Mastite por E. coli aumenta o risco de laminite aguda em vacas leiteiras

Mastite grave pode desencadear laminite aguda. Diagnóstico precoce e triagem de cascos são cruciais na recuperação.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Um estudo do Qualileite FMVZ/USP revelou que a bactéria Escherichia coli está presente em 12% dos casos de mastite, associando-se a sintomas graves e aumento do risco de laminite. A pesquisa analisou 93 casos, mostrando que vacas com mastite severa têm maior probabilidade de desenvolver laminite aguda, frequentemente manifestando-se entre 24 e 96 horas após a mastite. A identificação precoce de sinais de laminite é crucial para o manejo adequado.

Resultados de um estudo recém-concluído pela equipe do Qualileite FMVZ/USP indicam que a incidência de mastite clínica em fazendas leiteiras do Brasil é de aproximadamente 8% ao mês. Do total de casos de mastite clínica, aproximadamente 42% não apresentam crescimento bacteriano. Dentro dos casos com crescimento cerca de 12% tem como causa Escherichia coli. Esses dados indicam a importância desse agente causador de mastite clínica, tanto pelo maior risco de casos graves com manifestações sistêmicas, quanto pelo risco de outras doenças associadas como a laminite

 

O que é a mastite causada por Escherichia coli

Escherichia coli é uma bactéria Gram-negativa, comumente encontrada no trato digestivo e em ambientes contaminados com esterco. Essa bactéria invade o canal dos tetos de forma oportunista, prolifera rapidamente e libera toxinas da parece celular, conhecidas como lipopolissacarídeos (LPS). Essas toxinas são potentes estimuladores do sistema imunológico, desencadeando uma forte resposta inflamatória local, que pode evoluir para sintomas sistêmicos em casos graves.

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Além dos sintomas de alteração do leite e do quarto mamário (alterações na consistência e cor do leite, inchaço, vermelhidão e dor), as vacas afetadas têm acentuada diminuição na produção de leite e sinais sistêmicos, incluindo:

  • febre,
  • redução de consumo,
  • redução da atividade ruminal e desidratação,

Em razão do aumento da permeabilidade da barreira sangue-leite, pode ocorrer a passagem de bactérias do leite para a corrente sanguínea, caracterizando um quadro de bacteremia.

 

Risco de laminite é maior em vacas com mastite

De forma semelhante, a laminite é uma condição dolorosa caracterizada pela inflamação asséptica da derme que reveste os cascos, podendo levar à claudicação. Geralmente, a laminite está associada a distúrbios nutricionais, como a acidose ruminal subaguda, que é resultado de uma alteração da microcirculação na camada dérmica dos cascos, desencadeada por compostos tóxicas e vasoativos, como endotoxinas e histaminas.

Um estudo recente avaliou a associação entre a inflamação sistêmica gerada pela mastite grave por E. coli e o desenvolvimento de laminite aguda. O objetivo foi avaliar se vacas com mastite grave por E. coli (escore 3) apresentavam maior risco de desenvolver laminite aguda em comparação com aquelas com mastite leve ou moderada (escores 1 ou 2), assim como o tempo de sobrevida após o caso de mastite clínica. 

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O estudo baseou-se em uma análise retrospectiva de 93 casos de mastite por E. coli, sendo que as vacas foram classificadas em três grupos com base na gravidade da mastite e na presença de laminite aguda:

1: mastite leve a moderada por E. coli sem sinais de laminite aguda;

2: mastite grave por E. coli de escore 3 (severa) sem sinais de laminite aguda;

3: mastite grave por E. coli de escore 3 (severa) com sinais de laminite aguda.

Dos 93 animais avaliados, a maioria (79,6%) apresentava mastite por E. coli de escore 3, indicando uma alta concentração de casos graves, o que pode ser explicado em razão do estudo sido desenvolvido com dados de um hospital veterinário.

A mastite por E. coli foi mais frequente em vacas com ≥ 3 lactações e durante o primeiro terço da lactação. Entre os casos graves, 28 vacas (37,8%) também desenvolveram laminite aguda, mas nenhuma vaca com mastite por E. coli de escore 1 ou 2 desenvolveu laminite aguda. O estudo também revelou que a laminite aguda, quando associada à mastite por E. coli grave, frequentemente se manifestava de forma tardia: 68% dos casos desenvolvendo sinais entre 24 e 96 horas após do início do caso de mastite clínica.

Uma possível explicação para essa associação entre mastite clínica grave por E. coli e laminite é que endotoxinas podem migrar do úbere para a corrente sanguínea em concentrações elevadas, alcançando os capilares da camada dérmica dos cascos. Esse processo compromete a microcirculação, resultando em suprimento insuficiente de oxigênio e nutrientes para a derme. A perfusão reduzida enfraquece a conexão entre a derme e a epiderme, o que associado ao estresse mecânico do peso corporal do animal, causa alterações das estruturas dos cascos, resultando nos sintomas clínicos característicos da laminite aguda.

Os resultados confirmaram que houve associação significativa entre a gravidade da mastite (escore 3) e amaior incidência de laminite aguda, o que sugere uma relação direta entre a mastite grave por E. coli e o risco desenvolvimento subsequente de laminite.

Embora as vacas do Grupo 1 (mastite leve/moderada) tenham apresentado o tempo de sobrevida mais longo (512 dias), e as do Grupo 2 (mastite severa sem laminite) o mais curto (93 dias), não houve diferença estatisticamente significativa no tempo de sobrevida entre os grupos. Esta ausência de diferença significativa pode ser explicada pela alta prevalência de outras doenças em todos os grupos (entre 53,6% e 65,2% das vacas), o que provavelmente influenciaram a sobrevida e mascarram o efeito isolado da laminite.

Os resultados deste estudo têm implicações diretas para a rotina de protocolos de tratamento de mastite clínica grave em fazendas leiteiras. Em razão da alta probabilidade (cerca de 38%) de vacas com mastite grave por E. coli (escore 3) desenvolverem laminite aguda, é recomendável que que estas vacas sejam também avaliadas em relação à condição dos cascos. A identificação precoce de sinais como claudicação, dor e, especialmente, a inflamação da banda coronária é importante para o bem-estar da vaca e para implantar protocolos de tratamento mais específicos para laminite.

Além disso, vale destacar que a laminite aguda associada à mastite por E. coli pode manifestar de forma tardia em relação à mastite clínica, com sintomas manifestando nos dias seguintes ao diagnóstico de mastite grave.

Referências bibliográficas

Faustmann, et al., 2025  https://doi.org/10.3390/ani15121709

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Material escrito por:

Marcos Veiga Santos

Marcos Veiga Santos

Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260

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