Ciência e produtividade: os dois ao lado do produtor

Um estudo inédito com mais de 700 vacas no Brasil confirma o que a pecuária leiteira moderna precisa ouvir: inovar com base em evidências é o melhor caminho entre a ciência e o resultado ao produtor.

Publicado por: MilkPoint

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Por Aline Allegretti – Gerente Linha Leite · Ceva Saúde Animal 

Toda vez que apresento uma nova tecnologia para um produtor, recebo a mesma pergunta — e é a pergunta certa: "Isso vai aumentar minha produção?" Não é desconfiança, é pragmatismo. O produtor de leite trabalha com margens apertadas, gestão complexa e um animal que não perdoa descuido. Ele quer resultado. Cabe à indústria e à ciência provar que merecem espaço na fazenda.

É exatamente essa lógica que torna o estudo publicado em 2026 por Souza et al. tão relevante para o nosso setor. Pela primeira vez, temos uma evidência científica robusta, conduzida em território brasileiro, mostrando que a administração de cabergolina (Velactis®) no momento da secagem resulta em aumento significativo da produção de leite na lactação subsequente — tanto em vacas Holandesas quanto em Girolando.

O que o estudo fez — e por que isso importa

O trabalho, conduzido por Alexandre Henryli de Souza et. Al., envolveu dois experimentos paralelos em fazendas brasileiras. No Experimento 1, 326 vacas holandesas que foram acompanhadas em um sistema free-stall no interior de São Paulo. No Experimento 2, 417 vacas Girolando foram avaliadas em um compost barn em Minas Gerais — um sistema cada vez mais comum no Brasil tropical.

Metade de cada grupo recebeu uma dose única de cabergolina (5,6 mg, Velactis®) por via intramuscular no momento da secagem. A outra metade recebeu solução salina como controle. O acompanhamento foi rigoroso: produção de leite semanal, contagem de células somáticas (CCS), incidência de mastite clínica, placenta retida, cetose e taxa de prenhez até 150 dias em leite.

"O resultado foi melhor do que imaginávamos: Aproximadamente 1,5 kg a mais de leite por vaca por dia ao longo de toda a lactação em vacas que receberam Velactis — esse é o tipo de diferença que um produtor sente na receita no final do mês. - Alexandre Sousa"

Os números que fazem a diferença

Os resultados foram claros. Vacas tratadas com Velactis produziram significativamente mais leite do que as do grupo controle em ambos os experimentos.

Indicador

Velactis®

Controle

Produção acumulada 16 sem. — Holandesas (Exp. 1)

4.933 kg

4.788 kg

Produção acumulada 200 dias — Girolando (Exp. 2)

7.395 kg

7.017 kg

CCS no pós-parto precoce (log SCC)

1,57 V

1,77

Mastite clínica, placenta retida, fertilidade

Sem diferença

Sem diferença 

Fonte: Souza et al., 2026. p < 0,05 para produção de leite; p < 0,01 para CCS.

No Experimento 1, a produção acumulada em 16 semanas foi de 4.933 kg no grupo cabergolina versus 4.788 kg no controle (p = 0,04). No Experimento 2, as Girolando tratadas chegaram a 7.395 kg versus 7.017 kg no controle ao longo de 200 dias (p = 0,03). Em termos práticos, estamos falando de aproximadamente 1,5 kg a mais de leite por vaca por dia — todos os dias, durante toda a lactação.

Além da produção, o estudo mostrou que o Velactis reduziu significativamente a CCS no pós-parto precoce (1,57 vs. 1,77 log CCS; p < 0,01), o que se traduz em menos mastite subclínica e leite de melhor qualidade. E — ponto importante para quem se preocupa com a saúde do rebanho — não houve diferença negativa em nenhum indicador sanitário: incidência de mastite clínica, placenta retida, cetose e taxa de prenhez foram equivalentes entre os grupos.

Por que a ciência precisa de palco no setor leiteiro

Vivemos um momento em que o produtor tem acesso a mais informação do que nunca — e, ao mesmo tempo, mais ruído do que nunca. Promessas sem lastro competem com dados reais. Modismos substituem fundamentos. Por isso, quando surge um estudo com delineamento adequado, número expressivo de animais, conduzido em condições brasileiras reais, com raças e sistemas distintos, e com resultados convergentes em ambos os experimentos — isso precisa ser comunicado com clareza e orgulho.

A cabergolina não é uma novidade de prateleira. Ela atua suprimindo a prolactina circulante no momento da secagem, acelerando a involução mamária e — conforme agora documentado — potencializando a resposta do úbere à prolactina na lactação seguinte. O mecanismo faz sentido biológico. E os dados de campo confirmam o efeito clínico.

O estudo de Souza et al. vai além: demonstra que o efeito positivo sobre a produção é independente da paridade, da duração do período seco e do nível de produção na secagem. Isso significa que Velactis® não é uma ferramenta para um perfil específico de vaca — é uma tecnologia com potencial de aplicação ampla no rebanho.

"Inovar não é o oposto de produzir. Inovar com evidência cientifica é a forma mais segura de produzir mais, com saúde e previsibilidade.- diz Aline Allegretti"

O retorno sobre o investimento é a conversa real

Como gerente de produto, uma das minhas funções é traduzir ciência em decisão de compra. E aqui a conta é direta: se uma vaca produz 1,5 kg a mais por dia durante 200 dias, isso representa 300 litros adicionais por lactação. Multiplique pelo preço do leite, subtraia o custo do produto, e o ROI se torna facilmente justificável — especialmente em rebanhos com alta genética e alta produção, onde cada quilo de leite conta.

Não estou defendendo que toda tecnologia se paga sempre. Estou dizendo que esta tem evidência suficiente para ser avaliada com seriedade — e os dados do estudo são nosso ponto de partida dessa conversa com o produtor.

O papel da indústria: ser parceira da ciência, não concorrente

Há uma tentação, no mercado, de simplificar demais. De transformar resultado científico em slogan. De encurtar o caminho entre o laboratório e o folder comercial, perdendo tudo que dá credibilidade à mensagem no caminho.

A responsabilidade de quem trabalha com inovação no setor leiteiro é justamente a oposta: manter o rigor, citar os dados com precisão, se conectar com instituições renomadas de pesquisa e deixar que a ciência fale por si mesma. O produtor que entende o mecanismo confia mais do que o que recebe apenas o resultado embalado.

O estudo de Souza et al. (2026) é exatamente o tipo de evidência que o nosso setor precisa valorizar: gerado no Brasil, com raças relevantes para a nossa realidade. Isso é ciência funcionando como aliada da produção.

No final do dia, o produtor tem razão em exigir resultado. E nós temos a obrigação de chegar até ele com dados que sustentam a resposta. Esse estudo é um desses dados. Cabe a todos nós — técnicos, consultores, veterinários e indústria — garantir que ele chegue às mãos de quem precisa tomar a decisão.

REFERÊNCIA DO ESTUDO CITADO

Souza, A.H. et al. (2026). "Administração de cabergolina (Velactis®) na secagem aumenta a produção de leite na lactação subsequente de vacas Holstein e Girolando (Gir × Holstein)." Recebido: 2 jun. 2025 / Aceito: 27 jan. 2026. Experimento 1: n = 326 vacas Holstein, São Paulo, Brasil (abr/2017 – set/2018). Experimento 2: n = 417 vacas Girolando, Minas Gerais, Brasil (mar/2019 – fev/2020). Financiamento: Ceva Santé Animale.

Link estudo: https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s11250-026-04915-z.pdf

Sobre a autora do artigo

Aline Allegretti - Gerente de Linha Leite na Ceva Saúde Animal, Zootecnista com atuação em inovação e Desing de novas tecnologias para pecuária no Brasil.

Sobre a autor da publicação

Alexandre Souza - Gerente Técnico na Ceva Saúde Animal, médico veterinário e pesquisador internacional reconhecido na academia.

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