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Fake news sobre lácteos: como combater?

POR LAURA FERNANDES MELO CABRAL

GESTÃO E TENDÊNCIAS DE MERCADO

EM 19/04/2021

7 MIN DE LEITURA

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Há algum tempo, o setor lácteo saboreia o gosto amargo das tão atuais fake news. Como resultado deste processo, observa-se que muitas pessoas, antes consumidoras de lácteos, estão deixando de consumi-los, porque “ouviram falar” que o leite e, por consequência, os derivados fazem mal à saúde.

Além dessa inverdade, propaga-se que o “leite engorda”, “leite causa dores abdominais em função de má digestão”, “quem bebe leite é bezerro e, por isso não há necessidade de tomar leite depois da infância”, entre outros muitos absurdos.

A meu ver, o problema não é o número e a variedade de fake news disseminadas sobre os produtos lácteos, mas a forma como o setor enfrenta essa situação.

Todas as inverdades citadas podem ser refutadas com dados de artigos científicos que passaram pelo crivo de pesquisadores da área, no mundo todo. O problema é que esses dados não são acessíveis para a maioria da população leiga.

Além disso, muitas das vezes os informantes das notícias falsas são pessoas tidas como sérias, com credibilidade, como médicos, nutricionistas, entre outros profissionais da área de saúde e pessoas públicas que atuam como digital influencers.

Aqui, é preciso fazer um parêntese e deixar claro que existem pessoas que sentem algum desconforto quando ingerem leite, sendo intolerantes à lactose. Porém, além da necessidade de um diagnóstico médico, mediante exames específicos, esse percentual é pequeno quando comparado ao número de pessoas que deixaram de consumir o produto, contaminadas pelas fake news.

Há ainda as pessoas que possuem alergia à proteína do leite (APVL) que também devem ser identificadas por exames específicos. Aquelas pessoas, comprovadamente intolerantes à lactose, têm no mercado um leque considerável de produtos sem lactose para continuarem a ter os benefícios dos produtos lácteos. Basta que elas sejam orientadas por um bom profissional com entendimento suficiente sobre o tema. Já as pessoas com APVL não devem consumir produtos lácteos.

Então, como o setor lácteo pode agir para "fazer frente" às chamadas fake news e impedir que mais consumidores deixem de consumir leite e derivados sem motivo? Na minha opinião, a resposta está na união do setor, apontada por especialistas como resposta para tantos outros problemas enfrentados e que, neste caso, é a única solução.

É necessário unir forças para enfrentar esse inimigo comum que afeta produtores, indústria e varejo e, caso isso não seja feito, corre-se o risco de ter cada vez menos consumidores na ponta da cadeia.

Isso trará consequências para todos os elos da cadeia produtiva e, de forma mais intensa, afetará produtores e indústrias de laticínios, já que o varejo não encontrará problemas em um curto/médio prazo para substituir os produtos lácteos em suas gôndolas.

Essa união do setor, que para muitos pode ser utópica, é a única saída para reforçar a imagem e os benefícios dos produtos lácteos perante os consumidores. Cabe aos profissionais virarem protagonistas  e levarem o conhecimento científico sobre a importância dos lácteos de uma forma mais leve e acessível aos consumidores.

Quem trabalha com marketing ou na área de pesquisa e desenvolvimento está acostumado à ideia dos 4 P´s:  produto, preço, praça e promoção. Uma explicação bem rápida e simples sobre isso se faz necessária:

  • Produto: conjunto de atributos tangíveis e intangíveis que são entregues aos consumidores para satisfação de um desejo ou uma necessidade;
  • Preço: o que se cobra para entregar o produto ao consumidor;
  • Praça: canal utilizado para distribuir o produto;
  • Promoção: conjunto de ferramentas de vendas utilizado para promover a demanda.

Se pararmos para pensar sobre isso, acredito que não temos problemas com os 3 primeiros P´s. Temos produtos com características diferentes, que atendem, no geral, às demandas dos diversos tipos de consumidores, a preços que variam conforme o público-alvo de cada categoria e que são distribuídos em diversos locais.

Contudo, em relação à promoção, temos iniciativas isoladas de indústrias que promovem o consumo de seus próprios produtos, cada uma usando a quantidade de recursos disponíveis para fazer o seu melhor.

Porém, esse “melhor”, feito de forma isolada e sem um propósito comum, não está conseguindo "fazer frente" às notícias falsas sobre os lácteos, disseminadas diariamente, seja por algum digital influencer novo, que quer aumentar o número de seguidores em suas redes sociais, ou por algum profissional de saúde, que vê na “abolição dos lácteos da dieta” a tábua de salvação para os problemas relatados em seus consultórios.

Na minha visão, o setor precisa enxergar a necessidade de promover o consumo de produtos lácteos, em geral. Buscar formas de levar informações verídicas sobre os produtos a quem de fato interessa, ou seja, seus consumidores. Para “minar” as notícias falsas, nada melhor que promover a compreensão do consumidor sobre os reais benefícios dos produtos lácteos, desmistificando as inverdades com conhecimento científico.

Não tenho a receita contendo todos os ingredientes e passos de como fazer isso, pois, sei que estratégias promocionais envolvem recursos financeiros que colocam algumas indústrias e produtores em situação vantajosa perante os demais. Mas, tenho ideias para se consiga fazer isso.

Neste contexto, acredito que o primeiro passo seja fazer uma parceria com os pesquisadores da área de lácteos no intuito de coletar material científico que poderia embasar as campanhas promocionais para esclarecimento do consumidor leigo sobre vários mitos que passam uma imagem equivocada dos produtos lácteos.

A partir daí, a ideia passa pela junção de todas as entidades envolvidas com o desenvolvimento do setor lácteo em prol do mesmo objetivo: levar informações verdadeiras aos consumidores para desmistificar as fake news, que tanto prejudicam o setor.

Acredito na viabilidade dessa junção pelo fato dessas associações já estarem constituídas a algum tempo, terem presença em eventos, inserção no mercado e na academia e terem apoio de seus associados.

Sei que várias delas já fazem esse papel isolado, mas para ter acesso à informação gerada e aos eventos realizados por elas, o consumidor tem que “ir atrás”, o que não lhe é conveniente, já que as notícias falsas chegam pelos mais variados caminhos, sem que seja necessário nenhum esforço por parte dele.

A partir da ação conjunta poderiam ser analisados quais os rumos que uma campanha promocional focada no consumo de produtos lácteos deveria ter. Poderiam ser traçadas, por exemplo, estratégias promocionais que utilizariam as próprias embalagens dos produtos, por meio da tecnologia de QR Code que permitiria ao consumidor acessar a informação sobre os benefícios dos produtos lácteos.

Logicamente, antes deveriam ser analisadas as legislações pertinentes. Além disso, a união das associações permitiria campanhas mais agressivas nas grandes mídias, utilizando-se do alcance desses canais para promover o consumo de lácteos, em geral.

Outra alternativa seria utilizar figuras públicas, que sejam representativas de um estilo de vida saudável, para serem propulsoras do consumo de lácteos. Em tempos de pandemia, em que observamos o auge da utilização das redes sociais, utilizá-las com o objetivo de disseminar notícias verdadeiras sobre lácteos poderia gerar um ganho, que poderia ser sentido no futuro, quando essa situação caótica passar.

Caso o setor não consiga fazer esse movimento em prol da promoção do consumo de lácteos não vejo um futuro promissor,  uma vez que muitas crianças e adolescentes já deixam de consumir esses produtos quando possuem a opção de escolher o que vão comer. A continuar dessa forma, teremos num período não tão longínquo, gerações de “não consumidores” de lácteos. O alarmismo não é para chocar e sim para alertar!

A preocupação sobre o futuro do consumo de lácteos vem desde os anos de 2001 a 2003, quando fiz minha dissertação de mestrado com a temática de distribuição de leite na merenda escolar e analisei programas deste tipo no mundo inteiro.

Em vários países desenvolvidos, como os Estados Unidos, o que se via era uma geração de adolescentes e jovens que não consumia lácteos e cada vez mais com problemas de sobrepeso. Em função disso, várias pesquisas eram feitas com o objetivo de analisar os efeitos dos hábitos dessa geração.

Na época, o país possuía programas de distribuição de leite para crianças em idade escolar para reinserção deste tipo de produto na alimentação, em moldes diferentes do que temos aqui — os pais pagavam pelo produto, enquanto havia restrição na venda de guloseimas e refrigerantes pelas lanchonetes e cantinas.

Havia uma preocupação com o envelhecimento dessa população e os problemas que poderiam aparecer em virtude da não ingestão de cálcio em quantidades adequadas na adolescência e as consequências deste hábito na vida adulta, já que uma vez que se corta o alimento da dieta, é muito difícil ele  ser reinserido.

Por aqui, as tentativas nesta área parecem depender das correntes políticas que dominam o poder. Quando fiz a análise, avaliei vários programas feitos por Estados e cada um seguia a sua “própria cartilha”.

Não havia uma diretriz nacional que estabelecesse a adoção do leite na merenda escolar. De certa forma, a ausência de uma política clara nas escolas em adição à postura do setor lácteo contribuíram para que o número de jovens e adultos que simplesmente deixaram de consumir produtos lácteos aumentasse.

Enfim, o assunto é amplo e controverso. Sei que não consegui dar muitas respostas, mas espero que pelo menos tenha conseguido provocar reflexões em todo o setor, já que a política de promoção do consumo de lácteos afeta todos os envolvidos nessa cadeia!

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*Fonte da foto do artigo: Freepik

LAURA FERNANDES MELO CABRAL

Professora do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV

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ALTEGNO DORNELLAS

UNAÍ - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 19/04/2021

Excelente explanação do tema. A verdade é que, somos produtos do meio, nos adaptamos ao longo das gerações para fazer uso dos lácteos como fonte de nutrientes, mesmo após a fase de lactente. É justamente esse "desmame", alimentado pelas fake news, que propicia o surgimento dos "intolerantes e alérgicos funcionais".
MARTHA LIMA

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 19/04/2021

Tenho alergia ao leite,mas tbm gosto dos preparo c leite...o que acham do leite A2A2
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