Alexandre Olival, médico veterinário, fala sobre o trabalho com pequenos produtores em Pirassununga (SP)

Publicado por: MilkPoint

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O MilkPoint entrevistou o médico veterinário Alexandre Olival, 24 anos, que coordena um trabalho com pequenos produtores em Pirassununga, São Paulo, visando a melhoria da qualidade do leite e, fundamentalmente, das condições de vida destes produtores.

Alexandre Olival é formado em Medicina Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, no ano 20000. Imediatamente após a graduação, entrou no Mestrado nesta mesma faculdade, no campus de Pirassununga, além do curso de especialização à distância em Administração Rural pela Universidade Federal de Lavras.

Durante todo o período de faculdade voltou suas atenções para a área de Produção de Leite, sendo que especialmente nos últimos anos tentou se aprofundar mais na problemática dos pequenos produtores de leite.

Desde o início deste ano, faz parte do Instituto Fernando Costa, onde desenvolve um trabalho pioneiro voltado a este público.


O que é o Instituto Fernando Costa e quais são os projetos em que está envolvido?

AO: O Instituto Fernando Costa é uma entidade civil sem fins lucrativos que atua principalmente na área de educação e desenvolvimento rural. Muitas pessoas conhecem o IFC apenas por eventos como o Interleite ou os cursos à distância oferecidos em parceria com o MilkPoint, mas nossa atuação vai muito além destes projetos. Gostamos de dizer que o IFC atua em 3 frentes: grandes eventos, como o Interleite e o Curso de Especialização em Bovinocultura de Leite que atualmente estamos organizando; atividades de desenvolvimento social, como o trabalho com os pequenos produtores de leite de Pirassununga e os cursos de Comunicação Aplicada aos Programas de Saúde Animal; e atividades de pesquisa, como a pesquisa sobre o Leite Informal que dentro em breve vamos finalizar. Para o ano de 2002 estamos com planos de lançar grandes projetos nestas 3 áreas, como a implementação da Educação Sanitária nos currículos de escolas rurais, uma pesquisa sobre o impacto social do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite, além de outros cursos e eventos que iremos organizar.

No entanto, talvez o grande projeto que reflita os ideais do IFC seja o trabalho de desenvolvimento social dos pequenos produtores de leite.

Porque você decidiu trabalhar com pequenos produtores de leite, quando a maior parte de seus colegas opta pela carreira em empresas do setor?

AO: Vejo o trabalho com este grupo de produtores como uma oportunidade muito interessante, visto o número significativo de produtores no Brasil e a situação conturbada dos dias de hoje. Além disso, acredito ainda no desenvolvimento de um trabalho eficiente ligado diretamente aos interesses dos produtores, nas suas lutas particulares, o que acredito que em uma empresa não conseguiria desenvolver, por enquanto.

Quais são os principais desafios em seu trabalho profissional junto a estes produtores?

AO: Ao meu ver existem dois desafios a serem superados, ambos felizmente relacionados entre si: o primeiro deles é tornar a prestação de serviços aos pequenos produtores interessante financeiramente tanto para o produtor quanto para o profissional e a segunda é prestar realmente um serviço eficiente para estes produtores. Creio que a maioria dos trabalhos voltados a este público acaba esbarrando em um destes pontos: ou não consideram a baixa renda do produtor e sua incapacidade de investir em equipamentos e insumos ou apresentam uma proposta pronta: o chamado "pacote tecnológico", que, aliás, tenho uma profunda repulsa. O resultado é um serviço ineficiente, que não vale a pena ao produtor manter, impossibilitando um trabalho profissional duradouro.

Algumas outras características dificultam e tornam o trabalho com o pequeno produtor diferenciado: tradicionalismo - dificultando a adoção de novas práticas e técnicas; um sentimento de impotência para a resolução de seus problemas - o que faz com que estes produtores fiquem permanentemente em um estado de "inércia", ou seja, esperando que alguém resolva os seus problemas; uma profunda descrença em qualquer tipo de prestação de serviços - é mais fácil e mais confiável ouvir as idéias do vizinho do que do veterinário ou agrônomo da cooperativa e um individualismo levado muitas vezes ao extremo. A quebra de todos estes pontos é o que chamamos de desenvolvimento social, que deve estar obrigatoriamente, ao nosso ver, vinculado diretamente ao desenvolvimento econômico: não vemos como os produtores podem melhorar o rendimento do leite atuando de maneira isolada, tradicional, com apatia aos problemas do dia a dia e sendo sempre o elo mais fraco da história.

É possível fazer um produtor de leite informal, ou com produção muito baixa, compreender a importância da qualidade do leite? Como se faz isto?

AO: Acredito que sim. O trabalho com qualidade não está ligado ao nível de formalidade do produtor ou ao seu tamanho, mas sim, como disse anteriormente, a uma ligação entre a melhoria na qualidade do leite com a resolução dos seus principais problemas.

Temos que entender que nunca no Brasil a qualidade do leite foi um fator realmente importante para os produtores - nunca se pensou em Células Somáticas, Microrganismos Psicrotróficos, Resfriamento do leite, pagamento por qualidade, etc,etc. Esta mudança de pensamento sobre a produção não ocorre do dia para a noite - o processo é lento e precisa estar vinculado com algum interesse real para o produtor. Em Pirassununga, demoramos quase 8 meses apenas para traçar, junto com os produtores, um plano de melhoria das condições econômicas vinculado à qualidade do leite, sendo que quanto mais os produtores tomam iniciativas e trabalham em conjunto, mais independentes do próprio programa eles ficam: este é o chamado desenvolvimento social vinculado ao desenvolvimento econômico que tanto pregamos. Hoje temos alguns pequenos produtores, com ordenha manual, com um leite de ótima qualidade microbiológica e buscando ferramentas para melhorar a rentabilidade da atividade (negociação diferenciada com diferentes laticínios, compra conjunta de insumos, estudo para a formação de associação, entre outros fatos concretos que demonstram uma evolução social destes produtores).

Os procedimentos para se chegar a este ponto são muitos, mas com certeza não existe uma "receita de bolo" que funcione para todos os produtores e em todas as regiões do Brasil. Talvez as únicas "dicas" que possamos transmitir com segurança são: participação dos produtores em todas as decisões tomadas ao longo do programa e respeito às características locais e dinâmica interna dos produtores.

Você acha que as novas normas, se aprovadas, prejudicarão os pequenos produtores?

AO: Este é um debate que percebo que cada dia que passa se torna mais acirrado. Muitos criticam o PNMQL por acreditar que irá excluir os pequenos produtores, outros se dizem favoráveis pois implicará na "modernização" do setor. Ao meu ver, nas condições atuais do Brasil, o PNMQL trará mais prejuízos do que vantagens para os pequenos produtores. Além dos problemas operacionais envolvidos com o PNMQL já levantados por muitos pesquisadores como a falta de laboratórios, problemas com energia elétrica e estradas, a falta de um sistema eficiente de informação e educação do produtor poderá ser um fator chave para a sua exclusão ou para o seu encaminhamento ao mercado informal. A impressão que passa é que o PNMQL foi criado justamente para definir um rumo determinado para a produção de leite no Brasil, rumo que deixa de fora a pequena produção.

Digo isso porque em termos de extensão rural, o PNMQL implica em uma profunda alteração no sistema de produção, principalmente na ordenha, visto que via de regra o principal problema destes produtores está na elevada contaminação bacteriana. A ordenha por sua vez representa um fator cultural muito forte, pois basta perguntar a qualquer produtor quem o ensinou a ordenhar que a resposta com certeza será: meu pai, que aprendeu com meu avô e assim sucessivamente. A modificação deste padrão tecnicamente é fácil, mas torna-se complicada na prática se não houver um programa eficiente.

Você comentou sobre o mercado informal. Como você analisa este problema?

AO: As estatísticas no Brasil não permitem definir claramente e com certeza quem é o produtor informal: se é aquele grande produtor que vende parte da produção informalmente apenas para lucrar mais ou se é o pequeno, que vende o leite informalmente como única saída para sua sustentabilidade. Minha maior experiência é justamente com este segundo grupo de produtores, ou seja, os que vendem o leite como única alternativa viável para a sua manutenção.

Acredito que isto seja mais um reflexo da crise no setor leiteiro do que uma das causas desta crise. Basta lembrar que foi justamente na década de 90, quando o preço do leite ao produtor foi liberado e começou a despencar, que a produção informal deu saltos bastante significativos. Esta talvez seja a maior prova que falta uma cultura para a qualidade do leite tanto nos produtores, que não se interessam no fator qualidade, quanto nos consumidores, que entendem ser um produto muito mais seguro e confiável do que o industrializado. Alia-se a este bolo, a falta absoluta der fiscalização dos produtos formais e informais.

Assim, oferecendo propostas viáveis a estes pequenos produtores informais estaremos diminuindo a informalidade e assegurando a qualidade do produto final. Não vejo como solucionar o problema as avessas, ou seja, acabar com a informalidade para melhorar a situação dos produtores.

Temos dezenas de faculdades, milhares de técnicos, dezenas de publicações. Mesmo assim, nossas médias de produção são ainda muito baixas. Porquê?

AO: O problema das médias de produção de leite no Brasil está estritamente ligado à produção das pequenas e médias propriedades. Se considerarmos os ditos "produtores especializados" com certeza esta média poderá ser comparável aos grandes produtores de leite do mundo. Assim, o principal problema é que não estamos conseguindo atender justamente a estes pequenos e médios produtores, seja por causa de uma incapacidade em lidar com estas pessoas ou em uma falta de objetividade nas pesquisas e trabalhos desenvolvidos. Ao meu ver, já possuímos tecnologia suficiente para melhorar as condições destes produtores, o que falta é esta tecnologia ser aplicada na prática, através de metodologias eficientes.

O mundo fala de eficiência, produtividade, escala. Trabalhar com o pequeno produtor não é um contra-senso, à medida em que, teoricamente, gera um produto mais caro para a população?

AO: A pequena produção não deve ser sinônimo de ineficiência e baixa qualidade. Nossa luta é justamente enquadrar, na medida do possível e dentro das possibilidades, estes pequenos produtores, que muitas vezes vivem em um sistema não capitalista, praticamente de subsistência, em um sistema competitivo onde impera a busca de eficiência e competitividade.

É neste sentido que, no caso de Pirassununga, estamos estudando junto dos produtores a melhor saída: seja a entrega de um leite de alta qualidade para um laticínio regional, recebendo um preço diferenciado por isso, seja através de mini usinas ou mesmo através da negociação com grandes laticínios com tanques comunitários. Como pode ser visto nada disso é novidade, mas o ponto que difere nosso trabalho de outros é que o processo está sendo desenvolvido junto dos produtores, ou seja, são eles que devem definir a melhor saída para suas condições.

Particularmente gosto da idéia dos mercados locais e regionais com as mini usinas, pois sendo muitos destes produtores informais, eles já possuem um mercado bastante fiel. No entanto, para esta "formalização", são necessárias algumas características que hoje ainda não temos, como pessoas treinadas para administrar a mini usina e pessoas interessadas em largar a produção para trabalhar somente na usina, entre outros pontos.

Você acha que, no Brasil, a produção familiar de leite tende a ser mais prevalente do que a dita produção empresarial?

AO: Depende do rumo que vamos querer para a produção de leite no Brasil. Acredito que hoje a tendência real é a pressão para a "especialização" do setor, com a eliminação da pequena produção - a proposta do PNMQL nas atuais condições é o melhor exemplo disso. Dificilmente aparecerá uma outra política nacional que venha na contra mão desta, apesar de existirem exemplos em outros países de políticas diferenciadas, como p. ex. na Índia.

Tivemos outros exemplos desta política com outros produtos do agronegócio brasileiro desde a década de 50, com o início dos chamados "Sistemas Agroindustriais", tanto na produção vegetal, substituindo as antigas "agriculturas", quanto na produção animal - o processo é exatamente o mesmo, só que com o leite está ocorrendo agora. Também estamos hoje sentindo nas cidades o problema inerente a escolha desta opção.

Temos que compreender que o Brasil não é o EUA ou a UE e não possuímos grande capacidade de absorver a mão de obra do campo. Além disso, o tradicionalismo na produção de leite impede muitas vezes a mudança de produto, restando como única alternativa a mudança para as cidades. Nosso trabalho aqui em Pirassununga é apenas uma tentativa de implementar um modelo alternativo de desenvolvimento, que acreditamos ser mais condizente com as condições brasileiras.

Respondendo objetivamente sua pergunta, acredito que não, a tendência é a produção empresarial prevalecer, o que não impede a existência de pólos de produção familiar.

Qual a sua expectativa a respeito do alcance do seu trabalho?

AO: Temos consciência que o trabalho que desenvolvemos tem um alcance local e pontual. Nosso objetivo não é resolver a situação da produção de leite no país, mas apenas mostrar um modelo e uma outra opção de desenvolvimento, que pode ser seguido em outras regiões do Brasil, respeitando-se as diferenças regionais. Por isso mesmo que promovemos os Cursos de Comunicação, que servem para difundir nossos ideais e a metodologia que utilizamos - foram ao todo 3 cursos neste ano. Acreditamos que fazendo a nossa parte e difundido nossas idéias poderemos construir pouco a pouco um modelo diferente de produção: eficiente, de alta qualidade e que resgate a cidadania do pequeno produtor rural.

Neste ponto devo fazer uma colocação importante: muito do que fazemos não foi "inventado" por nós. Destaco um trabalho que vem sendo desenvolvido já há alguns anos em Santa Catarina pela CIDASC no combate a febre aftosa e com respeito a educação sanitária. É um trabalho interessante e extremamente valioso para o Brasil, de onde tiramos muitas experiências positivas para o desenvolvimento de nosso trabalho.

Quais são as fontes de recursos que o IFC dispõe hoje?

AO: Este é nosso principal fator limitante hoje. Quando começamos a conversa, mencionei sobre os tipos de trabalho do IFC. Bem, são os trabalhos voltados ao grande público, como cursos ou grandes eventos que possibilitam a sobrevivência de projetos como este. A partir de 2002 estaremos buscando ainda outros recursos, de entidades ou outras ONGs interessadas no desenvolvimento rural. Além disso, iremos buscar também apoios oficiais, de prefeituras ou secretarias que se interessem por este tipo de atividade.

Alguma consideração final?

AO: Eu, em nome do IFC agradeço a oportunidade de colocar algumas idéias aqui. Quero lembrar que estamos buscando parcerias e o desenvolvimento de atividades em conjunto. Também estamos com as portas abertas para qualquer um que queira conhecer os trabalhos que estamos desenvolvendo.

Para saber mais:

Instituto Fernando Costa
(19) 561-7990
ifcost@uol.com.br
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