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Anestro em vacas leiteiras holandesas

Por Anderson Kloster Munhoz, Luisa Cunha Carneiro e Ricarda Maria dos Santos

O baixo desempenho reprodutivo em rebanhos leiteiros, principalmente nos de alta produção tem sido tratado como um desafio global, sendo caracterizado de maneira multifatorial (LEROY et al., 2009a). Cientistas de todo o mundo têm relatado há várias décadas a redução na fertilidade de vacas leiteiras de alta produção, provavelmente resultante do conflito entre as necessidades metabólicas e reprodutivas.

A baixa eficiência reprodutiva tem diversas e numerosas causas, como falhas de manejo reprodutivo, estresse térmico, deficiências nutricionais, doenças infecciosas, incompetência uterina/placentária, qualidade insatisfatória do gameta e do embrião durante a pré- implantação, função ovariana anormal, anovulação, anestro comportamental entre outras (GROOMS, 2010; LUCY, 2011).

Do ponto de vista biológico, os mamíferos favorecem a lactação na fase inicial ao invés da fertilidade, o que se dá o nome de priorização de nutrientes. À medida que há escassez de disponibilidade de nutrientes, a fêmea em lactação investe preferencialmente estes recursos limitados na sobrevida de sua progênie, ao invés de apostar em um ovócito que ainda nem foi ovulado ou fertilizado e necessitará de cuidados durante toda a gestação. Este mecanismo de catabolismo materno, geneticamente programado, deve maximizar a probabilidade de sobrevida do recém-nascido. As necessidades de nutrientes do útero grávido em fase final de gestação fazem com que a vaca leiteira entre em estresse catabólico. Depois do parto, ocorre uma demanda adicional por glicose, ácidos graxos e proteína quando se inicia a produção de leite. Durante este período de transição, as vacas são incapazes de compensar este aumento da demanda por energia através do aumento do consumo de ração e ocorre balanço energético negativo (BEN) (LEROY et al., 2009a).

Toda vaca recém-parida passa por um período o qual ela se torna anovular, ou seja, momento o qual ela para de apresentar ovulações em períodos regulares. Porém, em algumas vacas isso pode se estender durante os três primeiros meses de lacta��ão, ou até mesmo se estender até a metade do período de lactação como no caso de vacas que apresentam cistos foliculares (SANTOS, 2011).

O atraso na atividade cíclica pode acarretar em perdas com relação ao desempenho reprodutivo, já que as vacas não apresentam cio, quando inseminadas têm uma baixa probabilidade de se tornarem gestantes, e quando gestantes, o risco de perda de prenhez é aumentado (SANTOS, 2011).

O objetivo deste trabalho foi avaliar a condição ovariana de vacas leiterias Holandesas no final do período voluntário de espera e classificá-las em categorias de acordo com o diâmetro folicular e a presença de corpo lúteo.

O experimento foi conduzido em uma fazenda comercial, localizada no município de Uberlândia, MG, durante o período de setembro a novembro de 2011. O rebanho é composto por 450 vacas mestiças em lactação, ordenhadas duas vezes ao dia e alimentadas com ração devidamente balanceada, a base de silagem de milho, com produção média de 18,75 kg de leite /dia.

Foram utilizadas 168 vacas lactantes que se encontravam no pós-parto com bom estado de saúde. Controle profilático de combate a ecto e endoparasitas e controle de vacinação de acordo com as normas de sanidade animal.

O manejo reprodutivo da Fazenda ABC foi realizado a cada 21 dias, nas vacas acima de 30 dias pós-parto, quando foi realizado exame com aparelho de ultrassonografia equipado com transdutor retal linear de 7,5-MHz (DP-3300vet Mindray®), no qual foram avaliadas as características dos ovários das vacas: presença de corpo lúteo (CL) e diâmetro do maior folículo nas vacas sem CL, para determinação da incidência de anestro pós-parto.

A condição ovariana foi classificada em quatro categorias: Categoria 1: ovário com presença de folículos pequenos (até 10 mm); Categoria 2: ovário com folículos médios (10 a 18 mm); Categoria 3: ovário com folículos grandes ( acima de 20 mm); e Categoria 4: ovário com presença de corpo lúteo.

No momento da avaliação ovariana também foi feita a avaliação de escore de condição corporal (escala de 1 - muito magra a 5 - obesa; FERGUSON et al., 1994). Para a análise final os animais foram divididos em duas categorias de ECC: menor ou igual a 2,5 e o de animais que apresentavam escore de condição corporal superior a 2,75.

Para a análise os animais também foram divididos em duas categorias de dias pós-parto: entre 30 - 60 DPP e o de animais que se encontravam entre 61 - 90 DPP.

A incidência de anestro pós-parto foi avaliada por regressão logística, por meio do programa LOGISTIC, incluindo-se no modelo os efeitos de escore de condição corporal e DPP.

Dos 168 animais avaliados entre 30 e 90 dias pós-parto, não foi detectado efeito do ECC e DPP na classificação ovariana (Tabela 1). Foram encontradas 115 vacas (68,45%) com CL, 34 (20,24%) com folículos médios; 15 (8,93%) com folículos pequenos e 4 (2,38%) com folículos grandes. O que está de acordo com o encontrado por Wiltbank (2002), que relatou uma incidência baixa (3 animais em mais de 1000 vacas examinadas) de vacas com folículos pequenos.

TABELA 1 - Classificação ovariana de acordo com o escore de condição corporal e número de dias pós- parto em vacas leiteiras Holandesas.



A alta porcentagem de vacas com CL e com folículo médio (Tabela 1) mostrou que provavelmente os animais já estavam saindo do BEN pós-parto e voltando a ciclar, o que também foi relatado por Santos et. al. (2009), em seus trabalhos com vacas Holandesas, que encontraram 74,5% das vacas ciclando até 90 dias pós-parto.

A incidência de vacas com folículos grandes, que poderiam ser considerados cistos foliculares foi baixa (Tabela 1), mostrando que isto não foi um problema no rebanho estudado. Santos et. al (2009) encontraram em seus estudos 9,3 % de vacas com cisto ovariano em um total de 333 animais avaliados; e observaram que a porcentagem de vacas com cistos foi maior nos meses de abril a julho, provavelmente devido ao fato de as vacas que apresentaram cistos terem parido nos meses mais quentes do ano, quando os problemas relacionados ao parto e o estresse são mais altos.

Não foi detectado efeito dos DPP na porcentagem de vacas ciclando (presença de CL), porém foi detectada uma tendência (P = 0,074) dos animais com melhor condição corporal apresentarem maior taxa de ciclicidade (Tabela 2). Estes resultados estão de acordo com Santos et. al (2004) que compararam o retorno de ciclicidade pós - parto em vacas Holandesas, cruzadas (Gir/Holandes) e Nelores; e observaram que quanto maior o ECC das vacas no pós- parto, maior era a taxa de ciclicidade das mesmas.


Tabela 2 - Porcentagem de animais ciclando de acordo com dias pós-parto e presença de corpo lúteo.



O escore de condição corporal e os dias pós-parto não interferiram na classificação ovariana das vacas holandesas entre 30 e 90 DPP. Os dias pós-parto não afetaram a porcentagem de vacas ciclando, porém houve tendência dos animais com melhor condição corporal apresentarem maior taxa de ciclicidade.

Este texto é parte do trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia, pelo aluno Anderson Kloster Munhoz.

REFERÊNCIAS
ADAMS, G. P.; MATTERI, R. L.; KASTELIC, J. P.; KO, J. C. H.; GINTER, O. J. Association between surges of follicle-stimulating hormone and emergence of follicular waves in heifers. Journal of Reproduction & Fertility, Cambridge, v. 94, p. 177-188, 1992.

BALL, P. J. H., McEWAN, E. E. A. The incidence of prolonged luteal function following early resumption of ovarian activity in postpartum dairy cows. Proceedings British Society Animal Science ,v. 187 abstract, 1998.

BULMAN, D. C., WOOD, P. D. P. Abnormal patterns of ovarian activity in dairy cowns and their relationships with reproductive performance. Animal Production, v. 30, p. 177-188, 1980.

BUTLER, W. R. Nutritional interactions with reproductive performance in dairy catle. Animal Reproduction Science, v. 60-61, p. 449-45, 2000.

GINTHER, O. J. Utero-ovarian relationship in cattle: Applied veterinary aspects. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 153, p. 1665-1671, 1968.

GONZÁLEZ, F. H. D. Introdução a Endocrinologia Reprodutiva Veterinária. Porto Alegre, [s.n] 2002. Disponível em: https://www6.ufrgs.br/bioquimica/posgrad/endocrino/endocrinolvet.pdf. Acessado em: 02 de julho de 2011.

GROOMS, D. L. Programas para controle de doenças infecciosas e melhoria do desempenho reprodutivo. In: XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, 2010. Uberlândia. Anais... Uberlândia, 2010.

KULICK, L. J., KOT, K., WILTBANK, M. C., GINTHER, O. J. Folicular and hormonal dynamics during the first follicular wave in heifers. Theriogenology, v. 52, p. 913-921, 1999.

LAMMING, G. E.; DARWASH, A. O. The use of milk progesterone profiles to characterise components of subfertility in milked dairy cowns. Animal Reproduction Science, v. 52, p. 175-190, 1998.

LEROY, J. L. M. R.; OPSOMER, G.; VAN SOON, A.; GOOVAERTS, I. G. F.; BOLS, P. E. J. Fertilidade reduzida em vacas leiteiras de alta produção: risco para o ovócito e para o embrião? Parte I: A importância do balanço energético negativo e da função alterada do corpo lúteo para a perda de qualidade de ovócitos e embriões em vacas leiteiras de alta produção. In: XIII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, 2009, Uberlândia. Anais... Uberlândia, 2009b.

LEROY, J. L. M. R.; VANHOLDER, T.; VAN KNEGSEL, A. T. M.; GARCIA-ISPIERTO, I.; BOLS, P. E. J. Priorização de nutrientes em vacas leiteiras no pós-parto imediato: discrepância entre metabolismo e Fertilidade? In: XIII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, 2009, Uberlândia. Anais... Uberlândia, 2009a.

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WILTBANK, M. C.; GÜMEN, A.; SARTORI, R. Anestro em bovinos: mecanismos e tratamento. In: VI Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, 2002, Uberlândia. Anais... Uberlândia, 2002.

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NILTON SANTOS FERREIRA NILTINHO

SILVEIRAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/08/2019

Bom gostei nota 10 na explicação
VALENTIM DA SILVA

VERA CRUZ - ESTUDANTE

EM 10/09/2015

Gostei é bem explicado
RITA DE CASSIA ARAUJO BARRA

RIO POMBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/04/2015

vacas com cisto de ovario,  vacas com ovarios pequenos .li  o comentario  o grafico. ENTENDI COMO PREVENIR , uma vez instalado o probelma   Qual  o procedimento alem do manejo  alimentação  REMEDIO  vitaminas  ,  hormônios?


RICARDO SOARES COELHO

CASCAVEL - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/07/2013

Quais são as possíveis causas de anestro (ovários pequenos e sem folículos ou CL) em vacas com alto ECC? quais seriam as opções de tratamento mais eficientes?
MilkPoint AgriPoint