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Feno para bezerras leiteiras: em que situações e por que fornecer?

POR ARIANY FARIA DE TOLEDO

E CARLA MARIS MACHADO BITTAR

CARLA BITTAR

EM 01/06/2020

8 MIN DE LEITURA

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O desenvolvimento físico e metábolico do rúmen é um fator importante para a transição gradual das bezerras para a fase adulta, o que pode garantir melhor eficiência da utilização dos alimentos sólidos, melhor desempenho e estado geral de saúde dos animais. Essa fase de transição da dieta líquida para dieta sólida condiz com o desenvolvimento da glândulas salivares, início do comportamento de ruminação, alterações fisiológicas intestinais, hepáticas e teciduais do trato gastrointestinal, ou seja, desenvolvimento do trato digestório de forma geral.

Fatores como a natureza dos ingredientes sólidos oferecidos, a quantidade ingerida, o teor de inclusão de carboidratos não-fibrosos e o processamento de grãos e da forragem, afetam os padrões de fermentação nos pré-estômagos, acelerando o desenvolvimento ruminal, induzindo ao estabelecimento precoce do microbioma. Assim, o aumento dos produtos de fermentação ruminal, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), desencadeiam o desenvolvimento do epitélio ruminal, o que proporciona maior área de troca entre o conteúdo do rúmen e a corrente sanguínea. Assim, ele torna-se capaz de fermentar os alimentos sólidos e o epitélio passa a absorvê-los e metabolizá-los, disponibilizando-os como fonte de energia para a bezerra.

Os alimentos sólidos, quando fornecidos desde os primeiros dias de vida, podem afetar de forma positiva o desenvolvimento ruminal de várias formas: 1) induzindo o estabelecimento precoce de um ecossistema microbiano; 2) aumentando os produtos de fermentação ruminal, isto é, os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC); e 3) desencadeando o desenvolvimento do epitélio ruminal, através de papilas saudáveis.

O alimento sólido, seja concentrado, feno ou ambos, proporciona alterações no rúmen-retículo e omaso. O consumo de alimentos concentrados, com alto teor de carboidratos não-fibrosos e proteína, promove maior produção total de AGCC, sendo indispensável seu fornecimento desde os primeiros dias de vida. Nas primeiras semanas, considerando que o consumo de matéria seca ainda é baixo, a maior eficiência fermentativa dos concentrados é um ponto favorável para produção de AGCC, e consequente estímulo do epitélio ruminal. Assim, fornecer concentrado desde os primeiros dias de vida tem grande impacto no início de seu consumo e consequentemente no desenvolvimento ruminal. Lembrando que este processo é indispensável para o adequado desaleitamento dos animais, garantindo a manutenção do desempenho animal.

Levando em consideração que o animal na fase de aleitamento não possui o trato gastrointestinal completamente desenvolvido, a composição do concentrado deve possuir ingredientes de alta digestibilidade. Davis e Drackley (1998), sugerem que os concentrados devem apresentar teores de proteína bruta (PB) em torno de 20 a 22%, 80% de nutrientes digestíveis totais (NDT), fibra em detergente neutro (FDN) entre 15 e 25% e fibra insolúvel em detergente ácido (FDA) entre 6 e 20%. A recomendação de amplas faixas de teores de FDN e FDA, deve assegurar dois papeis fundamentais para os teores de fibra nos concentrados. Os limites mínimos têm como principal objetivo garantir a saúde do epitélio ruminal, através do estímulo físico, ruminação e salivação, tamponando o pH ruminal; enquanto que os limites máximos garantem a inclusão de ingredientes de alta digestibilidade no concentrado de animais com o rúmen ainda em desenvolvimento. Com esses teores adequados, não há necessidade de se fornecer feno ou outro volumoso. Na realidade, quando o fornecimento é feito, muitos bezerros substituem o consumo de concentrado (alta energia e proteína) pelo consumo do volumoso (baixa energia e proteína), reduzindo suas taxas de crescimento.

O problema é que, com objetivo de aumentar o nível de carboidratos não-fibrosos nas dietas para favorecer o desenvolvimento ruminal e o desempenho dos bezerros, é comum encontrar concentrados para bezerros com baixos teores de fibra, o que leva a efeitos negativos, como baixos níveis de pH ruminal e distúrbios metabólicos. Esses problemas reduzem ou tornam o consumo de concentrado bastante variável, à medida que o animal passa por períodos de acidose ruminal. Nessas situações, a suplementação de feno pode auxiliar na manutenção de teores seguros de fibra em uma dieta para bezerros jovens, trazendo benefícios como a estabilidade no consumo de concentrado e mantendo as taxas de ganho no período de aleitamento.

O fornecimento de alimentos grosseiros, como os volumosos estimulam o desenvolvimento em termos de volume ruminal. O maior tamanho de partícula da forragem fornece estímulo físico para aumentar a motilidade ruminal, a muscularização, o volume e o peso ruminal em bezerros. No entanto, o consumo de forragem, mesmo sendo de boa qualidade, resulta em menor produção de butirato e propionato, e maior produção de acetato, proporcionando menor estímulo químico para o desenvolvimento papilar. Por outro lado, a ingestão precoce de forragem irá induzir o início mais precoce dos ciclos de ruminação em bezerros, resultando em maior salivação e tamponamento do trato gastrointestinal, o que auxilia na manutenção da saúde ruminal.

Imani et al. (2017), compilaram vários dados em uma meta-análise com base nos trabalhos de inclusão de forragem dos últimos 28 anos e concluíram que a forragem aumentou o pH em 0,3 no período pré-desaleitamento e em 0,5 no pós-desaleitamento dos bezerros. Esses dados mostram que animais habituados ao consumo de forragem terão menores problemas de acidose no período pós-desaleitamento, fase em que se inicia a oferta de forragem em muitos sistemas de produção.

O aumento no pH ruminal com o uso de forragem está associado a vários fatores. Dentre eles se destacam dois pontos: a taxa de fermentação dos alimentos volumosos ser mais lenta, reduzindo a possibilidade de acúmulo de AGCC quando a capacidade absortiva ainda está em desenvolvimento (Khan et al., 2016); e a ingestão de partículas maiores, que estimula salivação e ruminação, melhorando o tamponamento do ambiente ruminal (Nemati et al., 2016). Como mencionado acima, a abrasão na parede ruminal retira o excesso de queratina e células mortas, melhorando a absorção dos AGCC, o que leva ao aumento ou manutenção da faixa ideal de pH (Mirzaei et al., 2016). Outro ponto importante a ser considerado é a diminuição da taxa de passagem gerada pela composição fibrosa do volumoso podendo diminuir o escape de amido proveniente do concentrado, permitindo que esse alimento permaneça mais tempo no rúmen para ser fermentado.

Mojahedi et al. (2018) observaram um aumento no ganho médio diário dos animais que receberam feno ad libitum quando associados à dietas com milho floculado, o que sugere que dietas com maior digestibilidade do amido no rúmen ou grãos extensamente processados requerem a adição de fibra eficaz. A fibra efetiva fornecida pelo feno associada à concentrados com níveis mínimos de FDN e com alta digestibilidade do amido, desde o período aleitamento, pode preparar melhor o animal para o período de desaleitamento, evitando o baixo desempenho durante a fase de transição.

Além disso, o fornecimento de forragem no período de aleitamento pode trazer benefícios adicionais. Poczynek et al. (2019) relataram que a oferta de feno pode ser uma ferramenta para reduzir os efeitos negativos no comportamento de bezerros em aleitamento convencional, como a mamada não nutritiva e sinais de fome, atribuindo a diminuição desses comportamentos ao maior tempo dedicado a ingestão de alimentos e a ruminação.

Todavia, efeitos negativos foram observados quando os bezerros são alimentados, durante o período de aleitamento, com forragens de alta qualidade de forma ad libitum, como o feno de alfafa picada (17% PB e 47% FDN), com consumo de forragem de até 14% da ingestão total da matéria seca. A alta palatabilidade dessa forragem, pode diminuir a ingestão de concentrado, relatando efeitos de substituição, devido à baixa capacidade de ingestão apresentada durante esta fase (Castells et al., 2013).

A literatura mostra que as mudanças no consumo de concentrado em função do fornecimento de forragem estão ligadas às fontes de forragem utilizadas e os métodos de oferta. Assim, a forragem tem potencial de afetar a ingestão de concentrado e o desempenho, mas os efeitos são dependentes da fonte, nível, método de fornecimento e da forma física da ração inicial.

Nesse sentido, recomenda-se o fornecimento de feno, como parte da dieta total e não à vontade, associados à concentrados que fermentam rapidamente, com teores mínimos de FDN e alto processamento do amido. Nesta situação o feno pode auxiliar no controle do pH ruminal, mantendo a saúde do rúmen e consequentemente, estimulando maior consumo da dieta sólida total. Tudo isso vai beneficiar o desenvolvimento do rúmen, tornando o desaleitamento mais fácil e menos estressante para o animal. Estudos recentes, mostraram consumos satisfatórios com inclusão de feno de gramíneas com taxa de 5 à 10 % da matéria seca total. Quando a inclusão de volumoso for maior, a fonte de fibra deve ser de maior qualidade, fazendo parte da dieta total para evitar efeitos de substituição, de forma que o consumo de nutrientes não seja reduzido, o que prejudicaria o desempenho animal assim como o desenvolvimento ruminal.

Referências

Castells, L., Bach, A., Aris, A., Terré, M. 2013. Effects of forage provision to young calves on rumen fermentation and development of the gastrointestinal tract. J. Dairy. Sci. 96:5226-5236.

Davis, C. L., and J. K. Drackley. 1998. The Development, Nutrition, and Management of the Young Calf. Iowa State University Press, Ames.

Imani, M., Mirzaei, M., Baghbanzadeh-Nobari, B., Ghaffaris, M. H. 2017. Effects of forage provision to dairy calves on growth performance and rumen fermentation: A meta-analysis and meta-regression. J.Dairy.Sci. 100:1136-1150.

Khan, M.A., Bach, A., Weary, D. M., von Keyserlingk, M. A. G. 2016. Invited review: Transitioning from milk to solid feed in dairy heifers. J. Dairy. Sci. 99:885-902.

Mirzaei, M., Khorvash, M., Ghorbani, G. R., Kazemi-Bonchenari, M., Riasi, A., Soltani, B., Moshiri, B., Ghaffari, M. H. 2016. Interactions between the physical form of starter (mashed versus textured) and corn silage provision on performance rumen fermentation, and structural growth of Hostein calves. J. Anim. Sci. 94:678-686.

Mojahedi, S., Khorvash, M., Ghorbani, G. R., Ghasemi, E., Mirzaei, M., Hashemzadeh-Cigari, F. 2018. Performance, nutritional behavior, and metabolic responses of calves supplemented with forage depend on starch fermentability. J. Dairy, Sci. 101:7061:7072.

Nemati, M., Amanlou, H., Khorvash, M., Mirzaei, M., Moshiri, B., Ghaffari, M. H. 2016. Effect of different alfalfa hay levels on growth performance, rumen fermentation, and structural growth of Holstein dairy calves. J. Dairy. Sci.94:1141–1148.

Poczyneck, M., Toledo, A. F., Silva, A.P., Silva, M. D., Oliveira, G. B., Coelho, M. G., Virginio Jr, G. F., Polizel, D. M., Costa, J. H. C., Bittar, C. M. M. 2019. Partial corn replacement by soybean hull, or hay supplementation: Effects of increased NDF in diet on performance, metabolism and behavior of pre-weaned calves. Livestock Sci. 231:103858.

*Esse texto é parte da revisão de literatura da dissertação de Ariany Faria de Toledo.

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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EDILSON SILVEIRA BORGES

ESMERALDA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/06/2020

Quais os melhores tipos de fenos aveia azevem alfafa tiffiton ou qualquer um?
É com quantos dias posso ta oferecendo feno a esse animal?