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Manejo de cama e qualidade do leite

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 09/01/2015

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Sistemas de confinamento para vacas leiteiras de alta produção, como os do tipo free-stall, permitem máxima expressão do potencial de produção leiteira das vacas. Contudo, a decisão de uso deste sistemas deve levar em conta os aspectos de custos, ambientais, de saúde e de conforto das vacas, uma vez que em muitas situações, em razão de falta de planejamento adequado das instalações, o ambiente em que a vaca fica alojada favorece a ocorrência de doenças e prejudica o bem estar e conforto dos animais. Além da necessidade de bom planejamento das instalações, em particular quanto ao dimensionamento de camas e corredores, boa ventilação e facilidade de manejo de desejos, a escolha do tipo de cama a ser usada pode afetar diretamente o conforto e a higiene da vaca, e consequentemente, ter efeitos negativos sobre a saúde da glândula mamária. Dentro deste cenário, as principais questões a serem levantadas são: qual o tipo de material mais recomendado para otimizar o conforto e a prevenção da mastite? Quais as recomendações de manejo de limpeza das camas para melhoria da higiene?

Higiene e controle de mastite
Um dos princípios básicos de controle de mastite é a redução da contaminação na extremidade dos tetos, pois os resultados de pesquisas indicam que existe uma relação positiva entre o grau de contaminação dos tetos e a prevalência de mastite. Além disso, as condições de higiene do úbere e das pernas das vacas estão relacionadas positivamente com a contagem individual de células somáticas. Sendo assim, vacas que são alojadas em locais secos, limpos e confortáveis podem apresentar maior produção e qualidade do leite. Em estudos sobre fatores de riscos associados com a CCS de rebanhos leiteiros, foi identificado que os rebanhos com baixa CCS (< 150.000 cels/ml) apresentaram melhores condições de limpeza da cama, dos galpões, das vacas e da ordenha do que rebanhos com CCS alta (>400.000 cels/ml). Os principais fatores que prejudicam as condições de higiene das camas e das vacas e, consequentemente, aumentam a ocorrência de mastite são: superlotação nos galpões, fezes com consistência líquida, pouca frequência de limpeza e de reposição da cama e baixa frequência de limpeza de corredores.

Para avaliar as condições de higiene das vacas, foram desenvolvidos sistemas de classificação visual (escores) que podem ser usados de forma prática e simples para a avaliação da higiene do úbere e dos tetos. Um dos principais métodos utilizados é um sistema de escores proposto por pesquisadores da Universidade de Wisconsin (EUA). Este sistema de escore de limpeza das vacas é baseado na avaliação visual das vacas, sendo que a condição de higiene do úbere e das pernas (inferior e superior) é avaliada por meio de pontuação que varia de 1 a 4 (1 = ausência de esterco; 2 = pequenos respingos de esterco – 2 a 10% da área; 3 = 10-30% das áreas com placas de esterco; 4 = > 30% das áreas cobertas com esterco), conforme apresentado na Figura 1. Com base nos resultados do escore de limpeza, rebanhos com mais do que 20% das vacas com escores 3 e 4 apresentam problemas de higiene do úbere, o que resulta em maior risco de mastite ambiental, além de redução da qualidade do leite e da eficiência de ordenha.





Figura 1 – Escore de higiene de vacas leiteiras
(Fonte: http://milkquality.wisc.edu/wp-content/uploads/2011/09/udder-hygiene-chart.pdf)

Escolha do tipo de cama
O principal objetivo das camas em sistemas de confinamento é manter as vacas limpas e confortáveis. Sendo assim, o material da cama deveria ser barato, seco, confortável e não permitir o crescimento bacteriano. Além disso, os principais fatores que devem ser levados em conta quando da escolha do tipo e do manejo da cama são a compatibilidade com o sistema de manejo de desejos e os custos do material. De forma geral, praticamente nenhum tipo de cama apresenta todas ao mesmo tempo estas características desejáveis.

Em termos de contaminação, para que ocorra aumento da população de bactérias na cama os requerimentos básicos dos microrganismos são: pH adequado, alta umidade, elevada temperatura e disponibilidade de nutrientes orgânicos. Desta forma, pode-se classificar as camas em dois grupos principais de materiais, de acordo com a capacidade de permitir o crescimento microbiano: orgânicas e inorgânicas.

As camas orgânicas mais tradicionalmente utilizadas são as de: palha ou feno, serragem, maravalha, resíduos de culturas agrícolas (milho, espigas, casca de café, e outros), resíduo de papel e papel picado, compostagem de esterco e outros materiais. Em razão dos materiais orgânicos permitirem maior facilidade de multiplicação microbiana nas camas, o manejo de limpeza e reposição implica em maiores cuidados. Dependendo do local, as camas orgânicas podem ser altamente disponíveis, o que facilita o seu uso mais intenso. Além disso, as camas orgânicas apresentam boa capacidade de absorção de umidade e proporcionam ótimo grau de conforto para as vacas. Em termos operacionais, os materiais orgânicos não interferem de maneira significativa no funcionamento dos sistemas de manejo de desejos, o que pode ser considerado uma grande vantagem em algumas fazendas. Contudo, a principal desvantagem do uso de camas orgânicas é a rapidez (< 24 horas) e facilidade com que ocorre o aumento da contaminação microbiana, quando ocorre contato com fezes e urina. Nestas condições de elevada umidade (> 75%), os principais patógenos causadores de mastite ambiental (estreptococos ambientais e coliformes) são encontrados em elevadas contagens e podem se multiplicar de forma acelerada em faixas de temperatura de 15oC e 45°C.

Os principais materiais inorgânicos utilizados são a areia e os colchões. Atualmente, as camas inorgânicas a base de areia são consideradas como uma das melhores opções do ponto de vista de minimizar contaminação microbiana e por proporcionar ótimo grau de conforto. No entanto, a areia apresenta custo elevado e pode ter limitações de uso em alguns sistemas de manejo de desejos. Mesmo sendo considerado um material inorgânico, na medida em que ocorre intensa contaminação da areia por fezes e urina, este tipo de cama pode permitir aumento da contaminação ambiental, principalmente quando a areia é reciclada e a lavagem é feita com água já contaminada. Para ter boa qualidade, a areia deve apresentar baixa contaminação com argila ou lama, partícula fina e ser armazenada adequadamente, para evitar a contaminação. Além de ser um material inerte, em razão da estrutura e da textura solta, a areia é um ótimo material em termos de conforto para as vacas, pois se ajusta ao tamanho e peso das vacas. Quando as vacas estão em condições confortáveis de ambiente, o tempo em que permanecem deitadas durante o dia é de cerca de 8 a 12 horas.

Manejo das camas
Além da escolha do tipo de material a ser usado, o manejo de limpeza e reposição das camas afeta diretamente o grau de contaminação e higiene das camas. Em termos gerais a principal forma de contaminação das camas é por contato com esterco e urina, o que pode ocorrer diretamente a partir da defecação das vacas sobre a cama, ou por meio da contaminação do esterco presente nos corredores (quando as vacas se deitam no corredor e depois na cama, contaminação pelo rabo da vaca, esterco aderido nas pernas e pés, respingos de esterco). Desta forma, o manejo das camas visa reduzir a presença de esterco e urina principalmente na região da cama que entra em contato com o úbere, cujo objetivo é reduzir a contaminação dos tetos e da ocorrência de mastite.

A frequência de reposição da cama depende do tipo de material usado (orgânico ou inorgânico). Considerando que a contagem de bactérias nas camas orgânicas atinge valores máximos cerca de 48 horas depois da colocação de material novo, recomenda-se que a troca neste tipo de cama deve ocorre em no máximo a cada dois dias. Em termos de frequência de reposição das camas de areia, a recomendação mais utilizada é que seja feita semanalmente a adição de areia para manter uma camada de cerca de 15-20 cm.

Em relação às camas de areia, recomenda-se que durante todas as ordenhas seja feito um manejo de limpeza e retirada manual de esterco em locais com acúmulo de urina, assim como um nivelamento da cama para melhorar o conforto. Não é recomendado revolver a areia, pois a camada inferior é geralmente mais contaminada e a reposição de areia deve ser feita somente na camada superior.

Além da limpeza diária e reposição de material novo, alguns produtores têm utilizado aditivos na cama, com o objetivo de aumentar a vida útil do material e reduzir a contaminação bacteriana. Dentre estes aditivos, a cal hidratada é um dos mais utilizados em razão do custo e da disponibilidade. A principal função da cal hidratada é de reduzir o teor de umidade e alcalinizar a cama, o que dificulta o crescimento de microrganismos contaminantes. Os estudos científicos que avaliaram a adição de 0,5 a 1 kg de cal hidratada em camas de maravalha indicaram que houve diminuição da população microbiana na cama, mas os efeitos sobre a ocorrência de mastite clínica são variáveis, pois a manutenção da carga microbiana ocorre por um período de tempo máximo de 48 horas. Em resumo, os estudos indicam que a adição de cal ou outro aditivo apresenta efeito de duração curta de 24 a 48 horas e somente teria boa eficácia se fosse adicionada diariamente.

A manutenção de um bom padrão de higiene das camas e do ambiente é um constante desafio de manejo e de controle da mastite ambiental. Além da avaliação da condição das camas e do escore de limpeza das vacas, uma das formas mais adequadas de avaliar a interferência da higiene das camas sobre a saúde da glândula mamária é a contagem de células somáticas (CCS) do tanque e da incidência de novos casos de mastite clínica.

Fonte - originalmente publicado em SANTOS, M. V. Mundo do Leite. v.65, p.12 - 13, 2014.

 

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/02/2015

Prezado Gustavo,

Dentre as opções para desinfeção de camas, o uso de calcário (cerca de 1 kg no terço final da cama) pode ser uma opção, mas tem duração curta de até 24 horas. Depois deste período não tem mais efeito. Não tenho experiência com outros produtos e que tenham comprovação de eficácia.

Deve-se avaliar a qualidade da areia, para verificar se a areia já está contaminada antes de ser usada. Por outro lado, o aumento de CCS não está necessariamente ligado somente com a cama e sim com mastite contagiosa. Seria necessária uma avaliação dos agentes causadores para identificar se o problema de CCS está ou não associado com manejo de cama.

Atenciosamente, Marcos Veiga
GUSTAVO MENECHELI

DUARTINA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/02/2015

Olá Dr. Veiga, preciso de ajuda para montar uma rotina de desinfecção de cama de areia em free-stall. Estamos com alto CCS e vejo que as vacas estão com escores 2 a 3 de sujeira. Como proceder.

Obrigado!
MAURÍCIO SEMENSE

GAURAMA - RIO GRANDE DO SUL - ESTUDANTE

EM 27/01/2015

Muito boa a matéria.
FRANCE ÂNGELO SOARES TAVARES

AMAZONAS - ESTUDANTE

EM 25/01/2015

Muito bom o texto!