Durante uma conversa sobre os motores de crescimento da economia argentina realizada na prévia do Colóquio IDEA 2026, em Mar del Plata, Bosch defendeu que o agronegócio seja visto para além da produção de matérias-primas. Para ele, é necessário pensar em agroindústria e na capacidade de transformar a produção agrícola em produtos de maior valor agregado. O debate reuniu Bosch, Fabián Kon, CEO do Grupo Financiero Galicia e presidente do Colóquio IDEA 2026; Esteban Domecq, economista e diretor da consultoria Invecq; e Ignacio Costa, gerente-geral da Rio Tinto na Argentina.
Ao discutir o papel da agroindústria no desenvolvimento econômico do país, Bosch escolheu justamente a cadeia leiteira como um dos principais exemplos de um potencial que, em sua avaliação, permanece pouco explorado. “A Argentina tem capacidade para produzir três vezes a quantidade de leite que produz atualmente”, afirmou Bosch.
Segundo o empresário, apesar desse potencial, a produção argentina permanece praticamente no mesmo patamar há cerca de três décadas. “Há 30 anos produzimos a mesma quantidade de leite”, disse Bosch, que apresentou a situação como uma de suas grandes frustrações em relação ao desenvolvimento da agroindústria argentina.
Proteína do soro como oportunidade
Na avaliação de Bosch, uma das oportunidades para a expansão da cadeia está no crescimento da demanda mundial por proteínas. O empresário chamou atenção especialmente para a proteína do soro, obtida a partir do processamento industrial do leite. Segundo ele, mudanças relacionadas à alimentação, à saúde e ao consumo de produtos proteicos criam oportunidades para esse mercado.
Para Bosch, essa demanda ajuda a mudar a própria lógica de agregação de valor dentro da cadeia. Ele argumentou que a produção de queijos também pode estar associada à obtenção de proteínas do soro destinadas ao mercado internacional. A partir dessa visão, o cofundador da Adecoagro afirmou que a Argentina poderia ampliar significativamente sua presença no mercado externo. “Nós podemos ser o principal exportador e, com isso, a Argentina produziria três vezes mais leite”, afirmou Bosch durante a conversa. Na avaliação dele, uma expansão dessa magnitude teria efeitos que iriam além do volume produzido: significaria também mais tambos, mais vacas e maior geração de empregos no interior do país.
Para crescer, indústria precisa competir com o mundo
Bosch também relacionou o potencial da produção de leite à necessidade de desenvolvimento da indústria láctea argentina. Segundo ele, o crescimento não deveria estar baseado apenas no atendimento ao mercado doméstico. A cadeia precisaria estar preparada para vender seus produtos internacionalmente. “Se nós não conseguimos vender queijos para todo o mundo, temos um problema”, afirmou.
Para isso, Bosch defendeu uma indústria mais eficiente, tecnificada e robotizada. Em sua avaliação, o aumento da produtividade industrial permitiria gerar empregos de maior qualidade, mas esse processo precisaria ser acompanhado pelo crescimento da própria cadeia. Na visão do empresário, portanto, a estratégia não seria apenas melhorar a eficiência mantendo o tamanho atual do setor, mas ampliar a escala da produção e da industrialização.
Previsibilidade nas exportações
Outro ponto levantado por Bosch foi a necessidade de manter relações comerciais de longo prazo com compradores internacionais. O empresário citou especificamente o leite em pó para argumentar que interrupções ou restrições às exportações dificultam a construção desses mercados.
Segundo Bosch, quando uma empresa conquista um cliente internacional, precisa ter condições de manter o fornecimento. Para ele, políticas que impedem ou restringem a exportação de leite em pó comprometem essa continuidade comercial. Ele relacionou esse cenário ao desempenho da produção leiteira argentina nas últimas décadas, defendendo uma estratégia voltada à competição internacional e ao longo prazo.
Energia competitiva também entra na conta
Bosch também apontou a energia como uma peça importante para que a Argentina consiga ampliar a industrialização do leite. Segundo ele, processos como a fabricação de leite em pó e o processamento de ingredientes proteicos demandam energia e, por isso, a disponibilidade energética a preços competitivos pode favorecer o desenvolvimento da cadeia no interior do país. Para o empresário, a oportunidade está justamente em integrar produção agropecuária, indústria e exportação.
Bosch resumiu essa lógica ao comparar a venda de commodities agrícolas com a possibilidade de transformar milho e soja em produtos lácteos de maior valor agregado. Na avaliação do cofundador da Adecoagro, destravar esse potencial permitiria à Argentina não apenas produzir mais leite, mas ampliar a industrialização, acessar mercados internacionais e gerar mais atividade econômica e empregos nas regiões produtoras.
As informações são do La Nación, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
Vale a pena ler também:
Do GLP-1 à terceira idade: inovação com proteína do leite dispara e Brasil é destaque mundial
Mercado global de leite se fortalece enquanto demanda encontra incertezas na oferta