A conservação de forragens é caracterizada por apresentar um estado de constantes mudanças químicas e bioquímicas. Desde o momento do corte, mudanças microbiológicas e químicas resultam em silagens e fenos de diferentes categorias, alterando o valor nutritivo, quando comparadas com a forragem original. Conseqüentemente, é difícil oferecer aos animais volumosos conservados com a mesma composição, principalmente no caso de forragens conservadas na forma de silagem.
Em forragens frescas, 75 a 90% do total do nitrogênio presente está na forma de proteínas, o restante é encontrado principalmente como peptídeos, aminoácidos livres, aminas, nucleotídeos, clorofila e nitratos. A alta proporção de N protéico é derivada de enzimas localizadas no cloroplasto, particularmente da abundância de ribulose 1, 5 carboxilase. A fermentação dentro do silo causa uma série de mudanças na composição química da forragem, principalmente nas frações nitrogenadas, pois durante a respiração (primeiras horas após a ensilagem) e início do processo fermentativo, muitas células das plantas podem romper-se e liberar enzimas, incluindo as proteases.
As enzimas proteolíticas das plantas podem reduzir a qualidade da forragem pela hidrólise das proteínas, com consequente aumento do NNP (aminoácidos livres, aminas e peptídeos). Pesquisas demonstraram que uma ação prolongada das enzimas pode elevar os teores de nitrogênio solúvel para mais de 50% em relação ao nitrogênio total. Além desse fato, a degradação da PB também pode ser causada pela atividade microbiana (bactérias gênero Clostridium), produzindo amônia e aminas e aumentando dessa maneira a presença de nitrogênio solúvel no alimento, como pode ser observado na Tabela 1.

O aumento nos teores de amônia ruminal é muitas vezes indicado como a principal responsável pela menor ingestão da silagem, mas a solubilidade da proteína pode ser o maior agente causal, resultando na produção de amônia. O excesso de nitrogênio solúvel é o principal fator responsável pela redução de eficiência de utilização de proteína da silagem. Como parte da fração nitrogenada é degradada a frações solúveis, rapidamente degradadas no rúmen, ocorre baixa eficiência de síntese de proteína microbiana em relação a dietas contendo forragens frescas ou feno, o que resulta em menor fluxo pós-ruminal de proteína microbiana (Givens & Rulquin, 2002; Nussio et al., 2003). Segundo Givens & Rulquin (2002) a eficiente síntese de proteína microbiana em animais alimentados com silagens de alta qualidade deve estar entre 30-45 g N microbiano/kg de matéria orgânica aparentemente degradada no rúmen (MOADR). Dietas baseadas em silagens de milho apresentaram valores médios de síntese de proteína da ordem de 48,4 g N microbiano/ MOADR (86 observações) e para as silagens de gramíneas este valor foi de 30,1 g N microbiano/ MOADR (17 observações), mostrando que a eficiência na utilização do N varia de acordo com as culturas, devido as suas particularidades durante o processo fermentativo.
A atuação de bactérias proteolíticas também tem demonstrado que a fração protéica B3 (proposta pelo modelo de Cornell) pode sofrer desaparecimento durante o processo de ensilagem, possivelmente devido a hidrólise ácida e enzimática da parede celular (Figura 1), e está correlacionada com a elevação do teor de amônia.

O que também se torna relevante é a perda seletiva de aminoácidos durante a ensilagem, decorrente de proteólise e deaminação, formando as poliaminas. Pesquisas com silagens de milho, sorgo, alfafa e trigo demonstraram as alterações que ocorrem no perfil de aminoácidos e verificaram aumento nas concentrações das poliaminas putrescina, cadaverina e espermidina e decréscimo nas concentrações dos aminoácidos: arginina, lisina e metionina, respectivamente. Daí a necessidade do uso de suplementos protéicos que venham colaborar para a oferta de nitrogênio tanto para o microrganismos ruminais como para o animal. Givens & Rulquin (2002) relataram que a suplementação com aminoácidos protegidos para vacas em lactação, resultou em respostas positivas na qualidade da proteína do leite, basicamente para os teores de metionina e lisina, demonstrando que a inclusão de aminoácidos na dieta de forma individual se torna mais importante que o total de N fornecido na dieta. Tal fato é devido à extensiva degradação dentro do silo e no rúmen que a proteína e os aminoácidos da silagem podem sofrer, reduzindo assim a absorção de aminoácidos no intestino.
Em relação à produção de feno, as modificações na proteína ocorrem principalmente durante o período de secagem no campo e no armazenamento. O processo de secagem resulta em aumento de NNP devido à hidrólise enzimática, semelhante ao que ocorre durante o processo de ensilagem, pois as enzimas hidrolíticas e respiratórias presentes nas células das plantas continuam ativas até que condições letais ocorram, ou seja, quando o teor de água da planta atinge valores abaixo de 35 a 40%.
As principais causas de perdas no armazenamento de fenos com alto conteúdo de água estão relacionadas com a continuação da respiração celular, e ao desenvolvimento de bactérias, fungos e leveduras. Em função da respiração celular e do crescimento de microrganismos, tem-se a utilização de carboidratos solúveis, compostos nitrogenados, vitaminas e minerais. Desta forma, há diminuição no conteúdo celular e aumento percentual na porção referente aos constituintes da parede celular, o que resulta em diminuição do valor nutritivo. Deve-se considerar, que a intensa atividade de microrganismos promove aumento na temperatura do feno, podendo-se registrar valores acima de 65oC e até combustão espontânea. Condições de alta umidade e temperaturas acima de 55oC são favoráveis a ocorrência de reações não enzimáticas entre os carboidratos solúveis e grupos aminas dos aminoácidos, resultando em compostos denominados produtos de reação de Maillard.
A formação de produtos de Maillard em fenos superaquecidos promove diminuição acentuada na digestibilidade da proteína (Tabela 2), uma vez que se pode observar aumento considerável nos teores de nitrogênio ligado a parede celular (NIDA), o qual não é disponível para os microrganismos do rúmen. Portanto, o aumento de NIDA ocorre com o decréscimo de proteína solúvel (frações B1 e B2) e elevação na quantidade de proteína alterada pelo calor (fração C).

Vale ressaltar que, em silos mal manejados o processo de oxidação de nutrientes é semelhante ao que acontece durante o armazenamento de fenos, devido ao crescimento de microrganismos indesejáveis que produzem calor, e dessa maneira há acréscimos na temperatura da massa de silagem, ocorrendo reações de Maillard e a provável indisponibilidade da proteína.
Analisando os resultados (Tabela 1 e Tabela 2) podemos observar, que quando proteína bruta é analisada de forma isolada na composição química de forragens conservadas, poucas alterações podem ser determinadas devido aos erros inerentes a essa metodologia. Assim, a simples determinação da concentração de PB, ou seja, nitrogênio total é inadequada para descrever a qualidade da proteína presente na forragem, tornando-se importante o conhecimento das frações nitrogenadas (NNP, proteína verdadeira, nitrogênio ligado à parede celular) que a compõe e dessa maneira a busca por eficiência na produção animal.
O uso de aditivos durante a ensilagem e a fenação pode ser um interessante recurso, por promover diminuição da proteólise e a inibição de microrganismos indesejáveis reduzindo as perdas de nitrogênio durante o processo de conservação de forragens.
Ressalta-se também, que o processo de conservação de forragens altera os nutrientes originalmente presentes na planta, proporcionando a produção de silagens e de fenos de diferentes qualidades nutricionais (Figura 2). Portanto, deve haver atenção para o uso de tabelas que trazem o valor da composição química dos alimentos quando a dieta for calculada com base no uso de forragens conservadas. O ideal seria que na fazenda ou dentro de instituições de pesquisa, as rações fossem manipuladas de acordo com a verdadeira composição que o volumoso apresenta, respeitando as suas particularidades.

Literatura consultada
BERNARDES, T. F. Características fermentativas, microbiológicas e químicas do Capim-marandu (Brachiaria brizantha (Hochst ex. a. Rich) Stapf cv. Marandu) ensilado com polpa cítrica peletizada. Dissertação de mestrado - FCAV/UNESP, 2003, 108p.
GIVENS, D. I., RULQUIN, H. Utilisation of protein from silage-based diets. In: THE INTERNATIONAL SILAGE CONFERENCE, 13th, 2002, Auchincruive. Proceedings... Auchincruive, 2002, p. 268-283.
JOBIM, C. C., GONÇALVES, G. D. Microbiologia de forragens conservadas. In: VOLUMOSOS NA PRODUÇÃO DE RUMINANTES: VALOR ALIMENTÍCIO DE FORRAGENS. Jaboticabal:Funep, p. 1-26, 2003.
NUSSIO, L. G., RIBEIRO, J. L., PAZIANI, S. F. et al. Fatores que interferem no consumo de forragens conservadas. In: VOLUMOSOS NA PRODUÇÃO DE RUMINANTES: VALOR ALIMENTÍCIO DE FORRAGENS. Jaboticabal:Funep, p. 27-50, 2003.
WATSON, S. J., NASH, M. J. The conservation of grass and forage crops. 2 ed. London, 1960, 758p.