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Criação de bezerras: o que aprendemos nos últimos 10 anos

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

CARLA BITTAR

EM 30/08/2019

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*Palestra apresentada no Interleite Brasil em Agosto de 2019, Uberlândia.

Quanto aprendemos e quem está pesquisando?

É inegável o importante papel do Brasil na geração de conhecimento na área de produção animal. Muito embora tenhamos uma menor competitividade em função de problemas de infraestrutura e recurso financeira para pesquisa, temos aparecido nos rankings mundiais de qualidade das instituições de ensino quando o assunto é agrárias.   

Fazendo uma pesquisa sobre a área de bovinocultura leiteira e, mais especificamente, na área de bezerros leiteiros em plataformas de busca por resultados de pesquisa dos últimos 10 anos, temos como resultado quase 9 mil artigos, revisões e resumos em eventos como produção mundial. Interessante que a produção em 2009 foi de 715 publicações, subindo para 1089 em 2018. Até a realização do Interleite Brasil 2019 (agosto) já havia 551 publicações do ano corrente. Assim, o que podemos afirmar como um grande aprendizado é que a área de criação de bezerros é importante.

E muitas pesquisas mostraram que esta fase é uma grande janela de oportunidade para aumentar o potencial de produção de leite. Quando olhamos para a distribuição de toda esta produção no mundo, temos os EUA em primeiro lugar, seguido do Canadá, Alemanha e Brasil. Assim, somos o 4º. maior em número de publicações na área, com resultados de pesquisa gerados pela UFMG (grupo liderado pela Prof. Sandra Gesteira), USP (grupo da prof. Carla Bittar na ESALQ e da Prof. Viviani Gomes na FMVZ),Embrapa (liderada pela Dra. Mariana Magalhães ) e a UFV (com trabalhos dos Profs. Polyana Rotta e Marcos Marcondes).  

Quem está aprendendo e aplicando?

Todo este conhecimento tem sido transferido de alguma forma para o campo através de ações como cursos, treinamentos, dias de campo, além de todo o trabalho com a formação de novos técnicos e consultores, ou seja, os atuais alunos de cursos de graduação. Ainda, temos grandes equipes de pós-graduação sendo treinadas para geração de mais conhecimento. Assim, a área tem se preocupado também com a sucessão na pesquisa e área técnica. Mas, ainda temos que avançar mais no treinamento de quem está à frente de bezerreiros no dia a dia: os tratadores.

Muito embora tenhamos geração de conhecimento, sem o treinamento correto destes colaboradores não conseguiremos avançar muito nos resultados de produtividade. Precisamos prestar mais atenção naqueles que estão aplicando diretamente o conhecimento gerado.

O que aprendemos nestes últimos 10 anos?

O primeiro ponto que foi bastante alterado é o manejo da colostragem. Nos idos de 2009 ainda se recomendava o fornecimento de 2L de colostro de alta qualidade ao nascer, ou o mais rápido possível, e mais 2L até 12 horas após o nascimento. Hoje concentramos este consumo de 4L, na verdade um volume de 10% de peso ao nascer, de colostro de alta qualidade nas primeiras seis horas após o nascimento (Godden, 2008).

A qualidade do colostro deixou de ser vista somente como concentração de IgG, com a incorporação de parâmetros de qualidade microbiológica (< 100.00 UFC). Infelizmente ainda não temos métodos rápido para avaliar qualidade microbiológica, mas existe uma maior preocupação com higiene na coleta e no armazenamento de colostro.

Muito se avançou na avaliação da qualidade. Enquanto antes se utilizava basicamente o colostrômetro para - através da densidade do colostro se estimar a concentração de IgG - hoje temos os refratômetros de Brix validados para esta função (Quigley et al., 2013). Muitos erros podem ocorrer devido a utilização do colostrômetro em função da temperatura do colostro avaliado. Como a temperatura afeta a densidade, sub ou superestimavas ocorrem, afetando a eficiência da colostragem nos rebanhos. A utilização do refratômetro de Brix tem sido largamente adotada, pela sua facilidade e menor fragilidade do equipamento, assim como pelo seu baixo custo.

Os bancos de colostro também foram redesenhados. O armazenamento em garrafas pet de 2L, que dificulta o descongelamento e fixa porções neste volume, tem sido substituído pelo armazenamento em placas (Figura 1). Além disso, a identificação correta, com data de coleta e qualidade, e os cuidados com limpeza e higiene transformaram os bancos de colostro. Todos estes aspectos tem auxiliado no aumento da eficiência de colostragem dos rebanhos. Ainda assim, em um levantamento realizado em importantes bacias leiteiras no Brasil (dos Santos et al., 2017), observou-se que somente 22,6% das amostras de bancos de colostro apresentam adequada qualidade em IgG associada a qualidade microbiológica (> 50 mg/dL e < 100.000 UFC). Este ainda é um gargalo em algumas propriedades e mais pesquisaa sobre o armazenamento em geladeiras deverá ser realizado.

Figura 1. Banco de colostro com armazenamento em garrafas e placas.

Nos últimos anos também tivemos a entrada de suplementos e substitutos de colostro no mercado brasileiro, o que impulsionou a geração de dados nacionais.  Estas tecnologias são utilizadas já a muitos anos no exterior, com muitos produtos com reconhecida qualidade e eficiência. Os produtos nacionais também tem trazido resultados interessantes e os produtos tem sido utilizados de forma estratégica quando há falta de colostro de qualidade ou para padronização do processo nos bezerreiros.

Ainda assim, a literatura traz levantamentos americanos, canadenses e também nacionais mostrando que ainda temos muitas propriedades com falhas ou baixa eficiência na transferência de imunidade passiva (Beam et al., 2009; Azevedo et al., 2018). A eficiência do processo também pode ser aferida facilmente em nível de fazenda com a validação dos refratômetros tanto de Brix quanto de proteína (Deelen et al., 2014). Os produtores podem hoje colher sangue dos animais e fazer a avaliação de forma a entender melhor os problemas e corrigir possíveis erros no processo (Figura 2). O tempo para a realização da coleta de sangue ainda é motivo de discussão entre pesquisadores com recomendações para que sejam realizadas coletas até 48h de vida, enquanto outros sugerem resultados acurados até 7 dias de vida. 

Figura 2. Avaliação da transferência de imunidade passiva.

     

 Os programas de aleitamento e as opções de dieta líquida foram temas de inúmeras pesquisas nestes últimos 10 anos. Os benefícios do fornecimento de maiores volumes de dieta líquida foram extensivamente divulgados e muitos produtores migraram do fornecimento de 4L/d (sistema convencional) para o fornecimento de 6L/d ou até mais (sistema intensivo). O aumento no potencial de produção de leite de animais aleitados intensivamente é bastante claro na literatura, mas tem maior relação com o ganho de peso em si, o que traz alguns confundimentos.

Muito embora a maior parte do ganho se deva ao consumo de dieta líquida, o consumo de dieta sólida também tem importante papel neste processo. A composição da dieta líquida também é fator fundamental e os trabalhos mostram efeitos de aumento no potencial de produção quando sucedâneos tem mais que 25% de PB. Um levantamento nacional mostra que esta não é a realidade da maior parte dos produtos comercializados no Brasil (Bittar et al., 2018; Tabela 1).

Quando sucedâneos de médio teor de proteína são fornecidos em sistemas de aleitamento intensivo, o ganho de peso é semelhante ao observado em animais em sistema convencional. Se por um lado falta proteína para o aumento no ganho de peso de animais em aleitamento intensivo; de outro, os animais em aleitamento convencional têm maior consumo de concentrado (De Paula et al., 2017).

Tabela 1. Composição de sucedâneo comercializados no Brasil (adaptado de Bittar et al., 2018).

A dificuldade para desaleitar bezerros recebendo maiores volumes de dieta líquida foi bastante estudada e se deve, basicamente, a relação inversa entre o consumo de dieta sólida e líquida (Gelsinger et al., 2017). Muitos trabalhos foram publicados com a avaliação de diferentes sistemas de aleitamento, na busca de estratégias que pudessem aumentar os ganhos na fase de aleitamento sem prejuízos ao processo de desaleitamento e a fase seguinte.  

O aleitamento em escalas, com redução do volume de fornecimento de dieta líquida no final do período ou o desaleitamento gradual foram estudados e mostram seus benefícios tanto do ponto de vista de desempenho quanto de bem-estar animal. Mas, a melhor forma de se realizar o desaleitamento gradual ainda precisa de mais estudos pois em algumas situações reduz o consumo total de energia na fase de aleitamento, o que pode não beneficiar o animal nos aspectos mencionados anteriormente (Steele et al., 2017).

A dieta sólida continuou sendo uma grande protagonista da fase de aleitamento, com grupos de pesquisa debruçados especificamente nesta questão. Para o adequado desaleitamento os animais precisam ter o rúmen pelo menos parcialmente desenvolvido, o que depende do consumo da dieta sólida e a fermentação a ácidos graxos de cadeia curta envolvidos no estímulo, principalmente propiônico e butírico. Assim, inúmeras pesquisas foram realizadas no sentido de aumentar a produção destes ácidos através da manipulação da composição do concentrado (Bittar e Ferreira, 2017).

O que se conclui destes trabalhos é que o consumo de dieta sólida é mais importante que estratégias de formulação. Assim, o volume de fornecimento de dieta líquida, o tamanho de partícula do alimento, fornecimento de feno ad libitum, cochos adequados, ausência de competição são fatores importantes para garantir consumo adequado para o desenvolvimento ruminal.

Embora o fornecimento de feno ou volumoso ad libitum não seja recomendado, a fibra tem sua importância para o adequado desenvolvimento do rúmen. Uma abordagem de dieta total tem sido feita com relação a dieta sólida de forma que a exigência em fibra seja atendida. No entanto, embora se saiba da importância da fonte de fibra na dieta (Khan et al., 2016; Tabela 2), mais pesquisas precisam ser conduzidas para avaliar níveis de FDN na dieta destes animais

Tabela 2. Efeito da dieta sólida em aspectos do desenvolvimento ruminal (adaptado de Kahn et al., 2016).

Trabalhos relacionando a dieta, desde a colostragem até o desaleitamento, também têm sido realizados com vistas ao entendimento do microbioma de bezerros. Impulsionados por resultados de pesquisa com humanos, associando populações microbianas com doenças ou vantagens em aspectos de saúde, muitos trabalhos foram publicados nos últimos 4-5 anos com bezerros leiteiros. Sabe-se que embora a dieta tenha efeito importante na colonização de alguns microrganismos uma vez que funcionam como substrato para as mesmas, alguns microrganismos podem ser encontrados mesmo antes do consumo de alimentos (Malmuthuge et al., 2015).

Um dado interessante é que a diversidade do microbioma pode ser alterada pelo tempo para o fornecimento de colostro, com maior proporção de bactérias benéficas quando mais cedo o colostro é fornecido (Fischer et al., 2015). A diversidade também pode ser alterada com a idade do animal e o tipo de alimento fornecido (leite, leite + concentrado), o que pode ser uma oportunidade de ter animais mais eficientes, ou que produzam menos metano por exemplo (Dias et al., 2017).

Outro tema bastante discutido nos últimos 10 anos é a melhor forma de alojamento de animais em aleitamento. Enquanto um grupo defende a criação individual outro sugere ganhos com a criação em grupo e muitos estudos foram conduzidos com este tema. A individualização tem efeitos na redução da disseminação de doenças, possibilita diagnóstico e tratamentos de saúde mais fáceis, anula a competição entre animais por recursos (água, alimento, sombra, cama), mas resulta em maior neofobia alimentar e normalmente está associada a maior custo. Por outro lado, a criação em lotes resulta em consumo de dieta sólida mais precoce, sucesso competitivo, maior adaptação ao desconhecido e melhor cognição e comportamentos lúdicos. O aumento de criação em lotes se deveu muito a expansão da adoção de aleitadores automáticos devido à escassez e/ou ao custo de mão de obra.

No entanto, o que temos visto no Brasil é um aumento da criação individualizada principalmente devido a possibilidade de maior controle de alimentação e menor ocorrência de doenças no ambiente de alta temperatura e umidade.  Alguns estudos tem mostrado benefícios da criação em pares, mas não temos estudos nacionais avaliando esta estratégia em nosso ambiente. De qualquer modo, os artigos sugerem maiores consumos de alimentos, menor estresse ao desaleitamento e melhor adaptação a novas situações, ou seja, soma de vantagens observadas para animais individualizados e em lotes (Costa et al., 2015).

Os últimos 10 anos foram de grandes transformações e até de quebra de paradigmas na criação de bezerros leiteiros. Ainda temos muito a avançar para tornar nossos bezerreiros eficientes e colher os frutos com a obtenção de vacas mais produtivas. Para isso, além de mais geração de conhecimento e aplicações em nosso ambiente, devemos nos preocupar com a transferência de tecnologia, através de ações de extensão rural. A indústria e produtores são também elos importantes desta cadeia de geração de conhecimento. Já estamos vivenciando redução no financiamento do governo para pesquisa e por isso as parcerias com iniciativa privada e produtores e a formação de equipes será determinante para a continuidade deste trabalho.

Referências bibliográficas

Azevedo, R.; Martins, L. F. ; Tiveron, P. M. ; Teixeira, A. M. ; Bittar, C.M.M. ; Silva, L. C. M. ; Santos, José Eduardo Portela ; Rotta, P. P. ; Meneses, R. M. ; Coelho, S. G. . Alta Cria 2018. 1. ed. Uberaba: Alta, 2018. v. 1. 94p.

Beam, A.L.; Lombard, J.E.; Kopral, C.A. et al. Prevalence of passive transfer of immunity in newborn heifer calves and associated management practices in US dairy operations. J. Dairy Sci., v.92, p.3973-3980, 2009.

Bittar, C.M.M., Ferreira, L.S. Qualidade e composição de alimentos para o desenvolvimento ruminal de bezerras leiteiras. In: 1o. Simpósio de Nutrição de Bovinos de Corte e Leite, 2016, Dracena. Anais do 1o. Simpósio de Nutrição de Bovinos de Corte e Leite. Dracena: Unesp, 2016. v. 1. p. 78-92.

Bittar, C.M.M., Silva, J.T., Chester-Jones, H. Macronutrient and amino acids composition of milk replacers for dairy calves. Rev. bras. saúde prod. anim. [online]. 2018, vol.19, n.1, pp.47-57. ISSN 1519-9940. 

Costa JH, Meagher RK, von Keyserlingk MA, Weary DM. Early pair housing increases solid feed intake and weight gains in dairy calves. J Dairy Sci. 2015 Sep;98(9):6381-6.

De Paula, M. R., Oltramari, C. E., Silva, J. T., Gallo, M. P. C., Mourão, G. B., Bittar C. M. M. 2017. Intensive liquid feeding of dairy calves with a medium crude protein milk replacer: Effects on performance, rumen, and blood parameters. J. Dairy Sci. 100:4448-4456.

Deelen S. M., T. L. Ollivett, D. M. Haines. 2014.  Evaluation of a brix refractometer to estimate serum immunoglobulin g concentration in neonatal dairy calves. J. Dairy Sci.  97(6), 3838-3844.

Dias J., Marcondes M.I., Noronha M.F. et al., Effect of Pre-weaning Diet on the Ruminal Archaeal, Bacterial, and Fungal Communities of Dairy Calves. Frontiers in Microbiology, V.8, 2017. 

dos Santos, G., Silva, J. T., Santos, F.H.R., Bittar, C.M.M. 2017. Nutritional and microbiological quality of bovine colostrum samples in Brazil.  Revista Brasileira De Zootecnia 46: 72-79.

Fischer, A.J., Song, Y., He, Z., Haines, D.M., Guan, L.L. and Steele, M.A.  Effect of delaying colostrum feeding on passive transfer and intestinal bacterial colonization in neonatal male Holstein calves J. Dairy Sci. 101:1–11.

Godden, S. 2008. Colostrum management for dairy calves. (Dairy heifer management.). Veterinary Clinics of North America, Food Animal Practice 24:19-39.

Khan, M.A., Bach, A., Weary, D.M., von Keyserlingk, M.A.G., 2016. Invited review: Transitioning from milk to solid feed in dairy heifers. Journal of Dairy Science 99:885-902. https//doi:10.3168/jds.2015-9975.

Malmuthuge N, Griebel PJ, Guan le L. The Gut Microbiome and Its Potential Role in the Development and Function of Newborn Calf Gastrointestinal Tract. Front Vet Sci. 2015;2:36. Published 2015 Sep 23.

Quigley, J. D.; Lago, A.; Chapman, C.; Erickson, P.; Polo, J. 2013. Evaluation of the Brix refractometer to estimate immunoglobulin G concentration in bovine colostrum. Journal of Dairy Science 96:1148-1155.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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MARCELIO ALVES DE OLIVEIRA

SÃO JOÃO BATISTA DO GLÓRIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/08/2019

Gosto muito de aprender