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A grande transformação

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 09/11/2021

4 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 09/11/2021

Alguém que tenha pouca familiaridade com a cadeia do leite pode concluir que estamos estagnados há cerca de 7 anos.

De fato, os dados de produção de leite compilados pelo IBGE mostram que de 2013 a 2020 crescemos somente 3,4% - isso em 7 anos (gráfico 1)! Há pouco tempo, esse era nosso crescimento anual. Na verdade, era maior: de 2000 a 2013, crescemos nada menos do que 4,3% a cada ano. Agora, estamos nesses anos todos empacados nos 34-35 bilhões de litros/ano.

evolução da produção de leite

Como bem colocou René Machado, diretor de captação de leite da Nestlé, no nosso ótimo evento Feras da Consultoria, hoje a cadeia do leite no Brasil é um tipo de “rouba-monte”: quando um cresce, o outro precisa diminuir; quando uma empresa vende mais lácteos, alguém perdeu mercado. O bolo não cresce.

O crescimento da produção de leite nas últimas 2 décadas foi muito associado ao crescimento do consumo interno, que praticamente não ocorreu desde a crise econômica que começou em 2014. Como ainda não conseguimos ser exportadores estruturais, o aumento da produção só consegue existir se a ponta da demanda interna estiver puxando – o que não tem ocorrido.

Mas estagnação no volume total não significa que mudanças importantes não estejam ocorrendo – e elas estão, em velocidade muito rápida.

Um primeiro dado interessante é o volume de leite oriundo de sistemas confinados, principalmente nos compost barns. Já há alguns anos, nossa equipe do MilkPoint Mercado faz uma pesquisa com alguns dos principais laticínios, e o gráfico 2 traz o crescimento do leite proveniente desse sistema dentro de seu pool de captação.

Os números saltam aos olhos: apesar de serem percentualmente poucos produtores, o volume de leite é significativo. Na média, 35% do leite destes laticínios já vem de confinamentos. E nada indica que estamos próximos do platô.

Não é mérito deste artigo discutir se isso é bom ou ruim; minha análise é que se está ocorrendo, deve ter uma razão, ou várias, mas que podem ser abordadas em outra análise ou mesmo em outros fóruns de discussão.

O ponto aqui é simplesmente mostrar que, apesar dos números macro do leite brasileiro estarem patinando, há uma profunda mudança ocorrendo, que impacta desde a sazonalidade do leite brasileiro, até o estoque de capital investido e a necessidade de aumento da produtividade, enfim, aspectos que estão ligados à profissionalização do setor (que pode ocorrer também via sistemas com uso intensivo de pastagens, sem dúvida).

Mas a mudança não é fruto exclusivo dos compost barns (que sem dúvida contribuem). Os dados do IBGE mostram claramente o aumento da produtividade, desde muito antes do primeiro compost barn ser instalado aqui, como pode ser atestado por essa esclarecedora animação feita pela CNA:

Os dados mostram que, em 1995, apenas 6 municípios do Brasil produziam mais do que 3.000 kg/vaca/ano. Dez anos depois, em 2005, já eram 126 municípios, enquanto em 2015 esse número já havia subido para 441. Em 2019, último dado incluído na análise, o número subiu incrivelmente para 908 municípios. Está certo que 3.000 kg é um número ainda baixo como piso da faixa de maior produtividade, mas não há como negar que a transformação tem sido ampla e tem se intensificado muito justamente nestes anos em que a produção vem andando de lado.

Outra forma de analisar essa evolução é pelo número de vacas ordenhadas: em 1995, eram 16,5 milhões para a produção de 20,6 bilhões de litros, ao passo que em 2019 o número era praticamente o mesmo – 16,3 milhões de vacas só que para 34,8 bilhões de litros, um aumento de 70% na produtividade.

As mudanças estão alterando também a estrutura de produção de leite no Brasil. Durante a Expointer, foi divulgado um levantamento feito pela Emater/RS mostrando que nada menos do que 52,28% deixaram a atividade entre 2015 e 2021. De 84.199 para 40.182 produtores. Uma enormidade, sem dúvida.

Não é possível afirmar que essa redução tenha ocorrido na mesma magnitude nos demais estados, mas se ocorreu, teríamos hoje cerca de 300 mil produtores vendendo leite à indústria e não os 634 mil apontados no Censo de 2017. Nosso colunista Sávio Santiago trouxe uma abordagem muito interessante a respeito dos efeitos desse processo no mix de compra de leite dos laticínios – recomendo a leitura.

O estudo aponta ainda que, apesar da redução no número de produtores, a produção total não foi afetada, isto é, houve aumento do módulo de produção de leite nesse período. Ainda, embora as fazendas com sistemas a pasto sejam a grande maioria, com mais de 90%, o número de confinamentos subiu de 696 para 1398.

Novamente, não é objetivo desse artigo discutir as razões para a saída de tantos produtores, e muito menos entrar na seara de se o movimento é bom ou ruim para o setor ou para o país, mas somente mostrar que a mudança é real e profunda.

E não é de hoje. O artigo dos pesquisadores da Embrapa Denis Teixeira da Rocha e Glauco Carvalho mostra a mudança estrutural entre os Censos Agropecuários de 2006 a 2017, e em 2013 eu escrevi também sobre o tema.

Portanto, não nos enganemos pelos números. Apesar de nossa produção ser praticamente a mesma de 2013, com toda certeza o leite produzido hoje é diferente do leite produzido naquela época (que foi outro dia!).

Está, sem dúvida, ocorrendo uma importante e profunda transformação na estrutura de produção brasileira, que está longe de terminar.
 

E na sua opinião, quais são as principais mudanças e transformações que vem ocorrendo na produção de leite brasileira? Conte pra gente nos comentários! 

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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EDUARDO

BAGÉ - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/11/2021

muito obrigado por estas informacao tao valiosas
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Obrigado Eduardo, conte conosco!
WILLEM VAN DER VLIET

CAIÇARA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/11/2021

Marcelo, parabéns pelo artigo, achei bem pertinente. Agora, você aponta a crise econômica como fator par a estagnação da demanda, é isso mesmo? E outra observação que eu gostaria de colocar, não devemos nos iludir com exportação, vai ser muito difícil competir com os "kiwi" e outros atores da cadeia do leite a nível mundial.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Olá Willem, obrigado! Sim, o grande fator conjuntural é a demanda menor em função da crise econômica. Mas sem dúvida há uma outra transformação vagarosa ocorrendo, que trata dos produtos concorrentes, da agenda ambiental mais prevalente, dos jovens buscando mais respostas para os produtos que consomem, e do envelhecimento da população. Tudo isso nos coloca desafios no longo prazo. No estrato de renda mais alto da população (ao dividirmos em 3 estratos), hoje a elasticidade-renda para lácteos é quase zero, isto é, o aumento da renda gera um terço do consumo que gerava há 10-12 anos. Sobre a competitividade com os kiwis, não tenho tanta certeza assim. Eles têm seus problemas, o custo da terra é muito alto, há atividades concorrentes e a agenda ambiental pega firme por lá, inclusive a questão de contaminação do lençol freático com fertilizantes. Acho possível sermos competitivos com eles (sem considerar momentos pontuais fruto do câmbio), mas concordo que vai um tempo ainda e tem lição de casa a fazer.
FERNANDO H GARCIA

ITAPETININGA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/11/2021

Sou técnico e trabalho no setor, principalmente em propriedades pequenas familiares. Minha visão é que essa transformação é fruto de profissionalização do setor, onde ou vc melhora e cresce ou acaba sendo empurrado pra fora por diversos fatores, como custos diretos, logística, renda, e por aí vai. E o momento atual vai acelerar muito esse processo.
Meu nome é Fernando Henrique Garcia, Itapetininga SP
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Com certeza Fernando. Há propriedades familiares que estão conseguindo fazer a transição, ainda que muitas infelizmente não. Mas é possível obter resultados que permitam ter um negócio rentável. Veja o caso do RS, com metade das propriedades que tinha há 6 anos, mas com a mesma produção total, e majoritariamente baseada na pecuária familiar.
JACQUES GONTIJO ÁLVARES

BOM DESPACHO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2021

Entendo que os produtores aprenderam que existem 2 fatores que precisam
Estar presentes na atividade:produtividade e escala
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Com certeza Jacques, essa mudança de mindset está ocorrendo e é responsável pela transformação. Diria também que há um conhecimento maior, um domínio da tecnologia maior, e a necessidade de se ter maior previsibilidade no desempenho.
ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2021

Muito bacana a abordagem Marcelo!

Contra fatos, não há argumentos!

A pergunta que não tem resposta é:
- Para onde esta "transformação" está levando o setor?
Só lembrando que, de quase todas as cadeias produtivas do agro, o leite está sempre em evidência como importadora.
Esse também é um fato. E como todo fato, tem um ou mais motivos.
Creio que precisamos entendê-lo melhor para termos avanços duradouros.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Obrigado André,

Ótimos pontos, impossíveis de responder profundamente nesse comentário! O primeiro aspecto é que teremos uma curva de produção de leite diferente. Em alguns anos, a produção da chamada entressafra será igual ao da safra, e depois maior. Segundo, teremos menos flexibilidade em relação a custos, mas por outro lado maior chance de ter retornos significativos por área. Terceiro, com a maior uniformização dos sistemas, a pesquisa vai levar a uma melhoria de eficiência, o que se traduzirá em redução de custos. Quarto, o aumento do volume reduzirá os custos de coleta de leite. Quinto, o aumento do volume médio reduzirá os bônus atuais por volume de leite. Tudo isso, aliado ao enfrentamento do Custo Brasil, pode nos fazer competitivos mundialmente.
MAURO WELLINGTON G PEREIRA

OURO FINO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2021

Marcelo, parabéns pela análise e clareza do artigo. Do ponto de vista produtivo, percebo que é a mudança na forma de produção de leite é boa pois temos um produto melhor, produzido em grande escala com processos seguros tanto para o animal quanto para o funcionário. Já do ponto de vista social, "corta o coração" ver famílias tradicionais saindo da atividade. O que você pensa sobre o cooperativismo? Considerando que o princípio da cooperativa é a junção de forças de muitos pequenos produtores que se comportam como um grande. É uma forma de produção que atende tanto o mercado quanto o pequeno produtor?
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Mauro, obrigado pelo comentário. Em grande parte do mundo, o leite é baseado nas cooperativas. Aqui no Brasil, temos os casos de sucesso, sendo destaque hoje as cooperativas do Sul do país. O que temos de lembrar é que a cooperativa está em um mercado competititivo, competindo com multinacionais e outras empresas ágeis. Ela não pode sobreviver se ficar por exemplo com o ônus de ter um leite caro na coleta, de má qualidade, etc, ou se não tiver uma gestão alinhada aos objetivos do negócio, que muitas vezes no curto prazo competem com os interesses do produtor. Esse é o grande desafio, e não é fácil resolver.
EM RESPOSTA A MARCELO PEREIRA DE CARVALHO
MAURO WELLINGTON G PEREIRA

OURO FINO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/11/2021

Marcelo, obrigado pela atenção em responder ao meu questionamento. Abraço.
WALDEMIRO PIMENTEL ATAÍDE

BARREIRAS - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2021

A mudança : a pesquisa vem mostrando modelos de produção que agrega um incremento na produtividade e o número de jovens com a cabeça voltada prá esses modelos. Não precisa de fazendas grandes e nem quantidade grande de vacas. E sim incremento na produção de forragem e qualidade, investido na tecnologia de solo por hectare e animais com genética que responde essa tecnologia. E isso os técnicos tem feito um papel muito importante.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Exato Waldemiro, acho que um aspecto fundamental que tem ocorrido é que a tecnologia de produção está cada vez mais dominada, gerando previsibilidade de desempenho. Claro que ainda há enorme heterogeneidade, mas o fato é que cada vez mais há produtores e técnicos que entendem os fundamentos dos sistemas de produção e aplicam conhecimento que dá resultado.
MÁRCIO F. TEIXEIRA

ITAPURANGA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2021

Prezado Marcelo, com toda certeza os indicadores estão mudando. Porém, na minha opinião, a produção de leite no Brasil continua a exterminar um número gigante de famílias, na maioria de pequenos produtores que poderia evoluir e não desaparecer. Não podemos fechar os olhos para as condições que (ainda) são imposta para quem deseja produzir leite aqui. Leite informal de quem é produtor de gado de corte, e que são fornecedores de leite sazonal e de péssima qualidade, recebimento do leite entregue com pagamento com 60 dias, fazendo com que os produtores façam capital de giro para os laticínios, falta de assistência crônica e assistência técnica, custos de produção absurdos, são apenas alguns dos desafios que nós produtores enfrentamos todos os dias durante 365 dias de trabalho. Infelizmente ainda continuam a não reconhecer a situação em que trabalhos. O desânimo é enorme, pois conseguir permanecer na atividade continua ser um desafio quase sobrehumano.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 10/11/2021

Olá Márcio, concordo com você. É preciso dar as condições para que esses produtores pequenos, com vontade e aptidão, permaneçam na atividade. É preciso também formar sucessores que talvez tenham mais condições de tocar o negócio para frente, de uma outra maneira. Não há dúvida de que muitos sairão, até porque dependendo do volume, é insustentável, mas isso não quer dizer que não se deva buscar meios para resgatar quem possa ser resgatado, dando novas oportunidades. Por isso, o trabalho das Federações da Agricultura, Senar, Sebrae, Emater e suas simulares, são muito importantes.
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