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Navegando em águas inexploradas

Em agosto de 2006, dei uma palestra sobre perspectivas para o mercado internacional de lácteos. Falei sobre grandes tendências e sobre a percepção, de curto prazo, de que os preços das commodities lácteas provavelmente se manteriam no bom patamar alcançado já há algum tempo. Um boa notícia, sem dúvida. No mês seguinte, porém, os preços começaram a subir. Mais do que isso, disparar, como pode ser observado no gráfico 1, atingindo níveis sequer imaginados pelo mercado.

O consolo em que posso me apoiar, diante de minhas previsões equivocadas daquela época, incapazes de prever o tsunami que se aproximava, é que, salvo engano, nenhum analista de mercado, trading, centro de pesquisa, universidade, laticínio ou qualquer outro agente atuante na área previu tal comportamento. Com o leite em pó alcançando preços na casa dos US$ 4000/tonelada ou mais, vários mitos foram derrubados, o principal deles é que haveria um teto de cerca de US$ 2500 ou US$ 2600/tonelada a partir do qual o comércio internacional se reduziria, fruto da substituição de produtos de base láctea por outros.

Mas não é só isso que torna o momento atual único. Como bem escreveu Paulo Martins em sua última análise de conjuntura Deu a louca nos preços. O gráfico 2, produzido a partir de diversas fontes, mostra preços recentes de leite em US$/kg em alguns dos principais países ou regiões produtoras de leite do mundo. Enquanto o preço médio no Brasil gira em torno de US$ 0,25/kg, nas regiões com maior concorrência há laticínios reportando preços médios da ordem de mais de R$ 0,60/kg, até R$ 0,63/kg ou US$ 0,31/kg, algo impensável há um ano. Há produtores - coluna Brasil máximo, no gráfico 2 - recebendo R$ 0,73/kg ou US$ 0,36/kg, preço próximo ao recebido por produtores da União Européia, ícone da baixa eficiência de custos de produção de leite e da manutenção da competitividade às custas de subsídios que, no caso das exportações, hoje se restringem a manteiga e queijos, visto que leite em pó integral e desnatado conseguem ser exportados pela UE sem subsídios.

Aposto que ninguém poderia dizer que nossos preços atingiriam patamares próximos aos da UE - e, diga-se, não em um cenário irreal, ou de rentabilidade extrema, mas sim de forma condizente com os custos da atividade e com o mercado. Embora 2007 será melhor do que 2006 em relação a rentabilidade da produção, não se trata de um ano excepcional.

A grande dúvida que paira sobre o mercado é até que ponto tudo isso é uma bolha (há quem diga que os preços das proteínas lácteas atingiram o limite) e em algum momento o mercado volta ao que era antes, ou se estamos diante de uma mudança de patamar, não conjuntural, mas estrutural. Há alguns indícios de que isso pode realmente estar acontecendo.

Gráfico 1. Preços de exportação do leite em pó integral, US$/kg


Fonte: Secex, USDA e Senasa

Gráfico 2. Preços pagos pelo leite em diversos países, US$/kg


Fontes: NZ, União Européia e Estados Unidos - LTO Nederland, para fevereiro; Brasil - Cepea/USP, para março; Brasil máximo - agentes de mercado; Argentina - Senasa; Argentina máximo - notícias.

Primeiro, as perspectivas de crescimento da economia mundial nos próximos anos, especialmente em países que consomem pouco leite e têm grande população, podem fazer com que a demanda de lácteos cresça a uma taxa maior do que a oferta. Segundo notícia que publicamos recentemente (Clique aqui para ler.), a partir de uma análise da Fonterra, nos próximos 10 anos a oferta de lácteos deve crescer no mundo 2,0% ao ano, ao passo que a demanda crescerá 2,7%. Esse descompasso, acumulado durante 10 anos, significa 45 bilhões de kg de leite a mais sendo demandados acima da oferta - praticamente o que é hoje comercializado internacionalmente (gráfico 3). Trata-se, portanto, de uma mega oportunidade para empresas e produtores de leite competitivos.

Gráfico 3. Previsão de aumento na produção e demanda de leite no mundo (Elaborado a partir de previsões da Fonterra)


Segundo, players tradicionais podem deixar de sê-lo por razões climáticas ou pela concorrência com outras atividades. É o caso, por exemplo, da Austrália, grande exportadora mundial mas que tem sofrido por diversos anos problemas climáticos tidos por muitos como estruturais, ou seja, vieram para ficar. Já a Argentina, que possui ótimas condições de produção, terá de enfrentar a concorrência de outras atividades agrícolas, como soja e milho, cujas perspectivas são boas em função da questão do etanol e do biodiesel.

Se realmente estamos diante de uma discontinuidade, é oportuno refletir sobre seus efeitos. Em momentos de ruptura ou de mudanças estruturais, as regras do jogo mudam e ganha quem souber antecipar as tendências. Vamos voltar ao gráfico 2. Percebe-se que os preços praticados na Nova Zelândia estão muito abaixo dos demais (exceto a Argentina, que hoje tem um sistema de controle que evita sincronia de preços com o mercado externo). Isso quer dizer que há possibilidades reais de elevação de preços na Nova Zelândia. Considerando preços mais elevados, o que acontece com o tradicional sistema de produção desse país, baseado em pastagens quase sem suplementação? A pergunta é válida à medida que com preços do leite mais altos, a atratividade da suplementação aumenta. Se esse comportamento for estrutural, isto é, se for a nova realidade, podem haver mudanças significativas no sistema de produção neozelandês e, porque não, a produção pode ir bem além dos atuais 14 ou 15 bilhões de kg de leite por ano. Esse é apenas um dos possíveis efeitos dessa descontinuidade, caso possamos chamá-la assim.

É interessante notar que o que vemos no setor lácteo ocorre na economia como um todo. Reproduzo aqui trecho do livro Know-how, do consultor Ram Charan, e que trata, entre outras coisas, de como se portar diante de rápidas mudanças no cenário dos negócios.

"Desde a segunda Guerra Mundial até meados dos anos 90, a mudança(...) tendeu a ser relativamente linear, contínua e previsível. Nos dias de hoje, entretanto, mudanças abruptas e exponenciais são a regra. Veja, por exemplo, a ascensão rápida e acentuada da China, e posteriormente da Índia, causando um distúrbio no fluxo tradicional de comércio e na oferta e procura de commodities como o petróleo, o que provocou, por sua vez, um fluxo de alinhamentos políticos. Como observou Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, estamos navegando em "águas inexploradas". (....) A China não é o Japão dos anos 70, nem o transporte a jato é igual à internet. Nunca antes as tendências macroeconômicas tiveram impacto tão rápido e devastador sobre empresas e setores inteiros".

Estamos, pois, navegando em águas inexploradas, seja na economia mundial, seja no setor leiteiro. Por isso ninguém previu a ascendência dos preços internacionais dos lácteos, por isso "deu a louca nos preços", por isso os líderes mais conscientes se perguntam se o que estamos vivenciando é uma bolha ou uma mudança consistente.

Na tentativa de entender melhor essas mudanças e quais os impactos no setor lácteo brasileiro, vamos iniciar nessa semana um projeto denominado "Cenários para o Leite em 2020", uma realização da AgriPoint, Embrapa Gado de Leite e Instituto Ouro Verde, com o apoio do Sebrae, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e da OCB/CBCL. Reuniremos diversos especialistas atuantes no setor lácteo nacional e internacional para uma abrangente pesquisa via internet visando conhecer a percepção do setor sobre as principais incertezas que pairam sobre o futuro da atividade e da indústria láctea. Ao final do trabalho, que durará 4 meses e que terá a consultoria do Pró-futuro, instituto coordenado por professores da FEA/USP e que tem feito trabalhos semelhantes para governos, entidades e empresas, redigiremos um documento contendo possíveis cenários e seus impactos. Trata-se de uma tentativa inédita não de procurar prever o futuro, mas sim de criar visões consistentes e embasadas sobre aquilo que pode vir a ocorrer, indentificar as possíveis diferentes imagens do futuro, de forma a alargar a capacidade de visão estratégica de cada um dos atores envolvidos com o setor.

Esse tipo de exercício tem sido utilizado por empresas líderes globais, como a GE e a Shell, bem como por governos e agências de inteligência, para melhorar a capacidade de tomada de decisão em ambientes dinâmicos e incertos. Tudo indica que estamos passando por um momento desses no setor lácteo mundial. Há muitas incertezas em jogo e o rumo de cada uma delas e suas interações podem fazer surgir novos mercados, bem como extinguir outros que até então sustentaram setores inteiros e empresas. Em momentos de descontinuidade, é relativamente comum que haja um realinhamento de forças, com a supremacia econômica mudando de mãos. No setor lácteo, sairá na frente quem utilizar parte de seu tempo para tentar entender tendências que ainda não estão totalmente claras, refletindo acerca das oportunidades e ameaças por trás delas.

PS: se você desejar saber mais sobre o projeto "Cenários para o Leite em 2020", envie uma carta no formulário abaixo ou um email para cenarios@agripoint.com.br

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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