Segundo reportagem de Raquel Landim, publicada hoje no Valor Online, as gigantes do setor de chocolate e sorvete estão se voltando para o mercado brasileiro de leite em pó. Na década de 1990, Kibon, Garoto, Kraft - dona da Lacta e da Fleischmann Royal - praticamente abandonaram os fornecedores nacionais para a adquirir o produto de empresas argentinas e uruguaias, que oferecem melhores preços.
Bastou a ameaça de taxas antidumping para deixar o mercado em polvorosa. Preocupadas, pois acreditam que a produção brasileira de leite é insuficiente, as companhias correm para garantir parceiros e assediam laticínios como Itambé, Elegê, Confepar, Cotochés e Embaré.
No início de dezembro, o Departamento de Defesa Comercial (Decom) deu parecer favorável à imposição de direitos antiduping nas importações de leite em pó da Argentina, Uruguai, União Européia (UE) e Nova Zelândia. No mercado, acredita-se que as novas tarifas saem no final de fevereiro.
Há 10 anos, a Garoto compra 30% do leite em pó no mercado nacional. As fornecedoras são Elegê, do grupo Avipal, e Cotochés. Este ano, o percentual deve subir para 70%, revela a gerente de cacau e importações, Mônica Zennigi Potz. A Garoto negocia a compra com Itambé e Embaré.
A Kraft, que pertence a Philip Morris, é parceira da Cooperativa Agroindustrial Ltda (Confepar). Para garantir incentivos fiscais na nova fábrica em Curitiba, a empresa se comprometeu a comprar parte dos insumos no Paraná. "A Confepar atende 20%", diz Henrique Aragoni, comprador sênior da Kraft. "Mas outras parcerias estão em vista". Em três meses, a Confepar elevou de 95 para 430 toneladas mensais as vendas para a Kraft, diz Renato José Beleze, presidente da cooperativa.
A mineira Itambé, segunda maior produtora de leite em pó , foi consultada por Garoto e Kibon. Resta a suíça Nestlé que, além de maior produtora, é grande consumidora. A Nestlé não fala sobre o assunto, mas fontes do mercado dizem que ela não produz o leite em pó como matéria prima para indústria. Além disso, comentam, ela consome o leite próprio e, se preciso, importa de filiais.
Essa corrida já se refletiu nas importações de leite. Nos últimos dois meses do ano passado , os volumes atingiram 19,2 milhões de toneladas, ante 45,4 milhões do mesmo período de 1999, segundo a Secretaria de Comércio Exterior. Em 2000, os embarques caíram 25%, para 1,8 bilhão de litros de leite. Em receita, a queda foi 15,2% para US$ 373 milhões.
"Nesse primeiro momento a insegurança é geral", comenta Potz, da Garoto. O maior temor de algumas indústrias é faltar suprimento, pois os laticínios brasileiros não estariam preparados para atender a demanda. Segundo Vicente Nogueira, chefe do departamento econômico da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), a capacidade instalada do Brasil para leite em pó é de 450 mil toneladas, e hoje são produzidas 300 mil. Em 2000, o Brasil importou 139 mil.
Jacques Gontijo, vice-presidente da Itambé, diz que a produção da cooperativa pode crescer 20% sem investimentos. E Gontijo não pretende desviar leite do consumidor para atender as empresas. Segundo Francisco Avila, diretor de relações com o mercado da Elegê, a companhia também não irá fazer investimento. A opção será oposta: "se os preços estiverem bons, deslocamos a produção".
Um problema sério pode estar na produção. A entressafra chega em março, possivelmente junto com as novas tarifas. Aumentar a produção de leite a curto prazo será difícil, comenta Avila. Mas os produtores garantem que se houver estímulo são capazes, afirma Nogueira. A tendência é de que os preços para o produtor aumentem com a nova demanda.
Mas haverá contra-ataque argentino. A Garoto já recebeu proposta da Sancor de compra leite internalizado, ou seja, sem taxas. E, segundo uma fonte, o processo antiduping prevê a possibilidade de um acordo com os parceiros do Mercosul Ao invés de serem taxadas, as empresas oferecem um preço mínimo que será avaliado pelo governo brasileiro.
Por Raquel Landim, para Valor Online, 22/01/01
A corrida para compra de leite em pó
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