As negociações para alcançar um acordo definitivo pelo preço da produção de leite na Argentina entraram na semana passada em um impasse de 2 semanas, após a reunião realizada na Sociedade Rural de São Francisco. A decisão foi tomada logo depois que os secretários da Agricultura de Santa Fé e de Córdoba, Oscar Alloatti e Gumersindo Alonso, informaram que na próxima sexta-feira se reunirão, junto aos secretários da Agricultura das 5 outras províncias produtoras de leite do país, com o titular da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Pesca e Alimentação da Argentina, Rafael Delpech, para abordar a possibilidade de que o Estado Nacional intervenha com algum tipo de apoio na fixação do preço da produção leiteira, caso a indústria e os produtores não consigam chegar a um acordo definitivo.
O suporte do governo foi definido pelos funcionários, apesar de várias perspectivas terem sido deixadas em aberto. O membro da Comissão de Leiteria da Sociedade Rural de Rafaela, Juan Inwinkelried, descartou a possibilidade de que, entre as propostas, esteja a fixação de um preço de sustentação. "Não houve anúncios formais, somente se disse que haveria uma reunião na próxima sexta-feira com o secretário da Agricultura do país, quando esta questão seria abordada, havendo a possibilidade de uma intervenção do governo nacional".
A contribuição do Estado, que não tem dinheiro para subsidiar a atividade, poderá ocorrer através de benefícios fiscais para os produtores ou para as indústrias, de forma que os mesmos consigam uma melhoria real do preço de produção.
No entanto, os produtores permanecem aguardando uma nova convocação, fixada para dentro de duas semanas, oportunidade em que os diferentes setores envolvidos na negociação estarão frente a frente, a fim de avançarem na possibilidade de chegar a acordos sobre o preço da produção para o mês de junho.
Apesar de, até agora, os setores representativos dos produtores não terem divulgado qual será a postura com a qual irão a esta reunião, sabe-se que a petição que levarão será a de fixar o preço da produção de junho em US$ 0,10 por litro, ou algo em torno de 35 centavos de pesos argentinos. Em maio, as indústrias pagaram somente 27 a 28 centavos em média aos produtores, apesar de ter havido variação neste preço.
Medidas de força
Inwinkelried não descartou que poderão ser tomadas medidas de força caso fracassem as tentativas de chegar a um acordo de preço comum dentro de duas semanas. "Durante esta reunião, as duas comissões técnicas apresentaram os avanços realizados, que foram muitos, com relação às questões estruturais do setor leiteiro. O que não conseguimos chegar a um acordo foi sobre o preço do leite, e isso poderá fazer com que adotemos medidas de força dentro de 15 dias, quando voltaremos a nos reunir".
O presidente da Federação dos Centros Produtores de Leite, Gustavo Colombero, elogiou os resultados alcançados nas comissões técnicas. "Na número um, foi abordada a questão da padronização da qualidade do leite, através de um informe feito pelo engenheiro Miguel Taverna. Foi um trabalho realmente magistral, que deixou todos muito satisfeitos. Na comissão técnica número dois, foi analisado o informe apresentado pela província de Córdoba e também, foram registrados avanços muito importantes. Lamentavelmente, sempre acabamos presos por esta questão do preço".
Esta reunião, realizada em São Francisco, contou com a presença de poucas indústrias do setor. Estiveram representadas SanCor, Estâncias Santa Rosa, Williner, Molfino e La Sereníssima. Já as empresas Milkaut, Verônica e Manfrey não estiveram presentes.
"Uma das questões que estamos solicitando é que os governos de ambas as províncias exijam da indústria uma representação unificada. As indústrias se queixaram muitas vezes, dizendo que as entidades de produtores traziam diferentes mensagens e reclamações, mas agora elas vêm quando querem e também estão trazendo propostas diferentes", disse Inwinkelried.
Colombero concordou com esta colocação. "As indústrias sempre têm uma desculpa para não aparecer. Nunca vêm em todas as reuniões e, depois, dizem que uns não podem se comprometer por todos. Nós pedimos ao governo que intervenha, exigindo a presença dos representantes da indústria, com posições unificadas. Em última instância, se 90% da produção de lácteos está nas mãos de poucas empresas, não vemos porque não podemos chegar a um acordo".
A "dolarização" do preço da produção, que os produtores argentinos estão pretendendo irá determinar um parâmetro mais seguro para a fixação do preço do leite, de forma a evitar desgastantes negociações entre os produtores e as indústrias todo mês.
Os produtores estão sendo bastante cautelosos na hora de falarem sobre possíveis medidas de força. Inwinkelried mesmo deixou em aberto a possibilidade de que sejam tomadas medidas de ação direta caso as próximas reuniões não consigam obter um acordo. Já Colombero preferiu dizer que há a possibilidade de que se abra uma "hipótese de conflito".
"Uma coisa está clara: se isto não for solucionado em até 60 dias, poderá haver um desmoronamento completo do setor leiteiro da Argentina. Esta é uma afirmação realista. Os números não param e os produtores não estão vendo saída", disse Colombero.
As queixas dos produtores são recorrentes. "A indústria sempre diz a mesma coisa: que não podem falar por todos. Isto é correto, mas então, que venham todos e façam um acordo para apresentarem uma posição unificada. A La Sereníssima informou que já entrou em um acordo com os produtores que fornecem leite a ela para a produção de junho. A SanCor, no entanto, ainda não definiu este preço porque não terminou de fazer seus cálculos. Já a Williner informou que haverá uma leve melhoria no preço, mas não disse quanto. A Molfino está mantendo sua posição. Os outros não apareceram. Sendo assim, não sabemos a quem atender", disse Colombero.
A "hipótese de conflito" levantada por ele cria a expectativa de que voltem a ser realizadas ações diretas, como o bloqueio às indústrias, feito no mês de março, que esteve a ponto de provocar um grave desabastecimento de produtos lácteos nos supermercados argentinos.
A produção de lácteos na Argentina vem registrando uma queda depois da outra, como conseqüência dos menores rendimentos obtidos pelos produtores, devido à alteração na nutrição dos animais e ao aumento dos preços dos insumos, entre outras coisas. Além disso, muitos produtores estão voltando seus esforços para a agricultura, que tem preços melhores e perspectivas menos desanimadoras para o futuro.
Fonte: La Nación, adaptado por Equipe MilkPoint
Argentina: governo irá intervir nas negociações do setor leiteiro
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