Vacas que produzem leite "light"

Há alguns dias um famoso programa da televisão nacional apresentou as pesquisas que estão fazendo com que as vacas produzam leite com menor teor de gordura.

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Há alguns dias um famoso programa da televisão nacional apresentou as pesquisas que estão fazendo com que as vacas produzam leite com menor teor de gordura. Este assunto já foi abordado anteriormente nesta seção (Ácido Linoleico Conjugado: oportunidade técnica e de mercado para a nutrição de vacas em lactação - 05/05/2000). No Brasil, estas pesquisas estão sendo conduzidas na ESALQ-USP, em Piracicaba. Em outras partes do mundo as pesquisas deste tema também têm sido freqüentes.

Por mais incoerente que pareça, é o consumo de um tipo específico de gordura, o ácido linoleico conjugado (ALC), que faz com que as vacas produzam leite com menor teor de gordura (e maior teor de ALC).

Este grande volume de pesquisas tem seus motivos: de um lado, o ALC teria efeito contra alguns tipos de câncer, o diabetes, a arteriosclerose, a obesidade, além de modular o sistema imunológico de quem o consome. No entanto, para que este efeito seja evidente, o leite precisa ter seu nível de ALC aumentado, o que pode ser feito pelo seu fornecimento através da dieta dos animais.

Adicionalmente as pesquisas têm demonstrado que o consumo de ALC por vacas em lactação provoca a diminuição do teor de gordura do leite, sem que isso implique em problemas para os animais (como ocorre quando os animais têm acidose, que também provoca diminuição da gordura, porém com conseqüências indesejáveis aos animais). Este poderá se tornar numa forte argumento de marketing do leite pois o mercado tem cada vez mais se voltado para produtos com menor teor de gordura e, neste caso, o leite "light", "enriquecido" com ALC, seria produzido diretamente pela vaca, sem manipulação pelos laticínios.

É com base nesta diminuição do teor de gordura que outra linha de pesquisas têm estudado os possíveis efeitos benéficos (indiretos) do ALC para os próprios animais. É o que trataremos neste texto.

A hipótese é que esta "economia" de gordura, que é uma fonte concentrada de energia, melhoraria o balanço energético das vacas, especialmente no início de lactação. Esta energia "economizada" poderia então ser direcionada para maior produção de leite e eventualmente melhor reprodução. Os estudos parecem comprovar esta teoria.

É o que mostra um trabalho recente, que acompanhou 30 vacas holandesas divididas em dois grupos: controle, que recebeu diariamente na dieta 116 gramas de uma fonte comercial de ácidos graxos originados do óleo de palma, na forma de sais de cálcio (gordura protegida) e o grupo teste, que recebeu 126 gramas de uma mistura de ácidos graxos de óleo de palma dos quais 42,8 gramas foram substituídos por diversas formas (isômeros) de ALC. As duas dietas tinham a mesma quantidade de gordura e estas misturas foram fornecidas separadamente uma vez ao dia. Os tratamentos tiveram início 14 dias antes da data prevista para o parto e continuaram até 140 dias pós-parto. As vacas foram ordenhadas 3 vezes ao dia e receberam as mesmas dietas no pré e pós-parto.

A avaliação de alguns parâmetros metabólicos das vacas no período pré-parto não demonstrou qualquer diferença significativa entre os tratamentos, conforme pode ser observado na tabela 1. Segundo os autores isto sugere que a suplementação com ALC no pré-parto não diminui substancialmente a dependência do animal das reservas de gordura corporal.

Tabela 1: Desempenho e parâmetros sanguíneos pré-parto
 

 


Os dados do período pós-parto foram analisados em dois períodos distintos: do parto até oito semanas de lactação e do parto até 20 semanas de lactação. Os resultados são resumidos na tabela 2.

O fornecimento do suplemento contendo ALC provocou uma tendência (P = 0,12) de aumento na produção de leite (cerca de 3 kg/vaca/dia), mas este aumento não foi evidente antes da terceira semana em lactação. Paralelamente, as vacas suplementadas com ALC tiveram diminuição significativa (P = 0,001) do teor de gordura de seu leite, quando comparadas com as vacas controle, o que determinou menor produção total de gordura ao final do experimento. De forma semelhante à produção, este efeito só foi evidenciado a partir da terceira semana em lactação.

Tabela 2: Consumo, produção e composição do leite

 

 



Ponto interessante é que esta produção de leite relativamente maior praticamente compensou o menor teor de gordura do leite, de forma que a produção uniformizada para 3,5% de gordura durante cada semana de lactação foi essencialmente idêntica (P = 0,74) entre as vacas nos dois tratamentos. Uma vez que o consumo de matéria seca foi similar entre os tratamentos e a energia "eliminada" na forma de leite com 3,5% de gordura não foi afetada pelos tratamentos, o balanço energético não foi afetado significativamente.

O autor afirma ainda que houve uma tendência das vacas tratadas com ALC, que produziram mais leite, também produzirem maior quantidade de lactose (P = 0,15). Segundo ele, a depressão na síntese de gordura permitiu maior síntese de lactose pela glândula mamária, possivelmente em função da energia economizada.

Comentário do autor: neste experimento o teor de gordura teve um decréscimo de cerca de 13%. Outros trabalhos demonstram reduções bastante superiores (40-50%). Ainda é preciso, portanto, maior domínio sobre esta suplementação, para que se possa controlar a composição do leite, de forma que o leite produzido possa atender alguma exigência específica do mercado. Isto parece depender da determinação correta das quantidades e proporções das diversas formas (isômeros) de ALC no suplemento. Isto feito, esta suplementação poderá permitir incrementos de produção, em condições de produção de leite com teor de gordura acima do mínimo aceito pelos laticínios, já que estes normalmente têm um deságio no preço, quando o teor de gordura é inferior ao limite mínimo, mas não pagam adicionalmente pelo leite mais gordo. Para algumas situações, como vacas alimentadas a pasto, que normalmente têm maior teor de gordura no leite, e talvez até mesmo no caso de algumas raças como a Pardo-Suíça e a Jersey, que geneticamente produzem leite mais gordo, este redirecionamento da energia pode representar um significativo salto em produção. Também seria interessante melhor entender os benefícios do consumo de ALC para a saúde dos animais: um eventual efeito positivo no sistema imunológico, por exemplo, também seria vantajoso.

Fonte: Lundeen, T., 2001. Dairy Cows fed CLA may have increased yield, decreased milk fat. Feedstuffs, November 12.

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Material escrito por:

José Roberto Peres

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