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Influência do consumo de feno no comportamento de bezerros leiteiros alojados em grupos

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E SOPHIA DONDE

CARLA BITTAR

EM 18/12/2019

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A criação de bezerros leiteiros em crescimento apresenta elevado custo, principalmente durante a fase de aleitamento, induzindo produtores a buscar técnicas que possibilitem o desaleitamento precoce sem que haja prejuízos no desempenho animal. Com isso, um dos principais objetivos durante a fase de aleitamento é estimular o consumo de dieta sólida, pois o desenvolvimento ruminal está fortemente relacionado à ingestão deste tipo de alimento.

O fornecimento de feno durante o período de aleitamento pode trazer benefícios no comportamento e no desempenho de bezerros, uma vez que o consumo de forragens é inato nesses animais e o feno pode, em algumas situações, estimular a ingestão de concentrado. Esta ingestão pode melhorar o ambiente ruminal, pois aumenta a ruminação e salivação, tamponando o rúmen, de modo a auxiliar o seu desenvolvimento, o que beneficia o crescimento dos bezerros.

Alguns trabalhos afirmam que a criação de bezerros em grupos ou em pares facilita o comportamento social, aumentando a aceitação do novo e o aprender social, podendo levar ao estímulo do consumo de concentrado, o que também beneficiaria o desempenho. Entretanto, a mamada não nutritiva, decorrente do redirecionamento do comportamento natural de sucção, em criações coletivas pode se tornar um grande problema, podendo resultar em inflamações de umbigo e até mesmo mal desenvolvimento de tetos em bezerras que sofrem mamadas.

Em criações extensivas, os bezerros começam a se alimentar lentamente com forragens logo nas primeiras semanas de vida, pois se espelham em atividades realizadas por vacas adultas. Assim, o consumo de forragem faz parte do desenvolvimento natural do comportamento alimentar dos bezerros e este é facilitado em sociedade. Permitir esse comportamento no início da vida por meio do fornecimento de feno reduz a mamada não nutritiva em bezerros alojados individualmente. Isso ocorre provavelmente porque o acesso ao feno pode satisfazer a motivação de sucção em elementos da baia ou em outros animais.

Deste modo, Horvath e Miller-Cushon (2019) realizaram um estudo para avaliar o efeito do fornecimento de feno sobre o desenvolvimento dos padrões de alimentação, mamada não nutritiva, comportamento social e desempenho de bezerros em criação em grupo durante o período de aleitamento e desaleitamento.

Foram utilizados 32 bezerros recém-nascidos da raça Holandesa, os quais foram alojados em gaiolas individuais e, ao atingirem duas semanas de vida, foram transferidos para baias coletivas contendo dois machos e duas fêmeas por baia. Nos alojamentos coletivos, o acesso a água e concentrado eram à vontade, o fornecimento de sucedâneo do leite era via aleitador automático e os tratamentos:

  1. CIF: fornecimento de concentrado inicial e feno de Cynodon.
  2. CI: fornecimento de concentrado inicial sem a suplementação de feno.

O feno foi cortado em partículas de 5 cm e fornecido em dois cochos próximo ao concentrado. Tanto o concentrado quanto o feno eram fornecidos diariamente e trocados sempre que necessário. Suas quantidades eram aumentadas de acordo com o consumo de cada baia, mantendo uma sobra de 20%.

Os parâmetros de consumo individual da dieta líquida e visitas ao aleitador automático, com ou sem recompensa, foram avaliados de acordo com o relatório disponibilizado pelo próprio equipamento. Foram monitorados o consumo de concentrado e feno por baia, o peso e as medidas de crescimento dos animais. Além disso, realizaram-se observações comportamentais, com o auxílio de uma câmera, durante o período de aleitamento (semanas 4 e 6) e período de desaleitamento (semana 7). Os animais foram desaleitados de forma gradual.

Durante o período de aleitamento o fornecimento de feno não afetou o consumo de leite e as frequências de visitas recompensadas ou não recompensadas. Da mesma forma, durante o período de desaleitamento o fornecimento não afetou a ingestão de leite e a frequência de visitas recompensadas. Todavia, os animais não suplementados com feno tenderam a realizar mais visitas não recompensadas ao aleitador automático. O consumo médio de feno foi de 15% da ingestão de matéria seca (IMS) total durante o período de aleitamento (Tabela 1) e a ingestão aumentou ao longo do tempo (Figura 1). O fornecimento de feno influenciou a ingestão total de concentrado durante a fase de aleitamento (Tabela 1), a IMS do concentrado foi semelhante entre os tratamentos, mas a IMS total aumentou de forma mais acentuada ao longo do tempo para animais suplementados com feno (Figura 1b). O ganho de peso e o crescimento foram semelhantes no aleitamento, assim como a ingestão total de concentrado não diferiu entre os tratamentos durante o desaleitamento, porém os animais suplementados com feno tenderam a ter maior ganho médio diário (GMD) durante esta fase (Tabela 1).

Tabela 1. IMS, GMD e crescimento de bezerros que receberam apenas o concentrado ou concentrado com o acesso ao feno durante o aleitamento (3 a 6 semanas) e desaleitamento (10 d gradual).

O fornecimento de feno para bezerros não afeta a ingestão de concentrado e, portanto, pode resultar em maior IMS total durante a fase de aleitamento, particularmente durante a semana anterior ao desaleitamento. No entanto, os bezerros neste estudo consumiram forragem em patamar que resultou em taxa de inclusão mais alta (15%) do que é frequentemente observado ou recomendado (<10%). A metanálise de Imani et al. (2017), observou que altos níveis de forragem (> 10% de inclusão na dieta) estão associados ao aumento da ingestão de concentrado, sugerindo que uma avaliação mais aprofundada da inclusão ideal de forragem na dieta pode ser necessária.

Figura 1. IMS do feno e concentrado do grupo de animais do tratamento CIF que receberam combinado de feno e concentra. Os dados foram resumidos e analisados a nível de baia (n = 4 baias por tratamento) e tirou-se a média por semana. As barras de erro representam SE.

O fornecimento de feno não afetou o tempo total gasto para o consumo de concentrado, mas influenciou o padrão da refeição deste, ou seja, o tempo e a duração da refeição (Tabela 2).  De maneira geral, os bezerros não suplementados com feno consumiram seu concentrado em refeições menos frequentes e mais longas do que os bezerros do tratamento CIF. Considerando que a frequência e duração das refeições do concentrado aumentaram ao longo do tempo entre os tratamentos, os padrões de alimentação do feno foram mais constantes ao longo do período avaliado, apesar do aumento da ingestão (Figura 1). O tempo gasto consumindo feno tendeu a mudar entre as semanas, diminuindo na semana 6 em relação às outras semanas (Tabela 2), sugerindo que a redução no fornecimento da dieta líquida resultou em aumento no tempo gasto com o consumo de forragem. A frequência das refeições de feno e o tempo das refeições aumentaram durante o desaleitamento, enquanto a duração das refeições foi relativamente semelhante entre as semanas (Tabela 2).

Tabela 2. Descrição dos períodos de alimentação e suas características em bezerros nos diferentes tratamentos (T): fornecimento de concentrado e feno (CIF; n = 4 baias) ou apenas concentrado sem adição de feno (CI; n = 4 baias), filmagem constante durante 12 h de observação (06 às 18 h) em 2 dias consecutivos nas semanas 4, 6 e 7.

O fornecimento de feno reduziu a quantidade de tempo que os bezerros passaram realizando a mamada não nutritiva direcionada à baia. Por outro lado, bezerros não suplementados aumentaram o tempo gasto sugando acessórios das baias em relação aos animais que recebiam feno (Tabela 3). A frequência de mamadas direcionadas as baias aumentou ao longo das semanas, sem efeito do tratamento, entretanto a duração dessas mamadas foi maior para bezerros não suplementados com feno. Já a quantidade de tempo gasto na mamada cruzada foi semelhante entre os tratamentos e evoluiu da mesma forma ao longo do tempo.

Tabela 3. Descrição dos comportamento de autolimpeza e mamada cruzada e ações de sucção de bezerros dos diferentes tratamentos (T): fornecimento de concentrado com feno (CIF; n = 4 baias) ou apenas o concentrado sem adição de feno (CI; n = 4 baias), gravação constante em um período de 12 h de observações (06 às 18 h) durante 2 dias consecutivos nas semanas 4, 6 e 7.

O acesso ao feno influenciou o padrão do comportamento alimentar de concentrado, resultando em refeições mais frequentes e mais curtas. Esse efeito pode ser causado pelo fato de bezerros com acesso ao feno ficarem alternando entre comer o concentrado e a forragem. Em geral, padrões de refeições menores e mais frequentes podem ser benéficos para o ambiente ruminal. Em bovinos adultos o declínio no pH ruminal após a alimentação é proporcional ao tamanho da refeição (Allen, 1997), e o comportamento alimentar caracterizado por refeições maiores e pouco frequentes pode aumentar o risco de acidose ruminal subaguda (Krause e Oetzel, 2006). Além disso, o aumento do tempo de alimentação está associado à secreção de saliva, que atua como um tampão no rúmen (Beauchemin et al., 2008). Em bezerros jovens, a relação entre os padrões de refeição sólidas e o ambiente ruminal não foi bem explorada. No entanto, algumas evidências sugerem que os padrões de refeição adquiridos no início da vida podem persistir (Miller-Cushon e DeVries, 2015), de modo que incentivar refeições pequenas e frequentes possa ser benéfico.

Diferenças entre o feno e o concentrado nas relações do tamanho da refeição com o intervalo pós-refeição sugerem que a ingestão de concentrado foi regulada principalmente por sinais de saciedade, enquanto a ingestão de feno foi estimulada por estímulos externos (como a entrega de ração). Isso indica que a ingestão de feno possivelmente seja motivada de maneira semelhante a comportamentos orais, como a mamada não nutritiva, o que poderia explicar outros benefícios comportamentais de fornecer o feno.

Bezerros que receberam feno realizaram metade das visitas não recompensadas ao aleitador automático durante o desaleitamento em comparação aos bezerros que não receberam feno. Embora a ingestão de leite e dieta sólida não tenha diferido entre os tratamentos durante o desaleitamento, a ingestão de feno pode aumentar o preenchimento do trato gastrintestinal, possivelmente aumentando a saciedade e explicando o menor número de visitas não recompensadas. Também é possível que visitas não recompensadas ao aleitador automático sejam motivadas por exploração ou tédio, sugerindo que estes bezerros gastaram mais tempo consumindo feno ao invés de explorar o ambiente. A tendência ao aumento do GMD durante o desaleitamento, pode ser resultado do aumento da ingestão de dieta sólida durante o período de aleitamento, sugerindo que os bezerros que receberam feno experimentaram uma transição mais suave entre essas duas fases. No geral, esses resultados sugerem efeitos positivos do feno no desempenho e no bem-estar durante a transição crítica do desaleitamento.

O fornecimento de feno diminuiu a quantidade de mamadas não nutritivas em bezerros alojados em grupo. Além disso, o aumento desta mamada realizada pelos bezerros não suplementados com feno foi maior durante o desaleitamento, o que pode indicar maior frustração durante esse período. Bezerros com acesso ao feno redirecionaram esse comportamento para o consumo de feno.

Como conclusão, há efeitos positivos no comportamento e desempenho de bezerros alojados em grupos que receberam feno, principalmente no período próximo ao desaleitamento. O fornecimento de feno aumentou a ingestão de alimentos sólidos e a frequência geral das refeições e reduziu a mamada não nutritiva e as visitas não recompensadas ao aleitador automático durante o desaleitamento. Esses resultados sugerem que o fornecimento de feno pode melhorar o bem-estar dos bezerros.

Comentários

Em algumas situações, a depender do manejo alimentar, o fornecimento de pequenas quantidades de feno pode beneficiar tanto o desempenho quanto o comportamento de animais, principalmente durante o período de redução no fornecimento da dieta líquida. Embora o fornecimento de volumosos não tenha relação direta com o desenvolvimento ruminal, pode auxiliar na manutenção da saúde do mesmo, estimulando o consumo de concentrado. Muitas vezes esses benefícios são mais marcantes quando o concentrado oferecido não está com nível de fibra adequado. O importante é que o fornecimento seja limitado para que o animal tenha um consumo em torno de 5-10% do seu consumo total. Quando fornecido à vontade podem haver situações de grande efeito de substituição, o que reduz o desempenho animal devido ao menor consumo de energia e proteína. Assim, o feno pode ser incluído na formulação do concentrado inicial (5% da MS) ou fornecido em pequenas quantidades aos animais. De maneira prática podemos dizer que o ideal seria fornecer “um punhado” ou “uma mão” de feno para os animais. Um outro aspecto interessante do fornecimento de feno, que fica bem claro neste estudo apresentado, é o aspecto comportamental. Principalmente quando os animais estão sendo desaleitados, o feno pode auxiliar na redução da frustração pelo redirecionamento do ato de mamar para o seu consumo. Assim, o fornecimento de quantidades pequenas de feno pode ser realizado para auxiliar na manutenção de bem estar dos animais, sem prejuízos ao desempenho.

Referências

ALLEN, M. S. 1997. Relationship between fermentation acid production in the rumen and the requirement for physically effective fiber. J. Dairy Sci. 80:1447–1462.

BEAUCHEMIN, K. A., L. ERIKSEN, P. NØRGAARD, AND L. M. RODE. 2008. Short Communication: Salivary secretion during meals in lactating dairy cattle. J. Dairy Sci. 91:2077–2081.

HORVATH, K. C. e MILLER-CUSHON, E. K. 2019. Evaluating effects of providing hay on behavioral development and performance of group-housed dairy calves. J. Dairy Sci. 102.

IMANI, M., M. MIRZAE, B. BAGHBANZADEH-NOBARI, AND M. H. GHAF-FARI. 2017. Effects of forage provision to dairy calves on growth performance and rumen fermentation: A meta-analysis and meta-regression. J. Dairy Sci. 100:1136–1150.

KHAN, M. A., D. M. WEARY, AND M. A. G. VON KEYSERLINGK. 2011. Hay intake improves performance and rumen development of calves fed higher quantities of milk. J. Dairy Sci. 94:3547–3553.

MILLER-CUSHON, E. K., AND T. J. DEVRIES. 2015. Invited Review: De-velopment and expression of dairy calf feeding behaviour. Can. J. Anim. Sci. 95:341–350.BITTAR, C.M.M., FERREIRA, L.S., SANTOS, F.A.P., ZOPOLLATTO, M. 2009. Performance and ruminal development of dairy calves fed starter concentrate with different physical forms. Revista Brasileira De Zootecnia 38, 1561-1567.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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