Um dos primeiros frutos desse programa foi o lançamento durante o Agrishow 2002, da nova variedade de cana para fins forrageiros, a IAC86-2480 (Figuras 1 e 2), híbrido interespecífico resultante de cruzamento manual feito em 1986, envolvendo o parental US71-399 que recebeu pólen de variedade desconhecida.
Segundo LANDELL et al. (2002), a seleção inicial se deu na região de Ribeirão Preto, em solos caracterizados como latossolos. Nestas condições apresentou boa produtividade agrícola e ótimas características tecnológicas. Observada posteriormente, em diferentes latitudes (15 - 22o sul), mostrou boa adaptação, caracterizando-se, no entanto como uma variedade exigente em relação à fertilidade de solo. Apresentou também longo período de utilização industrial e ou forrageiro dado pela manutenção do Pol% em níveis superiores entre os meses de maio a outubro. Outras características favoráveis à manutenção deste Pol% referem-se à alta resistência a acamamento e hábito de crescimento ereto, associado à ausência de florescimento nas latitudes testadas. Em relação à altitude, esta variedade já foi introduzida em ambientes com altitudes que variam de 50 a 1.100 m, estando o seu comportamento correlacionado principalmente à fertilidade do solo.

Figura 1 - Nova variedade (IAC86-2480) mostrando despalha fácil.
Essa variedade apresenta touceira com hábito de crescimento ereto; altura de colmo média baixa; diâmetro de colmo médio (2,3 a 2,8 cm) e bastante uniforme; internódio curto; gema pequena e pouco proeminente no plano do colmo, do tipo oval; bainha aderida fracamente ao colmo; número de perfilhos de 12 a 13 por metro linear; ausência de brotões; cor de colmo roxo com anel de crescimento verde bem definido. O potencial produtivo em relação a cultivar de cana mais plantada do Brasil e também indicada para fins forrageiros está apresentado na Tabela 1, enquanto na Tabela 2, os primeiros resultados de desempenho animal com essa variedade.
Tabela 1 - Produtividade agrícola (toneladas de cana / ha - TCH) da cultivar IAC 86-2480 em relação à RB 72-454.

Fonte: Carvalho et al. (1983) citado por LANDELL et al. (2002).
Tabela 2 - Média diária de ganho de peso (GDPV) e conversão alimentar (CA) de novilhas alimentadas com dietas contendo as variedades IAC 86-2480 e RB 72-454.

Fonte: Rodrigues et al. (2002) citado por LANDELL et al. (2002).

Figura 2 - Nova variedade (IAC86-2480) mostrando uniformidade de colmos.
Essa nova variedade possui também algumas características interessantes com relação à resistência à seca, apresentado uma rebrota muito mais intensa em qualquer período da seca do que em relação à variedade mais produtiva, que é, porém mais produtiva sem a restrição hídrica. Outro ponto positivo é a manutenção da sua digestibilidade durante todo o período de colheita, também muito importante para o desempenho animal uniforme. Por fim, está se introduzindo com o lançamento desta nova variedade o conceito da relação FDN/POL, que deve preferencialmente estar abaixo de 3 e representa a relação entre o teor de fibra e a quantidade de açúcares, ou seja, procura-se variedade com maior proporção de açúcar em relação a fibra, o que parece ser um dos principais responsáveis pelo bom desempenho animal.
Comentário do autor: O lançamento de novas variedades ou cultivares é um dos alicerces do programa de uso racional da cana-de-açúcar na alimentação animal, porém não deve ser encarado como a solução dos problemas evidenciados na maioria das propriedades com uso da cana para esse fim, especialmente com relação ao manejo do canavial. O produtor deve estar consciente que a escolha da variedade é apenas um dos itens do sistema de produção, e muita atenção deve ser dada às atividades agronômicas, tanto visando a longevidade como a produtividade do canavial, mesmo porque a disponibilidade de mudas nos primeiros anos é bastante restrita. Além do mais, ainda são necessários ensaios para verificar se o potencial de desempenho animal é realmente tão superior quanto ao obtido no primeiro ensaio citado. O importante é continuar utilizando as variedades industriais mais produtivas da região e aplicar toda tecnologia disponível, tanto na produção quanto no balanceamento de rações.
Bibliografia
LANDELL, M. G. A.; CAMPANA, M. P.; RODRIGUES, A. A.; CRUZ, G. M.; ROSSETO, R.; FIGUEIREDO, P. et al.. A variedade IAC86-2480 como nova opção de cana-de-açúcar para fins forrageiros: manejo da produção e uso na alimentação animal. Boletim Técnico IAC 193 - Série Tecnologia APTA - Instituto Agronômico (IAC), Campinas, 2002. 36 p.