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Contaminação ambiental de Strep. uberis e implicações para a saúde do úbere

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E GUSTAVO FREU

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 21/10/2021

4 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 21/10/2021

Streptococcus uberis é uma das principais causas de mastite em muitos países e que afeta negativamente a produção de leite e o bem-estar de vacas leiteiras. Apesar dos esforços concentrados para conhecer e entender este agente, atualmente, o controle é baseado no tratamento das vacas infectadas e na higiene do ambiente.

Strep. uberis é uma bactéria adaptada ao trato gastrointestinal de vacas leiteiras e que atua como oportunista na glândula mamária, especialmente pela presença na forma assintomática em diferentes locais das vacas (e.g., pele) ou pela capacidade de sobreviver no ambiente por longos períodos.

Considerando que a transmissão é predominantemente ambiental, as infecções intramamárias causadas por Strep. uberis resultam do contato das vacas leiteiras com ambientes contaminados. Neste cenário, as vacas leiteiras podem propagar o ciclo de infeção, uma vez que podem eliminar Strep. uberis via fezes.

Estudos anteriores demonstraram que a prevalência de Strep. uberis nas fezes de vacas varia de 5 a 23%. Portanto, compreender como as mudanças de ambiente, de manejo ou de fatores da própria vaca aumentam a prevalência de Strep. uberis nas fezes pode auxiliar no controle da contaminação ambiental e os riscos de infecções intramamárias.

Recentemente, pesquisadores do Reino Unido realizaram dois estudos com objetivo de avaliar a prevalência de Strep. uberis nas fezes de vacas leiteiras e os fatores que podem afetar o transporte gastrointestinal deste microrganismo. O primeiro estudo avaliou os padrões de eliminação em todas as vacas adultas de um rebanho (aproximadamente 216 vacas) ao longo de 9 meses, em intervalos de 8 semanas. Já o estudo 2, avaliou os padrões de eliminação em 46 vacas do mesmo rebanho, três vezes por semana, durante 4 semanas. Para isso, amostras de fezes das vacas selecionadas foram coletadas e submetidas a detecção de Strep. uberis usando método baseado em PCR. Durante os estudos, as vacas foram confinadas no período de inverno (novembro a março) e mantidas a pasto no restante do ano.

 

Os resultados do primeiro estudo mostraram que a prevalência geral de Strep. uberis nas fezes foi de 18% (195/1.080), variando de 10,2% durante a estação de pastejo (outubro) para 33,2% durante a temporada de confinamento (fevereiro). Apesar disso, as mesmas vacas não foram identificadas como positivas em todos os momentos de avaliação (vacas persistentes).

Já no segundo estudo, a prevalência média de detecção de Strep. uberis foi de 30%, o que foi semelhante ao descrito para o período de confinamento no primeiro estudo. Estes resultados sugerem que a presença de Strep. uberis no ambiente ocorreu devido a uma alta proporção de vacas eliminando o microrganismo nas fezes e não devido a um baixo número de vacas com "super eliminação" no rebanho. Por isso, os estes estudos sugerem que a colonização gastrointestinal por Strep. uberis é temporária e requer a ingestão contínua do microrganismo para repovoamento da flora gastrointestinal.

A sazonalidade influenciou as taxas de detecção de Strep. uberis em amostras de fezes. Houve 2,82 vezes mais chances de detecção o patógeno nos meses de inverno quando as vacas estavam confinadas em comparação com o período de pastejo.

Além disso, o aumento sazonal na detecção de Strep. uberis correspondeu ao aumento na incidência de mastite clínica durante o período de confinamento. Mudanças no manejo (e.g., diferenças na dieta), comportamento e no ambiente das vacas podem afetar a transmissão fecal-oral do Strep. uberis. É importante destacar que, enquanto pastam, as vacas não defecam em áreas restritas, mas quando confinadas há grande acúmulo em pequenas áreas. Esta característica pode resultar em concentrações mais altas de Strep. uberis em ambientes confinados e, consequentemente, aumentar o risco de transmissão fecal-oral e de contaminação da glândula mamária por Strep. uberis.

A dieta das vacas variou entre as estações, com a inclusão de pastagens no verão. Este fator externo influenciou a presença e detecção de Strep. uberis nas fezes, pois a capacidade de Strep. uberis utilizar diferentes carboidratos como fonte de energia, pode favorecer a sobrevivência e proliferação deste patógeno em certos ambientes. Além disso, alterações na dieta podem alterar a consistência fezes e levar a um efeito de diluição resultando em menores chances de detecção do patógeno.

O número de lactações, escore de condição corporal (ECC) e alojamento também afetaram a detecção de Strep. uberis nas amostras de fezes. Houve aumento das chances de detecção de Strep. uberis nas vacas com ECC ≥ 3,5 em comparação com < 3,5. Além disso, as chances de detecção de Strep. uberis foram maiores em vacas primíparas em comparação com multíparas, ainda que sem uma explicação clara sobre as razões desta diferença.

Em termos gerais, as vacas mantidas em cama sem palha apresentaram 1,77 vezes mais chance detecção de Strep. uberis nas amostras de fezes do que àquelas alojadas em camas com palha, o que impacta as características da cama (e.g., umidade, pH, temperatura).

Como conclusão, o estudo aponta que as condições do ambiente, o tipo de cama e a limpeza geral das instalações alteram a carga de Strep. uberis no ambiente.

Portanto, rebanhos com problemas de mastite causada por Strep. uberis têm um desafio constante de para reduzir a contaminação ambiental desta agente e, assim, reduzir o risco de transmissão fecal-oral e de novos casos de mastite.

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Referências 
SHERWIN et al. Journal of Dairy Science, 2021. doi.org/10.3168/jds.2021-20310.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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