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Utilizando a CCS e a CBT como ferramenta em tempos de pagamento por qualidade do leite - Parte 2

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 02/09/2005

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Interpretação dos resultados de análise do tanque - qualidade do leite

Existe grande controvérsia sobre os padrões que podem ser utilizados para as várias análises microbiológicas do tanque, uma vez que muitos autores baseiam-se em experiência pessoal ou na extrapolação de resultados de pesquisas. Não existem valores de referência para condições brasileiras. Ainda que tenha estas limitações, existem vários indicativos que podem ser úteis para a interpretação dos resultados. Desta forma, os valores apresentados são apenas indicadores.

a) Resultados da CBT < 10.000 UFC/ml indicam boas condições de higiene e de saúde da glândula mamária das vacas. Nas nossas condições de produção, a redução da CBT para valores menores é muito difícil, mas alguns rebanhos apresentam valores < 5.000 UFC/ml. A CBT é aumentada nas seguintes situações:

  • Ordenha de vacas com tetos sujos

  • Mastite causada por coliformes, estreptococos ambientais e estafilococos coagulase negativa

  • Falhas na limpeza de equipamentos de ordenha

  • Deficiência do resfriamento rápido do leite
b) Resultados de CTLP acima de 1000 UFC/ml são considerados altos. Geralmente, alta CTLP são observadas devido a problemas de limpeza de equipamentos, partes de borracha dos equipamentos velhos e desgastados (teteiras, mangueiras, registros) e formação de pedra do leite (depósito de minerais do leite e formação de filmes).

c) Os resultados de CIP são geralmente maiores que os de CBT. Quando os valores de CIP estão de 3 a 4 vezes maior que os resultados de CBT, isto é indicativo de problemas relacionados com limpeza de equipamentos e falta de higiene dos tetos antes da ordenha, assim como falhas no resfriamento do leite (demora no resfriamento ou não atinge temperatura adequada de 4-5º C) e/ou prolongado tempo de armazenamento do leite. Por outro lado, quando a CIP é igual ou apenas levemente superior a uma alta CBT indica que esta CBT é provavelmente devida à ocorrência de mastite no rebanho.

d) A contagem de coliformes é o resultado das medidas de higiene adotadas na fazenda. Considera-se que CC acima de 100 UFC/ml está associada com deficiência na higiene de ordenha, contaminação da água ou mastite causada por coliformes.

Quadro 2 - Recomendações para interpretação de resultados de análise de tanque


Interpretação dos resultados de análise do tanque - controle de mastite

a) CCS do tanque: o fator que tem maior efeito sobre a CCS é o nível de infecção da glândula mamária das vacas do rebanho. Desta maneira, existe uma forte relação entre a CCS do tanque e a porcentagem de quartos infectados no rebanho, como mostra a Tabela 1. Fica claro que o aumento da CCS no tanque é um reflexo direto do aumento do número de quartos infectados, o resulta em aumento nas perdas de produção de leite.

Outros fatores podem ter efeito indireto sobre a CCS. Observam-se aumentos na CCS à medida que avança a idade da vaca e o estágio de lactação. Entretanto, tanto a idade quanto o estágio de lactação não alteram a CCS em vacas não infectadas e o aumento da CCS observado no final da lactação está associado à maior probabilidade do animal ter se infectado ao longo da lactação, assim como a medida que ele fica mais velho.

Tabela 1 - Relação entre CCS do tanque, porcentagem de quartos infectados e porcentagem de perdas de produção de leite


De maneira complementar, os resultados da CCS de vacas individuais podem ser utilizados para avaliar a sanidade da glândula mamária através da identificação do número de animais com mastite subclínica (vacas com CCS acima de 200.000 células/ml de leite). Em rebanhos com monitoramento mensal individual de todos os animais, pode-se utilizar a CCS para verificar da eficácia do programa de controle de mastite adotado, assim como identificar animais infectados cronicamente que apresentam CCS altas por vários meses. Estes animais com mastite crônica podem ser identificados e posteriormente selecionados para descarte ou para secagem antecipada.

Para melhor compreensão dos resultados da CCS de vacas individuais, recomenda-se que estes resultados sejam distribuídos em função dos dias em lactação e número de lactações dos animais, o que pode indicar pontos falhos e que medidas de controle devem ser tomadas. Os dados da CCS obtidos de vacas individuais devem ser organizados de forma a possibilitar a identificação de variações sazonais e definir estratégias de controle para os períodos mais críticos do ano.

A CCS é também bastante útil na identificação de algumas poucas vacas que individualmente contribuem significativamente na CCS total do tanque (Tabela 2 e 3). Estas vacas identificadas com altas contagens de células podem assim ser selecionadas para:
  • Cultura microbiológica do leite

  • Secagem antecipada: vacas em estágio avançado de lactação e que apresentam altas CCS durante vários meses podem ser candidatas a secagem antecipada, uma vez que a taxa de cura de mastite com tratamento de vacas seca no momento da secagem é bastante superior àquela observada durante a lactação

  • Descarte de vacas com mastite crônica

  • Linha de ordenha: outra possibilidade de uso dos resultados da CCS é a ordenha tanto de animais com mastite clínica como animais com mastite subclínica após a ordenha de todos os animais sadios. Esta medida pode auxiliar na diminuição do aparecimento de novas infecções, pois diminui o risco de transmissão da mastite contagiosa durante a ordenha. No entanto, esta medida pode ser de difícil implantação se haver a necessidade constante de mudança de animais entre dos diversos lotes
Tabela 2 - Impacto da remoção de vacas do rebanho na CCS, considerando que todas as vacas tenham a mesma produção e que a CCS do tanque seja de 973.000 cel/ml.


A Tabela 3 ilustra o efeito do descarte de uma vaca com diferentes níveis de produção e CCS sobre a CCS do tanque em um rebanho de 50 vacas produzindo em média 23L por dia.

Tabela 3 - Impacto do descarte de uma vaca em um rebanho de 50 vacas com média de 22,5L/dia


b) Identificação de agentes causadores de mastite

Os agentes causadores de mastite podem ser classificados com base nos resultados da cultura microbiológica de amostras do tanque em contagiosos e ambientais. A cultura microbiológica do tanque apresenta alta sensibilidade na detecção de agentes contagiosos. Destacam-se dentro do grupo dos contagiosos:
  • Streptococcus agalactiae: estão presentes em altas contagens dentro de glândulas infectadas e são facilmente identificados na cultura do tanque. Entre as práticas de manejo associadas com infecções por S. agalactiae, podemos citar: manejo de ordenha inadequado (deficiência no pós-dipping), uso de toalhas não descartáveis, ausência de tratamento de vaca seca, alimentação de bezerras com leite contaminado pelo agente. Um das formas possíveis de introdução do S. agalactiae no rebanho é pela compra de vacas de outros rebanhos. Como forma de evitar tal este tipo de entrada do agente, as vacas compradas devem ser analisadas antes de serem introduzidas no rebanho.

  • Staphylococcus aureus: a identificação de S. aureus em 3 ou 4 amostras consecutivas é sugestiva de que o rebanho apresenta vacas infectadas com o agente. Este microrganismo é encontrado em baixos números nas glândulas infectadas e desta forma não é tao facilmente detectado nas culturas de tanque.

  • Corynebacterium bovis: é um agente contagioso, mas que apresenta baixa patogenicidade. É encontrado na microbiota da queratina presente no do canal do teto. Sua presença como agente causador de mastite é considerada como indicativa de deficiência nas medidas de controle, em particular quanto à desinfecção dos tetos após a ordenha.
Tomada de decisões baseada na análise do tanque

A análise conjunta das várias análises de leite do tanque pode ser organizada de forma a fornecer indicativos da origem dos problemas de qualidade e controle de mastite. Recomenda-se inicialmente, determinar se a CBT está acima de 10.000 UFC/ml. Caso a CBT ultrapasse esta recomendação, o segundo passo é determinar se a CIP é maior ou menor que 3-4 vezes a CBT. A partir de então, avalia-se a CCS (maior ou menor que 250.000 cel/ml). O esquema abaixo resume as várias possibilidades de identificação dos problemas, baseado nos resultados de análise do tanque.


Figura 1 - Esquema para interpretação de resultados de análise do tanque (adaptado de Jayarao e Wolfgang, 2003)


Literatura consultada

Brito, M., Brito, J. R. F., De Souza, H. M. e Vargas, O. L. Evaluation of the sensitivity of bulk tank milk cultures for the isolation of contagious bovine mastitis pathogens. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.18, n.1, Jan-Mar, p.39-44. 1998.
CRIST, W.L., HARMON, R.J., O'LEARY, J., MCALLISTER, A.J. Mastitis and its control. University of Kentucky Cooperative Extension Service, 1997.
De Haas, Y., Barkema, H. W., Schukken, Y. H. e Veerkamp, R. F. Associations between somatic cell count patterns and the incidence of clinical mastitis. Preventive Veterinary Medicine, v.67, n.1, Jan, p.55-68. 2005.
Edmondson, P. Practical use of bulk tank analysis for mastitis and milk quality problems. 44th NMC Annual Meeting Proceedings. Verona, WI: National Mastitis Council, 2005. 94-100 p.
Farnsworth, R. J. Microbiologic Examination Of Bulk Tank Milk. Veterinary Clinics Of North America-Food Animal Practice, v.9, n.3, Nov, p.469-474. 1993.
Jayarao, B. M. e Wolfgang, D. R. Bulk-tank milk analysis - A useful tool for improving milk quality and herd udder health. Veterinary Clinics Of North America-Food Animal Practice, v.19, n.1, Mar, p.75-+. 2003.
Jayarao, B. M., Pillai, S. R., Sawant, A. A., Wolfgang, D. R. e Hegde, N. V. Guidelines for monitoring bulk tank milk somatic cell and bacterial counts. Journal Of Dairy Science, v.87, n.10, Oct, p.3561-3573. 2004.
Roberson, J. e Bailey, T. L. Using records to evaluate udder health: Bulk tank analysis. Veterinary Medicine, v.94, n.2, Feb, p.190-193. 1999.
Schukken, Y. H., Wilson, D. J., Welcome, F., Garrison-Tikofsky, L. e Gonzalez, R. N. Monitoring udder health and milk quality using somatic cell counts. Veterinary Research, v.34, n.5, Sep-Oct, p.579-596. 2003.

Fonte: SANTOS, Marcos Veiga dos. Utilizando a CCS e a CBT como ferramenta em tempos de pagamento por qualidade do leite. In: CARVALHO, Marcelo Pereira de; SANTOS, Marcos Veiga dos. (Org.). Estratégia e competitividade na cadeia de produção de leite. Passo Fundo, 2005, v. 1, p. 246-260.


MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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ANDRESSA CAROLINO

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS

EM 07/07/2010

Parabéns e obrigada.
ANDRÉ PAULETI

PALMA SOLA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/11/2006

Por favor sou estudante e muitos termos por exemplo CIP CPLT, não consigo decifrar. Teria como demonstrar para melhor entendimento do artigo?
Obrigado!

<b>Resposta do autor:</b>

André,

Obrigado pela mensagem. As siglas são:

CIP: contagem com incubação preliminar
CT CTLP: contagem total de leite pasteurizado

Atenciosamente,
Marcos Veiga

JOSÉ ALMEIDA DE OLIVEIRA

MAJOR ISIDORO - ALAGOAS - EMPRESÁRIO

EM 04/09/2005

Comentários nesse sentido têm ajudado especialmente nós, produtores/profissionais do leite. Agradeço a colaboração e aguardo por novos artigos.