O sono está se tornando a nova fronteira na pesquisa leiteira, abrindo discussões e levantando mais perguntas sobre seu impacto na produtividade animal, no bem-estar e na etologia.
As pesquisadoras Kathryn Proudfoot e Emma Ternman publicaram recentemente um artigo sobre o sono de bovinos leiteiros no Journal of Dairy Science, como parte de uma edição especial sobre Comportamento de Animais Leiteiros da JDS Communications. Proudfoot é professora associada no Atlantic Veterinary College da Universidade de Prince Edward Island, no Canadá, e Ternman é professora associada na Nord University, na Noruega.
Em um episódio recente do podcast Dairy Digressions, discutindo o artigo, Proudfoot observou que o sono é uma função essencial para todos os animais. Estudos com roedores, nos quais os animais foram privados de sono, mostraram que eventualmente eles morreram sem dormir.
“Sabemos, pela medicina humana, que a privação de sono está relacionada a doenças cardiovasculares, metabólicas, câncer e problemas de saúde mental,” afirmou Proudfoot. “Não podemos simplesmente aplicar esse conhecimento diretamente às vacas, mas sabemos que o sono é importante para todos os animais, então queremos entender melhor como ele afeta especificamente as vacas.”
Ternman explicou que as vacas têm uma alta motivação para se deitar durante cerca de metade das 24 horas do dia – aproximadamente 12 horas por dia, com variações de algumas horas. No entanto, ela observou que muitas dessas horas de descanso não são necessariamente de sono. Com base nas pesquisas realizadas até agora, “as vacas dormem cerca de 3 horas por dia, e o fazem em episódios curtos – talvez meia hora à noite, e então 15 minutos aqui, 10 minutos ali.”
Os pesquisadores também descobriram que as vacas adultas possuem 4 “estágios de vigilância” ou tipos de sono, que vão desde um estado completamente funcional de vigília até o sono REM (movimento rápido dos olhos), que é a fase mais profunda de descanso. Nos dois estágios intermediários, elas passam por uma fase de sonolência, seguida pelo sono sem movimento rápido dos olhos (não-REM). Ternman descobriu que as vacas podem, na verdade, ruminar enquanto descansam nesse estado de sonolência.
Proudfoot e Ternman teorizaram que as vacas não dormem profundamente ou por longos períodos porque são uma espécie presa, e sua biologia as mantém em um estado de alerta semipermanente para autoproteção. Mas o que aconteceria se fossem colocadas em baias confortáveis e sem interrupções? Elas dormiriam mais? “Acho que não,” respondeu Ternman. “É algo biológico. Nenhum dos grandes herbívoros dorme muito. Eu já tive vacas de pesquisa em baias individuais, com bastante oportunidade para dormir, e elas não aumentaram muito o tempo de sono.”
No entanto, a dupla se questiona se as vacas são negativamente afetadas pela privação de sono abaixo do limite de 3 horas por dia. Proudfoot observou que, em algumas fazendas, as vacas são expostas a luz, ruídos e atividades 24 horas por dia, 7 dias por semana, o que ela especula que pode afetar negativamente a imunidade, o potencial produtivo e o bem-estar delas.
A parte complicada de descobrir isso com certeza está na capacidade de medir o sono das vacas de forma eficaz. Até o momento, os pesquisadores têm utilizado métodos de polissonografia que medem a atividade cerebral; monitoramento de frequência cardíaca e atividade muscular; acelerômetros; e monitoramento de postura como formas de avaliar o descanso e o sono das vacas. Alguns modelos alcançaram maior precisão ao usar modelos de aprendizado de máquina que combinam dados de vários métodos.
Infelizmente, a ruminação interfere no monitoramento de atividade. Ternman explicou que, em termos de coleta de dados, é aproximadamente equivalente a uma pessoa rangendo os dentes enquanto dorme. Em muitos estudos de sono humano, esses dados são invalidados e descartados. Proudfoot também alertou que, dependendo dos métodos de monitoramento utilizados, os pesquisadores precisam tomar cuidado para distinguir entre “sono” e “comportamento semelhante ao sono” em suas observações e conclusões.
Ambas concordaram que são necessários métodos mais automatizados e menos intrusivos para registrar o sono, de modo a desvendar mais mistérios sobre as vacas e o sono. Isso eventualmente poderia levar a conclusões sobre intervenções que poderiam melhorar a quantidade e/ou a qualidade do sono das vacas, caso seja considerado benéfico.
Referências bibliográficas
As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas pela equipe MilkPoint.