Viabilidade da produção orgânica de leite no Brasil
Publicado por: MilkPoint
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A produção orgânica de leite é um processo recente na agropecuária nacional, com escassas informações sobre sua viabilidade econômica. Com pouca oferta no mercado e pagamento diferenciado, embora ainda apresentando custos de produção mais elevados em relação ao convencional, esse produto pode constituir uma alternativa interessante para a atividade leiteira. Sem contar com os eventuais ganhos ambientais decorrentes desta de exploração.
O artigo propõe uma análise comparativa entre dois sistemas de produção de leite completos: um convencional e um orgânico. O objetivo foi avaliar a viabilidade econômica destes sistemas, usando-se, como ferramenta, um modelo de simulação desenvolvido pela equipe técnica da Embrapa Gado de Leite.
Para o sistema convencional, adotou-se características comuns a sistemas de produção em Minas Gerais, tais como:
- Área de 100 ha para a produção de alimentos (pastagens, milho, etc.);
- Rebanho mestiço Holandês (3/4) x Zebu (1/4);
- Pastejo rotacionado, com suplementação concentrada para vacas em lactação;
- Produção média de 12 litros de leite por vaca em lactação/dia;
- Total de 140 vacas, sendo 70% em lactação;
- Duração de lactação de 300 dias, 34 meses de idade ao primeiro parto;
- Taxa de lotação das pastagens de 2,5 UA/ha;
- Controle de ecto e endoparasitos por meio de carrapaticidas e ivermectinas;
- Uso de antibióticos no tratamento e prevenção das mastites;
- Descarte dos machos na primeira semana de vida.
A caracterização do sistema orgânico foi elaborada com base em dados obtidos a partir de entrevistas com produtores certificados ou em processo de certificação em diferentes regiões do país. As principais características foram:
- Área de 100 ha destinadas à exploração leiteira (pastagens, milho, etc);
- Rebanho composto de animais Zebu e seus cruzamentos (1/2 H x Z);
- Manejo em pastejo rotacionado, com suplementação de alimento concentrado somente para as vacas com produção superior a 10 litros de leite por dia;
- Produção média de 8 litros de leite por vaca em lactação/dia;
- Total de 81 vacas, sendo 60% em lactação;
- Duração da lactação de 270 dias e 36 meses de idade ao primeiro parto;
- Taxa de lotação das pastagens de 1,5 UA/ha;
- Controle de ecto e endoparasitos, realizado por meio de fator homeopático, utilizado também no tratamento e prevenção das mastites;
- Neste sistema previu-se a recria dos machos até um ano, considerando a necessidade da presença do bezerro como estímulo para a liberação do leite durante a ordenha e a eventual procura por bezerros criados em um sistema orgânico de produção, como reprodutores.
Nos dois sistemas, considerou-se a utilização de pastagem de Brachiaria spp. No sistema orgânico foi adotado o consórcio da gramínea com Stylosanthes guianensis. A suplementação no período da seca foi realizada utilizando cana-de-açúcar e silagem de milho, dependendo do nível de produção.
No sistema convencional foi usada uma dieta à base de cana-de-açúcar com 1% da mistura uréia e sulfato de amônia, enquanto que no orgânico, utilizou-se cana-de-açúcar em associação com o guandu (Cajanus cajan).
Os indicadores de tamanho e os índices de eficiência técnica e produtividade do sistema orgânico foram menores do que os observados no convencional. Estas diferenças foram atribuídas, principalmente, à necessidade de utilização de animais de raças mais rústicas, resistentes a parasitos que, muitas vezes, são menos produtivas. Além disso, ocorreu redução na capacidade de suporte das pastagens e dos índices de produtividade da terra (litros de leite por ha/ano) em conseqüência da não utilização de adubos químicos na formação e manutenção das pastagens.
Quanto ao desempenho econômico o sistema orgânico apresentou custos totais relativamente mais altos por litro de leite produzido. Isso se explica, em parte, pelo custo do capital que, neste sistema foi relativamente mais elevado, devido aos menores índices de produtividade (por animal e por área de pastagem) em comparação àqueles observados no convencional.
No que se refere apenas a produção de leite, o custo total para o sistema orgânico foi de R$ 0,65 por litro de leite. Cerca de 50% maior do que o observado no sistema convencional. O custo operacional total foi maior em 35%. Entretanto, o custo operacional efetivo, representado pelo desembolso, foi maior em apenas 15%.
Esta diferença pode ser atribuída ao menor desembolso no sistema orgânico, que apresentou uma diminuição de 39% do dispêndio com a alimentação concentrada, em comparação àquela verificada no convencional. Este fato deveu-se à limitação imposta pelas Certificadoras quanto ao uso de insumos externos num sistema orgânico de produção.
O produto do sistema orgânico, por ainda constituir um mercado com oferta menor do que a demanda, apresenta um valor de mercado aproximadamente 70% mais elevado do que o valor praticado para o produto convencional. Para um preço pago ao produtor com esse diferencial, a taxa de remuneração do capital obtida no estudo foi maior para o orgânico do que a obtida no convencional (5% versus 2% ao ano, respectivamente).
O resultado da taxa de retorno menor para o sistema convencional pode ser devido ao baixo preço do produto utilizado no estudo, apenas R$ 0,40 (preço médio vigente no segundo semestre de 2005 no mercado de MG).
A avaliação do sistema de produção orgânico de leite, com base nas exigências atualmente preconizadas pelas Certificadoras, apresentou redução de produtividade por vaca (33%); da terra (63%); da mão-de-obra (47%) e aumento do custo total por litro de leite em 50%. Para que sua produção possa ser economicamente viável é necessário um preço ao produtor de, no mínimo, 70% superior ao praticado para o leite convencional. Situação que deve perdurar até que se alcance o equilíbrio entre a demanda e a oferta do produto diferenciado.
Fonte:
Aroeira, L. J. Stock, L. A., Assis, A. G., Morenz, M. F., Alves, A. A. Sistema orgânico de produção de leite e sua viabilidade no Brasil, enviado à Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, João Pessoa. 2006.
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1 Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, emails: laroeira@cnpgl.embrapa.br, stock@cnpgl.embrapa.br.
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ARACAJU - SERGIPE
EM 22/05/2006
Se a única razão para se produzir organicamente for econômica, a longo prazo, com o equilíbrio da oferta/demanda (se é que irá acontecer), o negócio deixará de ser interessante naquela região, embora nela, obviamente, se concentre o grande mercado consumidor para lácteos orgânicos.
Outro ponto a considerar é que indicadores como leite/vaca/ano, % de vacas em lactação e idade ao primeiro parto (mesmo considerando animais F1, porém de melhor linhagem), podem ser elevados para números um pouco acima dos considerados na simulação.
Abstraindo outras variáveis, leva-se em conta apenas que o uso deste tipo de animal reduz em muito o descarte e o consequente custo de reposição das vacas, não só pela rusticidade em si, como também pelo menor desgaste metabólico e pelo bem-estar que lhe é assegurado nos sistemas orgânicos, sem a exposição frequente a biocidas sintéticos ao longo de sua vida.
Por outro lado, considera-se que em sistemas de produção orgânicos voluntariamente ou compulsoriamente subtraem-se, nas propriedades, superfícies maiores do processo produtivo para preservação ambiental, o que por si só já constitui uma restrição intrínseca à competitividade, quando os indicadores cotejados sejam apenas de eficiência técnica ou econômica.
Enquanto serviços de preservação ambiental ou da diversidade ainda não forem de algum modo remunerados, parece razoável que tais custos sejam embutidos no preço do produto final, e conscientemente pagos por consumidores mais reflexivos, cientes que ao comprarem um produto superior como o leite orgânico, não só cuidam de sua saúde, como também do meio-ambiente.
Orlando Monteiro de Carvalho Filho, Produtor Orgânico de Leite no Nordeste Semi-árido