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A mesma fazenda em 1999 e em 2002: comparativo de custos e receitas

São cada vez mais freqüentes as matérias na mídia informando que o preço dos alimentos, entre eles e até com certo destaque o leite, subiram nesse ano, colocando pressão sobre a meta inflacionária do governo.

Em notícia publicada hoje (11/10), os preços agrícolas subiram 9,07% na primeira quadrissema de outubro em São Paulo, mantendo trajetória da alta de setembro (8,83%), refletindo-se no mês de maior elevação de preços recebidos pelos agricultores nos últimos 18 meses, com variação acumulada no ano levemente superior ao IGP-M (11,65% x 10,54%). Entre os 13 produtos com alta superior a 20% nos últimos 12 meses, está o leite.

A perspectiva é de continuidade nos aumentos até o final do ano. Em matéria também de hoje, a Folha de São Paulo coloca que o pãozinho deve subir de R$ 0,20 para R$ 0,30, fruto das cotações do trigo. Em comparação a dezembro de 2001, a previsão para dezembro de 2002 é de cotação sensivelmente mais alta para diversos alimentos: carne bovina: R$ 6,00 x R$ 7,30/kg; frango: R$ 1,80 x R$ 2,50/kg; óleo de soja: R$ 1,30 x R$ 2,15/900 ml; arroz: R$ 6,40 x R$ 9,00/5 kg ...

Enfim, parece que a âncora verde, que durou 8 anos, vai finalmente entregando os pontos, trazendo com ela o temor de retorno da inflação. Segundo matéria do Portal Exame (www.exame.com.br) , "o IPCA, anunciado nesta quarta-feira, atingiu 0,72% em setembro, superando a previsão do mercado, de 0,63%. No acumulado do ano, o IPCA já registra 5,60%, um nível superior ao averiguado para o mesmo período do ano passado (5,35%). Nos últimos doze meses, o índice soma 7,93%, contra 7,46% nos doze meses anteriores. O IPA, que mede os preços no atacado, chegou a 2,17% só nos primeiros dez dias de outubro".

Apesar da recuperação dos preços, a situação para os produtores é cada vez mais complicada, especialmente para quem utiliza grande quantidade de insumos e que trabalha em um sistema de produção de baixa flexibilidade. Em relação a esse ponto, certamente o sistema confinado, com animais de alta produção, é o menos flexível, embora sistemas a pasto, intensificados, também sejam relativamente travados em relação à flexibilização (por exemplo, não há muito como fugir do custo de fertilização, cujos valores estão inflados em função do dólar).

Vamos trazer um exemplo de como a situação se alterou de meados de 1999 para agora. Para isso, peguei os custos de alimentação de uma fazenda de rebanho confinado em São Paulo, com gado holandês e produtividade relativamente alta, na casa de 27,5 kg/vaca/dia. Comparei os custos de alimentação da época com os valores atuais. Em outras palavras, coloquei os custos atualizados dos alimentos e do preço do leite, mantendo a mesma eficiência técnica, e comparei a situação de junho de 1999 com a de outubro de 2002.

Esse procedimento deve ser vistos com ressalvas, porque dificilmente a dieta utilizada em junho de 1999 seria aplicada agora, pois as variações dos preços dos alimentos fazem com que ajustes sejam feitos visando otimizar os custos. Por exemplo, naquela época o farelo de soja estava cotado a módicos R$ 250,00 por tonelada, sendo o suplemento protéico mais econômico. Hoje, a R$ 700,00 a tonelada, possivelmente farelo de algodão, de girassol ou uréia seriam utilizados, reduzindo em algum grau o impacto do aumento dos custos, embora esses alimentos também subiram no período. De qualquer forma, nesse tipo de sistema a margem de manobra é limitada e o impacto dessa imprecisão é baixo, tanto é que diversas fazendas estão hoje com custos até superiores aos que relataremos abaixo.

As tabelas 1 e 2 trazem os preços do concentrado (tabela 1) e da dieta total (tabela 2) fornecida ao rebanho inteiro. Nota-se que o concentrado é basicamente milho mais minerais, pois o suplemento protéico (farelo de soja) é jogado diretamente no vagão de ração completa, junto com o volumoso e com subprodutos. Para o premix, mantive o mesmo preço de 1999 em 2002, pois era um produto personalizado, muito embora esse produto deva ter subido ao menos 40% no período. Mesmo assim, o custo do concentrado de 99, em 2002, já seria 83% mais caro.

Em relação à dieta total, os valores são também muito superiores em 2002, atingindo 76% de acréscimo em relação a 1999.





E o preço do leite, como se compara ?

Nessa fazenda em especial, uma grande produtora de leite B (6000 kg/dia), o preço do leite era R$ 0,35/litro (preço líquido) em junho de 99 e R$ 0,44/litro em outubro de 2002, indicando que, de fato, houve um acréscimo no preço recebido pelo leite, da ordem de 25,7%.

Mas, indo ao que interessa, supondo as dietas de 99, a média de leite de 99, e os preços dos alimentos e do leite em 99 x 2002, a fazenda está melhor ou pior hoje em comparação há 3 anos atrás ?

A tabela 3 traz esses dados. Nota-se que, fruto da elevação dos custos dos alimentos, o custo por vaca/dia subiu de R$ 3,76 para R$ 6,62/vaca/dia, refletindo os 76% de aumento já comentados. A receita por vaca/dia subiu de R$ 9,62 para R$ 12,10/vaca/dia, também refletindo o aumento de 25,7% no preço do leite para essa fazenda. Reunindo as duas informações, podemos calcular a relação entre o custo de alimentação das vacas e a receita total. Aí as coisas começam a ficar mais complicadas. Enquanto em junho de 99 cerca de 39% da receita líquida era comprometida com a alimentação das vacas, o que seria razoável, o valor subiu para 55% em outubro de 2002. Em outras palavras, essa fazenda tem 45% da receita para pagar a criação de animais de reposição, as vacas secas, a mão-de-obra (exceto a envolvida na produção de silagem, já contabilizada nos custos da mesma), medicamentos, maquinário, custos administrativos e, quem sabe, ter algum lucro no final ...

Um outro índice interessante de ser avaliado é a RMCA, Receita Menos Custo de Alimentação. É quanto sobra, por vaca/dia, após deduzidos os custos de alimentação das vacas em lactação. Esse parâmetro é um bom indicador da saúde financeira da atividade, pois já deduz o principal custo, que é a alimentação das vacas. Enquanto em 1999 cada vaca deixava R$ 5,86/dia, em 2002 esse número caiu para R$ 5,48, ou seja, redução de 6,5%. Frente aos demais números avaliados, a queda na RMCA parece não ser muito alta, mas é bom lembrar que vários dos custos que precisam ser pagos a partir desse montante também subiram no período. Por fim, o break even, ou a quantidade de litros de leite necessária para pagar os custos de alimentação subiu 48%, de 10,7 para 15,8 litros/vaca/dia.



Esses números mostram claramente que a situação dessa fazenda, hoje, está pior do que em 1999, ainda que tenha havido reajuste no preço do leite. Para ter os mesmos índices de 1999, a fazenda deveria receber os seguintes preços líquidos:

- para ter o mesmo Custo/Receita total e break even: preço líquido de R$ 0,62/litro de leite
- para ter a mesma RMCA: preço líquido de R$ 0,45/litro de leite

Focando a análise na RMCA e considerando que vários custos além da alimentação também subiram nesse período, é provável que o preço líquido para que haja equivalência entre os dois períodos seja de pelo menos R$ 0,50/litro. Sabe-se de fazendas que estão recebendo valores próximos (ou até superiores) a estes, mas não são a maioria.

Conclui-se, portanto, que os preços ao produtor estão aquém do preço obtido em junho de 1999, uma época inclusive de preços nada excepcionais. Fica a dúvida sobre o que poderá acontecer daqui para frente, considerando que:

- a indústria verificou aperto das margens nesse ano, fruto do aumento dos custos de matéria-prima, sem que houvesse possibilidade de repassar integralmente ao consumidor. Tanto é que houve elevação do consumo de lácteos, alguns produtos na ordem de 20%, havendo cada vez mais pressão para recomposição das margens: segundo matéria do Portal Exame, "a diferença da inflação medida nos preços ao atacado (pelo IPA, Índice de Preços no Atacado, Agrícola e Industrial) e no varejo (pelo IPC, Índice de Preços ao Consumidor) mostra um represamento da inflação. Esse represamento está sendo absorvido pelos produtores e não repassado de forma integral para os consumidores finais. Exemplo: em outubro, o IPA apurado nos dez primeiros dias foi de 2,17%, e o IPC, de 0,49%".

- ainda que não haja grande estímulo, o fato é que uma nova entrada de safra se aproxima, assim que voltar a chover no centro-sul. Considerando a recuperação parcial nos preços de leite e o fato da escassez do produto no mercado não dar sinais de alívio, a entrada da safra estimulará o safrista ou produtores de áreas de fronteira, que operam com baixo uso de insumos (e são portanto menos afetados pelo aumento dos custos) e receberão possivelmente preços atrativos considerando a sua realidade e a situação do mercado.

Apesar da entrada da safra não sugerir redução de preços, o fato é que para o produtor especializado, a previsão de curto prazo é de tempos difíceis, o que pode ser amenizado caso o dólar ceda.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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JOSE LUIZ RIBEIRO

PASSOS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/10/2002

Parabéns pelo artigo.
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 12/10/2002

Parabéns ao Dr. Marcelo Carvalho pela análise objetiva, com base em números concretos do desempenho econômico. Seus dados mostram que os sistemas de produção de leite caro não podem concorrer com os sistemas de produção econômicos, e por isto é que a produção migra para as regiões de melhores condições de produção a pasto, como ocorre no resto do mundo. Porqué chamar a produção cara de "especializada"? É especializada apenas em perder dinheiro. A produção estacional, na safra, é uma ótima opção para o produtor e para o Brasil, e deveria ser estimulada.