Atraídos pela maior generosidade do fluxo de caixa, que permite entradas todos os dias e tem remuneração mensal, muitos pecuaristas se aventuraram na atividade, mesmo sem ter um conhecimento mais específico do comportamento econômico da mesma. Desse modo, mesmo com a economia estabilizada, a falta de profissionalização derrubou os aventureiros e os problemas gerenciais tomaram proporções avantajadas, definindo quem permanece no mercado. Aliado a isso, o poder do mercado informal brasileiro para consumo de leite, a falta de união do setor produtivo, a realização de uma política de abertura comercial (importações) sem planejamento e a valorização do câmbio, resultaram em uma oferta de preços baixos para o produtor.
Neste contexto é imperativo que o produtor de leite gerencie melhor a sua atividade, independente da escala de produção que explora. Uma maior eficiência na utilização dos fatores produtivos (animais, mão-de-obra, terra, recursos financeiros, etc.) e a manutenção de alguma capacidade para investimento são essenciais para qualquer atividade manter-se rentável, principalmente a pecuária leiteira. Mas, qual fator atacar primeiro? O que realmente é oneroso e proporcionaria as maiores reduções em custo, caso este fator fosse melhor gerenciado. Para tentar responder e entender estas questões, analisaremos um trabalho apresentado na última Reunião Anual da SBZ em Recife/PE, onde foi estudada a viabilidade econômica de algumas propriedades produtoras de leite no Estado de São Paulo.
O trabalho realizado por Márcia Saladini Vieira Salles, Holmer Savastano Júnior e Rubens Nunes avaliou parâmetros técnicos e econômicos de propriedades que tinham sistema de produção baseados no uso de pastagens e fornecimento de silagem de milho como suplementação na seca. As propriedades avaliadas produziam de 250 a 2.500 litros de leite por dia, pela exploração de gado da raça Holandesa ou Girolanda.
Das seis propriedades avaliadas, apenas duas obtiveram custo unitário da atividade menor que a receita unitária. As demais propriedades são deficitárias e não devem permanecer no mercado por muito mais tempo. O quadro abaixo mostra o resultado do estudo e deixa claro no que se deve investir para que sejam obtidas as maiores reduções em custo na atividade de produção de leite. É interessante observar também a influência do gerenciamento neste quesito e, caso se invista pouco neste fator, o resultado é trágico.

Nos números acima apresentados, no item custos fixos estão inclusos as despesas com a depreciação de máquinas, veículos, equipamentos, construções e benfeitorias. Além disso, estão considerados o custo de oportunidade dos animais e terra e o investimento com o seguro destes fatores. O custo variável representa as despesas com os itens demonstrados por último, ou seja, alimentação, mão-de-obra, manejo dos animais (sanidade e reprodução), energia elétrica, combustíveis, reparos (máquinas e benfeitorias), contadores, impostos, taxas, etc.. As receitas consideradas para a avaliação foram a venda do leite, a venda de animais e o leite consumido internamente na propriedade, que teve seu valor computado também como custo (bezerras).
Os autores deixam claro que o trabalho não tem a pretensão de ser considerado amostra do que acontece com o comportamento econômico da maioria das propriedades leiteiras no Brasil. Porém este estudo serve para a retirada de algumas conclusões importantes.
Um fato interessante observado no quadro acima é que não é coincidência as fazendas B e D apresentarem os piores resultados, pois elas têm uma participação do custo muito grande no item "outros". Como estas são propriedades que produzem os menores volumes de leite, supõe-se que o fator escala, neste caso, faz a diferença. Porém, com um melhor gerenciamento dos seus recursos, reduzindo seus custos no item "outros", as propriedades em questão teriam melhor resultado econômico, dependendo menos da escala de produção.
Realmente o fator que mais onera a produção é a alimentação. Mesmo em casos onde a propriedade tem custo operacional mais baixo do que a receita obtida, é este o fator mais oneroso. Assim, nos parece óbvio que este seja o ponto chave de definição de rentabilidade e viabilidade em pecuária leiteira. Os esforços em gerenciamento devem ser centralizados nele, na obtenção de uma comida para os animais mais barata. Isto quer dizer produção mais eficiente e uma administração que garanta preços mais atrativos na aquisição de outros insumos, principalmente fertilizantes e alimentos concentrados.
Salientamos que esta análise serve para os casos demonstrados neste trabalho; para propriedades com estrutura de distribuição de custos diferentes, a ação gerencial necessita ser revisada para ser adequada a cada situação.