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A granja leiteira ideal: visão de agricultores, profissionais das agrárias e consumidores

POR CLARISSA SILVA CARDOSO

E MARIA JOSÉ HÖTZEL

PRODUÇÃO

EM 26/02/2019

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Este é um texto de divulgação do artigo em inglês “Views of dairy farmers, agricultural advisors, and lay citizens on the ideal dairy farm” publicado na revista Journal of Dairy Science em fevereiro de 2019 escrito especialmente para o MilkPoint.

Resumo

A opinião das pessoas, principalmente aquelas de fora da produção animal, vem sendo investigada por pesquisadores. Mas se a opinião das pessoas de fora da produção é importante para que o mercado se alinhe com aquilo que é percebido como importante para esse público, também é importante investigar a opinião daquelas pessoas que trabalham diretamente na produção. 

O objetivo desta pesquisa foi explorar as visões de diferentes grupos de pessoas (agricultores, profissionais das agrárias incluindo extensionistas, e consumidores), sobre características que eles esperariam encontrar em uma granja leiteira ideal. Participaram 107 produtores de leite, 170 profissionais das agrárias, e 280 consumidores, respondendo à pergunta: Como você imagina uma granja leiteira ideal? Por que essas características são importantes para você? Cinco temas foram abordados pelos três grupos: qualidade do leite, bem-estar animal, questões econômicas, questões sociais, e questões ambientais.

Apesar de todos os três grupos citarem aspectos referentes a cada um dos cinco temas, a ênfase em cada tema foi diferente. Por exemplo, entre os consumidores, a qualidade do leite foi o tema mais abordado, enquanto entre os agricultores e profissionais, questões econômicas prevaleceram. Os três grupos fizeram menção ao tema bem-estar animal, mas focaram em diferentes aspectos. Agricultores e profissionais discutiram mais aspectos relacionados ao funcionamento biológico dos animais (como ter suas necessidades básicas de alimento e água satisfeitas, por exemplo) e o próprio termo “bem-estar animal”; já os consumidores mencionaram mais aspectos relacionados aos estados afetivos das vacas (delas se sentirem bem, por exemplo) e a naturalidade do sistema de produção (como a vaca ter acesso ao pasto, por exemplo).

Uma característica apreciada pelos três grupos de participantes foi o acesso ao pasto, mas novamente por diferentes razões: os consumidores se referiram à produção a base de pasto por considerá-lo ambiente natural para os bovinos, enquanto para agricultores e profissionais a produção a base de pasto é importante por baixar os custos de produção. A tecnologia foi outro aspecto levantado pelos três grupos por diferentes motivos: para os consumidores a tecnologia é importante para melhorar a qualidade do leite, enquanto agricultores e profissionais associaram a tecnologia à melhoria da qualidade de vida de agricultores e trabalhadores, por facilitar seu trabalho.

Por último, os consumidores se mostraram preocupados com o uso de antibióticos em excesso, uma questão praticamente não mencionada pelos outros dois grupos. Por outro lado, os dois grupos envolvidos com a produção mostraram preocupação com a qualidade de vida dos agricultores e trabalhadores, uma questão social pouco mencionada pelos consumidores.

Este trabalho mostra algumas divergências entre as expectativas de agricultores, profissionais e consumidores em relação à granja leiteira ideal. Sugerimos um engajamento entre diferentes grupos de pessoas para que possam discutir e alinhar suas expectativas em relação à produção de leite. Tal engajamento poderia promover a reflexão dos consumidores a respeito da realidade econômica e social da produção leiteira; aqueles envolvidos com a produção - agricultores e profissionais, incluindo extensionistas - ao entender as expectativas dos consumidores a respeito de como deveria ser a produção de leite, poderiam promover mudanças ou estratégias de comunicação efetivas com o público.

Introdução

Cada vez mais as pessoas estão interessadas em saber a procedência dos alimentos que consomem, principalmente onde, como e por quem foi produzido. Seja por motivos de saúde ou por posicionamento ético, vem aumentando o número de pessoas que estão diminuindo seu consumo ou até deixando de consumir leite. Pesquisadores vêm investigando visões e expectativas do público sobre esses assuntos, mas geralmente em países do hemisfério norte. No Brasil esse tipo de pesquisa ainda é escassa, especialmente em relação à produção de leite (Cardoso et al., 2017). Nos interessa saber, nesse contexto, como as pessoas veem a produção de leite e qual sua expectativa em relação ao modo de produção. Porém, entendemos que não só a visão das pessoas leigas é importante, mas também daquelas que trabalham na produção animal, que afinal são as que podem mudar suas práticas.

Diferentes grupos de pessoas têm diferentes visões sobre um mesmo assunto, já que isso depende de seus valores e interesses. Por exemplo, em várias partes do mundo o público leigo relaciona bem-estar animal com qualidade do leite, rejeita o uso de químicos e antibióticos em excesso na produção animal (Clark et al., 2016), espera que os animais sejam bem tratados e vivam mais naturalmente (Yunes et al., 2017). Indivíduos que têm relação com a produção animal geralmente expressam menos preocupação com o bem-estar dos animais do que o público leigo (Vanhonacker et al., 2008). Porém, agricultores parecem ter visões mais complexas sobre assuntos relacionados a bem-estar animal: se por um lado estão preocupados com a parte econômica, por outro reconhecem seus animais como seres capazes de sentir emoções (Cardoso et al., 2016).

Outro grupo de pessoas que potencialmente influencia no manejo dos animais são os extensionistas que trabalham a campo; apesar deles não terem interesses pessoais nas granjas que assessoram, parece que esse grupo prioriza saúde e produção acima do bem-estar animal (Hötzel and Sneddon, 2013). O engajamento de diferentes grupos de pessoas a fim de identificar similaridades e diferenças nas suas visões e opiniões sobre assuntos de interesse é uma ferramenta para a indústria animal promover sustentabilidade, já que se a produção animal não está alinhada com as expectativas do público leigo, há riscos para a sustentabilidade (ao menos do ponto de vista social). Existem poucas pesquisas sobre as visões de diferentes grupos de pessoas no Brasil, e especialmente na área da produção de leite (Cardoso et al., 2017; Hötzel et al., 2017).

Este estudo teve como objetivo explorar visões de diferentes grupos de pessoas, agricultores, profissionais das agrárias incluindo extensionistas e consumidores sobre características importantes em uma granja leiteira ideal. Este foi um estudo exploratório, feito através de abordagem qualitativa, que permite gerar dados para interpretar e entender pontos de vista (Guest et al., 2012). Os participantes convidados a responder um questionário, eram maiores de 18 anos, voluntários, e suas respostas eram anônimas.

O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética com Pesquisas em Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina. Cada participante assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de responder ao questionário. O questionário continha uma única pergunta aberta: Como você imagina uma granja leiteira ideal? Por que essas características são importantes para você? O questionário também continha algumas questões de múltipla escolha, de caráter demográfico (idade, sexo, escolaridade, área de residência urbana ou rural, tipo e envolvimento ou não com a produção animal).

Para análise das respostas abertas, foi usada análise temática. O recrutamento foi feito através de diferentes canais: para atrair agricultores e profissionais das agrárias, o questionário foi publicado online no Website e na página do Facebook do portal de notícias MilkPoint e da Revista Leite Integral, totalizando um número de 112 participantes. Além disso, outra parte dos agricultores e profissionais foi convidada através de publicações feitas por amigos e colegas da primeira autora, em grupos de Facebook e Whatsapp, totalizando mais 148 participantes envolvidos na produção animal. Finalmente, 17 participantes foram convidados em um evento sobre produção de leite na cidade.

Para analisar os resultados, separamos os agricultores (n=107) dos outros profissionais das agrárias (n=170). Todos os participantes do grupo de consumidores (n=280) foram convidados pessoalmente para responder ao questionário no saguão do Aeroporto Internacional Hercílio Luz em Florianópolis (SC). Foram convidadas pessoas que esperavam para entrar na sala de embarque, a quem convidávamos a responder voluntariamente a um questionário sobre o tema “produção animal”. Todos os participantes do grupo de agricultores eram produtores de leite, e nenhum cidadão possuía qualquer envolvimento com a produção de leite. Dos profissionais das agrárias, 70% era veterinário, agrônomo ou zootecnista, 23% estudante ou professor da área, e 7% profissional que trabalhava com a atividade leiteira.

Como era de se esperar, a maioria (67%) dos agricultores morava na região rural, diferente da maioria dos profissionais das agrárias (69%) e dos consumidores (88%), que moravam na região urbana. A grande maioria dos agricultores era do sexo masculino (85%), e nos outros dois grupos o sexo foi mais balanceado: 60% dos profissionais, e 48% dos consumidores eram do sexo masculino. As idades foram bem distribuídas entre os três grupos de participantes. Em todos os grupos de participantes observou-se um alto nível de escolaridade: 47% dos agricultores possuíam nível médio e 27% possuíam nível superior, se assemelhando ao perfil dos consumidores, em que 45% também possuíam nível médio e 28% nível superior. Em relação aos profissionais das agrárias, mais da metade (52%) era de nível superior.

As respostas abertas dos três grupos de participantes foram codificadas em cinco temas principais: qualidade do leite, bem-estar animal, questões econômicas, questões sociais e questões ambientais. Os termos mais frequentemente usados nas respostas abertas pelos três grupos de participantes, agricultores, profissionais, e consumidores, são mostrados na Figura 1 através de nuvens de palavras. Os dois grupos de participantes envolvidos com a produção animal tiveram respostas com padrões similares, e por isso serão descritas em conjunto a seguir.

Visões e expectativas de agricultores e profissionais em relação à granja leiteira ideal

O principal tema abordado por esses dois grupos de participantes foi em relação a questões econômicas e produtivas. Eles citaram características importantes que, na sua visão, afetam o rendimento, a produtividade e a lucratividade do estabelecimento. Comentaram que a granja ideal deveria ser economicamente viável, produtiva, eficiente no sentido de evitar perdas e usar o máximo dos recursos do próprio estabelecimento adquirindo menos insumos externos. A produção a pasto foi mencionada nesse sentido por, na visão dos participantes, ter menor custo de produção. Outras características relacionadas a isso foram boa genética, nutrição, reprodução, manejo, bons funcionários, limpeza e tipo de instalações. A qualidade do leite também foi mencionada como uma das principais características da granja leiteira ideal.

O termo bem-estar animal foi frequentemente mencionado pelos dois grupos de participantes, mas principalmente pelos profissionais, como um requisito para a granja leiteira ideal. Muitas vezes o termo foi associado a alojamento, conforto e maior produtividade, pois na sua visão, um animal em um ambiente confortável irá expressar sua máxima produtividade. Alguns mostraram preocupação com o sofrimento dos animais: a granja leiteira ideal deveria evitar o sofrimento dos animais.

Tanto a questão do bem-estar animal quanto a do meio ambiente foram vistas pelos participantes envolvidos na produção animal como questões demandadas pela sociedade, e por isso, importantes na granja leiteira ideal. Agricultores e profissionais das agrárias mencionaram características relacionadas ao meio ambiente em termos de legislação e preservação ambiental. Nesse contexto a produção a base de pasto também foi citada por esses participantes, que alegaram que estão de acordo com questões de preservação ambiental e bem-estar animal, e ser mais viável do ponto de vista econômico.

A qualidade de vida dos agricultores e trabalhadores foi bastante mencionada, principalmente pelo grupo dos agricultores. Questões como bem-estar das pessoas, qualidade de vida, conforto, felicidade, dignidade, descanso nos finais de semana e férias foram citadas como características importantes em uma granja leiteira ideal. Sucessão rural, a manutenção dos jovens no campo e o acesso a terra também foram aspectos levantados. Alguns participantes relacionaram a importância da granja ser produtiva e rentável com a qualidade de vida dos agricultores, pois eles dependem do sucesso do seu negócio para viver (bem) e só podem investir na propriedade se obtiverem lucro.

Também, nesse contexto, os participantes mencionaram a importância da tecnologia que percebem diminuir ou facilitar o trabalho dos agricultores e trabalhadores, melhorando assim a sua qualidade de vida. Finalmente, apenas uma participante do sexo feminino mencionou a questão de gênero na produção de leite; para ela, na granja leiteira ideal, as mulheres teriam mais poder de decisão no negócio.

Figura 1 (adaptada do artigo original). Nuvens de palavras dos três grupos de participantes: A, B e C. A nuvem representa as 25 palavras mais frequentes usadas nas respostas abertas, para a pergunta principal: Como você imagina uma granja leiteira ideal? Por que essas características são importantes para você? Quanto maiores as palavras, mais frequentemente elas foram usadas. As nuvens foram elaboradas no programa NVivo.

Visões e expectativas de consumidores em relação à granja leiteira ideal

A principal característica mencionada pelos consumidores para uma granja leiteira ideal foi a qualidade do leite. Relacionaram isso a uma preocupação com a saúde da população consumidora, sua segurança alimentar e a consideraram o principal requisito para uma granja leiteira. Segundo os participantes, higiene e limpeza das instalações e equipamentos utilizados na ordenha, assim como dos animais e dos trabalhadores, estão relacionados à qualidade do leite. Outro ponto muito importante mencionado em relação à qualidade do leite foi a percepção de uso de químicos no leite em excesso: antibióticos, hormônios, agrotóxicos na pastagem e transgênicos.

Leite orgânico foi lembrado por alguns participantes desse grupo como sendo o ideal. Nesse contexto, alguns participantes também mencionaram o termo natural como ideal: produção mais natural, ambiente mais natural. A produção a pasto, por ser o ambiente natural dos bovinos, foi considerada como ideal. Ainda fizeram uma relação entre os animais serem criados a pasto e seu bem-estar. Muitos participantes consumidores relacionaram aspectos do bem-estar animal à qualidade do leite, mostrando então preocupação com a qualidade de vida dos animais por eles se sentirem bem, e por isso, resultar em um leite de melhor qualidade.

Especificamente, foi mencionado que na granja leiteira ideal não deveria haver maus tratos, e haveria um ambiente de respeito, cuidado e afeição com os animais que produzem leite. Alguns participantes se mostraram contra a separação precoce da vaca e seu bezerro e ao confinamento. A proteção ambiental foi mencionada por alguns participantes como um requisito para a granja leiteira ideal, juntamente com bem-estar animal e das pessoas.

Considerações

Os três grupos de participantes – agricultores, profissionais e consumidores– mencionaram aspectos relacionados à qualidade do leite, ao bem-estar animal, a questões econômicas, sociais e ambientais. Porém, a ênfase que cada grupo deu em cada um dos temas foi diferente, sendo os dois grupos envolvidos com a produção animal mais semelhantes entre si. Consumidores enfatizaram a qualidade do leite, enquanto agricultores e profissionais citaram características para a granja ideal mais relacionadas a questões econômicas e produtivas.

Bem-estar animal, no conceito mais usado na ciência (Fraser et al., 1997) envolve três aspectos: a capacidade dos animais viverem vidas naturais, seus estados emocionais, e o seu funcionamento biológico. Ainda que os três grupos tenham mencionado aspectos relacionados a este conceito bastante frequentemente, houve diferenças na ênfase dada sobre cada aspecto em suas respostas: consumidores enfatizaram aspectos de naturalidade e estado emocional dos animais, enquanto agricultores e profissionais mencionaram aspectos relacionados ao seu estado biológico como saúde e produção.

Ainda, agricultores e profissionais citaram mais o termo bem-estar, mas não citaram características relacionadas a isso, como fizeram os consumidores. Diferenças entre visões de diferentes grupos de pessoas, como o encontrado neste estudo, são reportadas por outros autores em outros lugares do mundo (Te Velde et al., 2002; van Asselt et al., 2018).

Especificamente, a diferença na ênfase dada nos diferentes aspectos que abrangem o conceito de bem-estar animal entre os consumidores e os dois grupos envolvidos na produção animal, também é relatada em outros estudos na área de bem-estar animal, em que leigos geralmente são mais preocupados com naturalidade do sistema de produção (Lassen et al., 2006; Prickett et al., 2010) e os estados emocionais dos animais (Te Velde et al., 2002; Vanhonacker et al., 2008) do que com aspectos relacionados ao funcionamento e estado biológico dos animais.

Considerando a escassez de pesquisas sobre bem-estar animal em países do hemisfério sul, este estudo aponta que bem-estar animal em uma granja leiteira é um tema importante para todos os participantes, tanto profissionais das agrárias e agricultores quanto consumidores, conforme relatado em estudos recentes no Brasil, Chile e Colômbia (Cardoso et al., 2017; Rucinque et al., 2017; Yunes et al., 2017; Lemos Teixeira et al., 2018). Isso significa que bem-estar animal está se tornando um tema crescente no Brasil e a indústria leiteira deve se atentar a isso. Porém, este estudo aponta que a indústria deve não só considerar o tema de bem-estar na produção de leite, como deve se atentar ao significado que o termo tem para os diferentes grupos de pessoas. Não haverá uma solução para a questão se as pessoas entendem o termo de maneiras diferentes. Isso significa que a indústria leiteira deve entender o que significa bem-estar animal para os consumidores e incorporar práticas que estejam alinhadas com as expectativas desse público.

Se os profissionais das agrárias, que são quem assessoram os agricultores, entendem o conceito simplesmente pelo funcionamento biológico, mesmo incorporando bem-estar nas granjas – na sua visão – essas práticas não estarão alinhadas com a expectativa do público leigo que quer mais: quer não só que os animais estejam saudáveis e produzam bem, querem que não passem por sofrimento e que vivam vidas mais naturais.

A produção a base de pasto parece ser, segundo este estudo, um ponto em comum que uma granja leiteira ideal deve considerar. Mesmo que por diferentes motivos, o sistema a base de pasto é um ponto convergente. Apesar do aumento significativo de confinamentos no Brasil, agricultores que queiram se alinhar às expectativas do dos consumidores devem levar em consideração a produção a base de pasto. Além da produção a base de pasto ser mais natural para os animais, quando bem manejada também é positiva em relação ao ambiente, por estocar mais carbono do que cultivos comuns de milho, por exemplo (Seó et al., 2017).

A rejeição dos consumidores ao que eles chamaram de químicos também aparece em estudos nos Estados Unidos e Europa em relação aos antibióticos especificamente (Clark et al., 2016; Pieper et al., 2016) e em outros estudos feito com consumidores brasileiros (Yunes et al., 2017). Foi surpreendente que apenas 4 profissionais das agrárias mencionaram o uso de antibióticos, se considerarmos a preocupação que organizações internacionais estão mostrando sobre a necessidade de redução de uso na produção animal (Van Boeckel et al., 2017).

Os extensionistas possuem um papel especial para contribuir com esse esforço, e segundo Magouras et al. (2017), entender as atitudes desse público sobre essa questão é um dos maiores avanços para essa redução. Porém, ainda que seja importante conhecer a opinião dos envolvidos sobre esse assunto, isso não será barreira para essa mudança na produção animal, já que é uma tendência global.

Muito interessante foi agricultores e profissionais mencionarem frequentemente aspectos sociais à granja leiteira ideal, principalmente a ligação entre o uso de tecnologias e maquinários como estratégia para diminuir o trabalho das pessoas. Além disso, esses dois grupos de participantes mencionaram uma questão muito importante no Brasil atualmente que é a sucessão rural na agricultura familiar. Questões produtivas, econômicas e sociais determinam se a próxima geração irá permanecer no campo (Spanevello, 2008). Conflitos internos na família, e a carga de trabalho que inclui finais de semana e feriados mas não resulta em renda extra, são determinantes para a manutenção da agricultura familiar (Stropasolas, 2011). Para dar uma dimensão da contemporaneidade do assunto, no Brasil foi criado em 2015 pelo extinto MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) o Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural com o objetivo de criar e fomentar políticas públicas para garantir que os jovens permaneçam no campo com qualidade de vida (MDA, 2015).

Considerando que 60% da produção de leite provêm da agricultura familiar no Brasil (IBGE, 2009), essa é uma questão muito importante no país e que deve ser discutida. Apesar das idades dos diferentes grupos estarem bem distribuídas de acordo com o censo demográfico (IBGE, 2012), boa parte dos participantes envolvidos na produção animal (agricultores e profissionais), eram do sexo masculino. Isso também vai ao encontro do censo agropecuário de 2009 que aponta que 87% das propriedades agrícolas são dirigidas por homens (IBGE, 2009). Nesse contexto, apenas uma participante do sexo feminino levantou essa questão de gênero, sendo este um fator particularmente importante na ciência do bem-estar, pois é relatado em um estudo de revisão com 80 artigos que mulheres são mais preocupadas com bem-estar animal do que homens (Clark et al., 2016). No Brasil isso ainda é mais importante, já que a atividade leiteira era considerada uma atividade feminina até anos recentes, antes da modernização da produção de leite (Magalhães, 2009). Isso indica que, no contexto da produção de leite familiar no Brasil, mulheres têm potencialmente um importante papel no sentido de promover mudanças na área de bem-estar animal.

Sugerimos um engajamento entre diferentes grupos de pessoas para que possam discutir e alinhar suas expectativas em relação à produção de leite. Tal engajamento poderia promover a reflexão dos consumidores a respeito da realidade econômica e social da produção leiteira; aqueles envolvidos com a produção - agricultores e profissionais, incluindo extensionistas, que ao entenderem as expectativas dos consumidores a respeito de como deveria ser a produção de leite, poderiam promover mudanças ou estratégias de comunicação efetivas com o público.

Sobre as autoras do artigo:

Clarissa: Eng. Agrônoma, Mestre e Doutora em Agroecossistemas (UFSC) com período sanduíche na University of British Columbia (Canada). (para uma descrição mais detalhada poderia acrescentar): Durante a graduação e pós-graduação, fez parte do Laboratório de Etologia Aplicada e Bem-Estar Animal (LETA), e do Núcleo de Pastoreio Racional Voisin (PRV) da UFSC, desenvolvendo trabalhos de pesquisa e extensão nas áreas de etologia, bem-estar animal principalmente na produção de leite, e produção de leite a base de pasto através do PRV - uma tecnologia agroecológica de manejo de pastagens. Seu maior interesse é no desenvolvimento de sistemas de agricultura sustentáveis do ponto de vista ambiental econômico e social. Academicamente possui experiência principalmente em pesquisa qualitativa na área de atitudes de pessoas em relação à produção animal, com ênfase na sustentabilidade social dos sistemas de produção animal.

Maria José: Professora de Etologia e Bem-Estar Animal, Mediaca Veterinária (UFRGS) e PhD em Zootecnia pela University of Western Australia. (para uma descrição mais detalhada poderia acrescentar): Desenvolvo atividades de ensino, pesquisa e extensão na área de Etologia Aplicada e Bem-Estar Animal, junto ao Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural e o Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas, e através de colaborações internacionais. O meu trabalho visa o desenvolvimento de agroecossistemas sustentáveis, através da compreensão e melhoria do bem-estar dos animais no contexto das várias implicações éticas, ambientais, sociais e econômicas das práticas e dos sistemas de criação e produção animal.

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Para baixar o artigo na íntegra e gratuitamente até o dia 14/01, acesse > https://authors.elsevier.com/a/1YRi150bFLZJx

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ALOISIO BASTOS

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - ESTUDANTE

EM 28/03/2019

No nosso país a automação ainda é uma tecnologia muito cara. Por isso a maioria dos produtores estão como como estão. Uns se matam de trabalhar e fazem por amor e a atividade passou de geração para geração. Também não sabem fazer outra coisa. Outros estão querendo largar a atividade ou já desistiram. E existem as mega fazendas onde um grupo de investidores injetam dinheiro para modernização através da automação o que reduz custo, tempo, agiliza a produção, melhora a qualidade etc.O problema está no pequeno produtor, o que fazer para melhorar sua qualidade de vida? Convencê-lo a não sair da atividade.Esse é o problema desta Nação. Como financiar pequenas produções.Seja no leite ou outra atividade econômica.
PEDRO H OLIVEIRA

PESQUISA/ENSINO

EM 12/03/2019

Excelente artigo que mostra o ABISMO entre o consumidor e o produtor rural, com a indústria no meio não estreitando esse lado. Precisa haver maior trabalho de conscientização e propagação de qualidade do leite, desde a ordenha até os supermercados e consumidores.
PEDRO H OLIVEIRA

PESQUISA/ENSINO

EM 01/03/2019

Excelente artigo que mostra o ABISMO entre o consumidor e o produtor rural. E no meio a indústria que ganha muito e é enforcada pelo governo, que não assessora o produtor, que muitas vezes não tem gestão nenhuma na propriedade. Uma equação de difícil resolução, mas que pode ser trabalhada SIM.
FELIPE ALARCON PERES

EM 28/02/2019

Estudo interessante. A mentaliade do consumidor esta mudando, e o desafio seria captar suas necessidades e promover uma agricultura sustentavel em ambientes altamente produtivos.