Associação entre o período de serviço e seco na produtividade e na eficiência reprodutiva

Estudos mostram que períodos secos muito curtos ou longos aumentam o risco de descarte. O ideal está no equilíbrio entre manejo reprodutivo e nutricional. Saiba Mais!

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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Em fazendas de leite convencionais, os produtores geralmente buscam intervalo de parto de 12 a 14 meses, para maximizar a produção de leite. Alguns estudos identificaram associações fortes entre período de serviço mais longos e maior produção de leite (Weller et al., 1985; Funk et al. 1987; Edvardsson Rasmussen et al., 2023).

No entanto, deve-se ter cautela na interpretação desses resultados, a associação nem sempre pode ser definida como causa. Fazendas de leite geralmente permitem que vacas de maior produção tenham mais oportunidades de serem inseminadas. Vacas que permanecem no rebanho após período de serviço prolongados podem ou não ter persistência de lactação aumentada, além de uma maior produção de pico de leite. Uma parte dessa persistência lactação aumentada, é provavelmente o resultado de viés de seleção. Ou seja, vacas com menor persistência são mais propensas a serem descartadas. 

Todavia, adiar a inseminação pós-parto pode ter uma influência positiva na persistência da lactação por atrasar o efeito negativo da gestação na produção de leite devido a mudança na alocação de nutrientes, especialmente no último trimestre de gestação (Roche, 2003; Brotherstone et al., 2004; Chen et al., 2024). Porém é importante destacar que o efeito da gestação sobre a produção é relevante apenas para último mês da lactação, uma vez que a maioria das vacas tem aproximadamente 2 meses de período secos. 

Consequentemente, muitos questionam a intensão de manter intervalos de parto curtos, o que aumenta as vezes que a vaca passa pelo período de periparto, que é considerado um período de alto risco para a vaca, com grandes chances de incidências de problemas, e sugerem que adiar a reprodução das vacas pode aumentar a rentabilidade, diluindo a proporção de tempo não produtivo da vida adulta da vaca e potencialmente reduzindo o número de períodos de transição que vaca tem durante a vida produtiva (Arbel et al., 2001; Sehested et al., 2019; Rasmussen et al., 2023; van Knegsel e Kok, 2024).

 

Vantagens e desvantagens da extensão das lactações

Lactações prolongadas têm potenciais vantagens e desvantagens, e a magnitude dos efeitos positivos ou negativos pode variar de acordo com o rebanho, a raça e o tipo de manejo (Arbel et al., 2001; Lehmann et al., 2019; Niozas et al., 2019a,b, Sehested et al., 2019; Edvardsson Rasmussen et al., 2023).

Os defensores da extensão da lactação apontam que o tempo extra antes da inseminação pode:

  • Permitir que as vacas tenham mais oportunidade de retomar a ciclicidade antes da primeira IA,
     
  • Diluir tempo não produtivo (dias secos) em relação os dias totais em lactação,
     
  • Reduzir a frequência dos riscos de doenças associadas ao período periparto,
     
  • Reduzir a produção de leite no momento da secagem que pode resultar em menor risco de novas infecções intramamárias,
     
  • Aumentar o tempo para as que as vacas reponham a condição corporal ao longo da lactação
    (Arbel et al., 2001; Sehested et al., 2019; van Knegsel et al., 2024; van Knegsel e Kok, 2024).

No entanto, lactações prolongadas também estão associadas a problemas como:

  • Menos leite por dia de vida adulta,
     
  • Maior risco de necessidade de secar vacas mais cedo devido à queda na produção de leite,
     
  • Aumento das chances de acúmulo excessivo de condição corporal, o que pode resultar em maior risco de problemas metabólicos,
     
  • Desempenho reprodutivo prejudicado,
     
  • Descarte prematuro na lactação subsequente

(Roche et al., 2009; Bedere et al., 2018; Fricke et al., 2022).

 

Estratégias de manejo que mantêm alta produção em lactações tradicionais

Muitos dos supostos benefícios de prolongar a lactação podem ser mitigados por meio de alimentação, alojamento, nutrição e manejo geral aprimorados, mantendo alta produção associada a intervalos tradicionais de parto. Por exemplo, colocar vacas de alta produção em uma dieta com baixa densidade energética uma semana antes da secagem pode reduzir a produção de leite na secagem, ao mesmo tempo em que preserva os benefícios de lactações com duração tradicional e maior produção por dia de vida útil da vaca.

 

Impactos do período seco prolongado na fertilidade e no risco de descarte

Uma área do gerenciamento do manejo que pode ser afetada indiretamente pela extensão dos intervalos de parto é a duração do período seco. A maior parte das pesquisas apoia uma duração do período seco (Pseco) de aproximadamente 45 a 70 dias como o ideal para os efeitos futuros na produção de leite, reprodução e risco de descarte (Kuhn et al., 2006a, b; Olagaray et al., 2020; Guadagnini et al., 2023). No entanto, inevitavelmente, algumas vacas ficam gestante, mas têm uma queda de produção para níveis menos lucrativos e são secas prematuramente em relação, especialmente quando a concepção ocorreu mais tarde (período de serviço foi prolongado). Vacas que ficam mais tempo seca do que o normal (ou seja, mais de 70 dias) têm um risco significativamente maior de descarte no início da lactação e fertilidade subsequente reduzida (Pattamanont et al., 2021; Guadagnini et al., 2023).

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Um fator que não foi investigado em profundidade é a potencial interação entre a duração do período de serviço e seco em uma lactação e seus efeitos na produtividade na lactação subsequente. As vacas com período de lactação mais longo provavelmente secam com condição corporal extra em relação a suas companheiras de rebanho. As consequências do excesso de condição corporal podem ser adicionalmente influenciadas pela duração do período seco. 

 

Associação entre período de serviço, período seco e desempenho na lactação seguinte

Um estudo retrospectivo e observacional foi utilizado para investigar a associação entre a duração período de serviço e do período seco com a taxa de descarte das vacas, produção e desempenho reprodutivo até 90 dias da lactação subsequente.

Dados de 60 rebanhos de vacas da raça Holandesas dos EUA, manejados intensivamente e com parto distribuídos ao longo de todo o ano, foram coletados. Um subconjunto destes dados com animais testados genomicamente, incluindo o índice de lucro de bem-estar (DWP$) foi analisado separadamente.

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Dados de 109.374 vacas compuseram o conjunto de dados maior (Todas as vacas), e 37.680 vacas compuseram o subconjunto de vacas com avaliação gênomica (VacasGen). A média do período de serviço na lactação anterior (PSANT) foi de 114 dias, e a média da duração do período seco (PSecoANT) foi de 58 dias.

As análises foram realizadas até 90 dias da lactação (90 DEL) subsequente e incluíram:

  • Taxa de descarte,
     
  • Produção acumulada de leite (PROACU90)
     
  • Porcentagem de vacas gestantes.

A taxa de descarte e de gestantes foi analisada usando regressão logística multivariada. A produção de leite foi analisada usando um modelo linear misto. As variáveis explicativas contínuas incluíram:

  1. Produção de leite corrigida para 305 dias na lactação anterior (P305),
     
  2. Leite na semana 36 (SEM36),
     
  3. PSANT,
     
  4. PSecoANT
     
  5. DWP$ (apenas VacasGen).

As variáveis categóricas incluíam:

  1. Grupo de paridade anterior (PAR 1, 2 ou 3+),
     
  2. Tipo de parto (fêmea, macho ou gêmeos)
     
  3. Número de eventos de mastite clínica (NMAST) ou de claudicação clínica (NCLAU) registrados na lactação anterior. (Ambas as doenças foram classificadas com base no número de casos registrados (0, 1 ou 2+ casos). Interações importantes de 2 vias também foram consideradas. )

Aumentos do PSANT foram associados a maiores chances de descarte, enquanto o efeito de PsecoANT variou de maneira curvilinear, com o PsecoANT mais curto e mais longo associados à maior probabilidade de descarte. A probabilidade de descarte aumentou com o aumento da PAR e com maior número de casos de mastite ou claudicação registrados. 

O tipo do parto foi significativo. Parto gemelar foi associado a maior risco de descarte do que vacas com parto de macho. Vacas com parto de fêmea tiveram o menor risco de descarte em comparação a parto de macho ou gemelar. A P305 mais alta foi associada a menor probabilidade de descarte. Aumento no valor de DWP$ foi associado a reduzida probabilidades de descarte. A P305 mais alta foi associada a maior PROACU90. Tanto NMAST quanto parto gemelar foi associado a menor PROACU90. O DWP$ mais alto foi associado a maior PROACU90. 

Menores PSANT e PsecoANT foram associados ao maior risco de gestação, mas a magnitude do efeito negativo do PSANT aumentou à medida que a PAR aumentou. Aumento da P305 teve uma pequena associação estatística negativa com o risco de gestação, o que é biologicamente insignificante.

Parto gemelar, NMAST e NCLAU tiveram grandes efeitos negativos nas chances de gestação aos 90 DEL. Enquanto isso, aumento do DWP$ foi associado a maior chance de gestação aos 90 DEL.

 

Conclusão

Apesar das diferenças significativas entre os grupos de paridade, a conclusão geral é que as vacas devem ser manejadas para conceber mais cedo, e então passar por um período seco tradicional (aproximadamente 60 dias) para melhorar a probabilidade de alto desempenho produtivo e reprodutivo na lactação subsequente, além de reduzir o risco de descarte prematuro.

Este texto é parte do artigo: Associations between days open and dry period length versus milk production, replacement, and fertility in the subsequent lactation in Holstein dairy cows. Publicado Journal of Dairy Science (DOI: 10.3168/jds.2024-26055).

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Material escrito por:

Ricarda Maria dos Santos

Ricarda Maria dos Santos

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

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