasileiros. Contudo, a declaração gerou reações intensas de entidades do agronegócio e do governo brasileiro, que atribuíram à decisão motivos políticos e protecionistas.
Retratação
Em carta endereçada ao Ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Carlos Fávaro, e divulgada pelo portal NeoFeed, hoje (26/11), o CEO global do Carrefour, Alexandre Bompard, se desculpou e ressaltou a qualidade da carne brasileira. “Sabemos que a agricultura brasileira fornece carne de alta qualidade, respeito as normas e sabor. Se a comunicação do Carrefour França gerou confusão e pode ter sido interpretada como questionamento de nossa parceria com a agricultura brasileira e como uma crítica a ela, pedimos desculpas”, escreveu Bompard.
Reações do setor agropecuário e do governo brasileiro
Entidades do agronegócio criticaram o posicionamento do Carrefour, apontando incoerências diante do papel do Brasil como líder global em exportação de carne bovina. Em nota oficial, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) rechaçou as declarações de Bompard, defendendo a qualidade e segurança dos produtos brasileiros:"o Mapa não aceitará tentativas vãs de manchar ou desmerecer a reconhecida qualidade e segurança dos produtos brasileiros e dos compromissos ambientais do país."
A pasta reforçou que o Brasil atende rigorosamente aos padrões da União Europeia, que consome carnes brasileiras há mais de 40 anos. Além disso, destacou o compromisso do país com o Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), apresentando modelos eletrônicos para rastreabilidade da pecuária.
O ministro Carlos Fávaro também se pronunciou, sugerindo que a medida parece ser parte de um movimento coordenado por empresas francesas para pressionar o governo francês contra o acordo UE-Mercosul. Ele citou casos anteriores, como o da Danone, para ilustrar a postura protecionista.
Reações internacionais e ampliação do boicote
No dia seguinte ao comunicado de Bompard, o Grupo Les Mousquetaires, responsável pelas redes Intermarché e Netto na França, aderiu ao boicote contra carnes de países sul-americanos. Em nota, a empresa declarou que não comercializará carne bovina, suína e de aves originárias da América do Sul, medida que será aplicada em todos os balcões tradicionais de suas redes.
Contra-ataque brasileiro: boicote ao Carrefour
Enquanto o Mapa criticou as declarações de Bompard, frigoríficos brasileiros lideraram um contra-ataque, suspendendo o fornecimento de carne para a rede varejista no país, que engloba os hipermercados Carrefour, Atacadão e Sam’s Club. Até o momento, pelo menos 23 frigoríficos, incluindo gigantes como JBS, Marfrig e Masterboi, aderiram ao movimento. Mais de 50 caminhões com carne foram suspensos no sábado (23), afetando cerca de 150 lojas da rede no país.
Em nota, o Carrefour Brasil lamentou a situação."Infelizmente, a decisão pela suspensão do fornecimento de carne impacta nossos clientes, especialmente aqueles que confiam em nós para abastecer suas casas com produtos de qualidade e responsabilidade."
Este ano o Brasil registrou um aumento de quase 30% no volume de carne exportada entre janeiro e setembro, totalizando um faturamento de aproximadamente US$ 9 bilhões. A suspensão do fornecimento no mercado interno representa um impacto relevante para a rede varejista, mas evidencia a força da indústria nacional em proteger sua imagem e mercados globais.
As informações são do Money Times, NeoFeed, The News, G1, Folha de São Paulo e COMEX, adaptadas pela equipe MilkPoint.