De maneira geral, grãos de cereais, em especial o milho, representam a principal fonte de energia em dietas de vacas leiteiras de alta produção. O milho sempre foi um produto de disponibilidade constante e preço acessível. Em função de seu valor energético, dado principalmente pelo elevado teor de amido, sempre foi preferido por técnicos e criadores para compor as dietas dos rebanhos leiteiros. Em nosso país é limitada a disponibilidade de outros grãos de cereais, com características semelhantes às do milho, de forma que faz-se necessário buscar alimentos que, mesmo com características bastante diferentes, possam substituir os grãos de milho na formulação de dietas para rebanhos leiteiros.
Uma comparação feita por ROSA (2002), mostra que em julho de 2001 o produtor brasileiro precisava de 410,89 litros de leite B para cobrir os custos de 1 tonelada de milho, e que em julho de 2002 essa relação era de 580,86 litros de leite B, para cobrir a mesma tonelada de milho. Com base nos dados publicados pelo Boletim do Leite, do CEPEA - ESALQ/USP, em junho de 2003 eram necessários de 550 a 600 litros de leite B para cobrir os custos de 1 tonelada de milho, e em abril de 2004 para cada tonelada de milho eram necessários 640 litros de leite B. Ou seja, o milho pesa cada vez mais no bolso do produtor de leite.
A inclusão de fontes energéticas alternativas, especialmente os subprodutos da agroindústria em dietas para vacas leiteiras, tem como principal objetivo baixar os custos de alimentação, mantendo os níveis de produção de leite. Outro benefício da inclusão de subprodutos pode ser a redução no teor de amido das dietas, com concomitante aumento nos teores de fibra digestível, contribuindo para melhoria do ambiente ruminal. Dentre as várias possibilidades, a polpa cítrica e o farelo de glúten de milho (FGM21) despontam como alternativas bastante interessantes para substituir, pelo menos em parte, o milho em grãos das dietas de vacas em lactação.
Conforme citado por PEREIRA et al. (2004) em artigo recentemente publicado no BeefPoint (clique aqui para ler o artigo, a polpa cítrica é um alimento energético que possui características diferenciadas quanto à fermentação ruminal, caracterizando-se como um produto intermediário entre volumosos e concentrados. A polpa cítrica possui teor de energia bastante semelhante ao milho. Porém, possui um teor mais alto de fibra em comparação ao milho, característica que a torna um alimento bastante distinto e particularmente interessante em dietas de vacas em lactação. Esta fração fibrosa é de alta digestibilidade, sendo composta principalmente por celulose. Além desta característica, a polpa cítrica contém alto teor (25-35%) de pectina, um carboidrato estrutural cuja degradação é bastante elevada no rúmen. Deste modo, apesar de possuir teor energético semelhante aos grãos de cereais, a quase ausência de amido confere à polpa cítrica um padrão de fermentação ruminal mais estável, com menor queda do pH, diminuindo os riscos provenientes do fornecimento excessivo de grãos (acidose, problemas de casco, deslocamento de abomaso, etc.), que comprometem o desempenho animal nos aspectos reprodutivo e produtivo - CARVALHO (1995).
Em função de sua comprovada eficácia, a polpa cítrica já vem sendo largamente utilizada em dietas de rebanhos leiteiros, em diferentes níveis de inclusão. Em trabalho recente realizado na ESALQ/USP, em Piracicaba/SP, a substituição de até 75% do milho da dieta por polpa cítrica manteve a produção de vacas sob pastejo em torno de 19 kg leite/dia, não se observando diferenças em relação à dieta onde a única fonte energética do concentrado era o milho (Martinez, 2004).
Com relação ao FGM21, tecnicamente esse subproduto é o que sobra do grão de milho após a extração da maior parte do amido, glúten e germe, pelos processos de moagem e separação empregados na produção de amido e xarope de milho, sendo 2/3 de conteúdo fibroso e 1/3 de licor concentrado de maceração (BLASI, et al., 2001). O rendimento na produção de FGM21 é estimado em 11% do material original que chega na indústria.
FELLNER & BELYA (1991) dizem que em função de suas características - pobre em gordura e amido, e bastante rico em fibra altamente digestível - o FGM21 constitui-se numa ótima alternativa para inclusão em dietas baseadas em grãos e silagem de milho. Segundo os autores, por apresentar concentrações mais elevadas de FDA e FDN do que os grãos de cereais, a utilização do FGM pode levantar questões sobre a concentração energética e limitações ao consumo das dietas, mas os teores reduzidos de amido e elevados de fibra digestível podem ajudar a manter o pH ruminal em níveis mais desejáveis, otimizando a digestão da fibra, o que pode compensar possíveis diferenças na digestibilidade total das dietas.
Para testar a viabilidade da inclusão do FGM21 em dietas já contendo polpa cítrica em substituição à parte do milho, realizou-se recentemente outro trabalho na ESALQ/USP. As dietas foram formuladas através do programa NRC (2001) para serem isoprotéicas (16,6% PB) e isoenergéticas (1,54 Mcal/Kg ELl). Os ingredientes utilizados foram: silagem de milho, feno de gramínea, milho moído fino, polpa cítrica peletizada, farelo de glúten de milho, farelo de algodão, uréia, suplemento mineral e vitamínico e bicarbonato de sódio. Na Tabela 1 são apresentados os dados de produção e composição do leite, ingestão de matéria seca e nitrogênio uréico no leite.
A ingestão de MS (IMS) não foi afetada (P>0,05) pela inclusão do farelo de glúten de milho nas dietas, o que está de acordo com a revisão de BLASI et al. (2001), que mostra que em diversos trabalhos onde o farelo de glúten de milho foi incluído em dietas contendo silagem de milho como volumoso, não houve alteração na IMS. As produções de leite e de LCG-3,5% não foram afetadas (P>0,05) pela inclusão do farelo de glúten de milho, em substituição ao milho moído. O mesmo também foi observado por BLASI et al. (2001). Houve tendência (P<0,1) de aumento do teor de gordura do leite com a inclusão de farelo de glútem de milho. Essa tendência se refletiu numa maior eficiência de produção LCG-3,5%, com a dieta FGM20 apresentando valor significativamente mais alto para essa variável, conforme mostra a Tabela 1. De maneira geral, os dados sobre os efeitos da inclusão do farelo de glúten de milho nas dietas sobre o teor de gordura do leite são bastante contrastantes.
Tabela 1. Ingestão de matéria seca, produção e composição do leite e concentração de nitrogênio uréico no leite para os diferentes tratamentos.

FGM0= 20% milho moído fino; FGM10= 10% milho moído fino + 10% farelo de glúten de milho; FGM20 = 20% farelo de glúten de milho.; eficiência LCG = produção LCG/IMS; Pr>F= probabilidade de haver efeito significativo entre os tratamentos; EPM= erro padrão da média; LCG 3,5= leite corrigido para teor de gordura igual a 3,5%; IMS= ingestão de matéria seca; NUL= nitrogênio uréico no leite.
Já os valores do teor de proteína e produção de proteína do leite apresentaram redução com a inclusão do subproduto nas dietas, o que está em desacordo com a maior parte dos trabalhos revisados (BERNARD & MCNEILL, 1991, SCHROEDER, 2003). O teor de lactose no leite foi reduzido à medida que se incluía o farelo de glúten de milho nas dietas, apesar de a variação numérica ter sido pequena. Já a produção total de lactose no leite não foi afetada pelos tratamentos (P>0,05), bem como o teor de sólidos e a produção total de sólidos no leite. A concentração de uréia no leite apresentou efeito quadrático entre os tratamentos, conforme mostrado na Tabela 1, com os menores valores para FGM10.
Pelos resultados obtidos nesse trabalho pode-se concluir que a substituição dos grãos de milho pelo FGM21 em dietas de vacas leiteiras em confinamento, produzindo em torno de 25 kg leite/dia, pode ser uma alternativa viável, sempre que o custo do subproduto for vantajoso em relação ao do cereal. Deve-se lembrar que as dietas experimentais continham cerca de 18% de polpa cítrica na matéria seca, o que sugere que a combinação desses subprodutos pode ser uma alternativa bastante interessante, sempre que o preço for favorável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CARVALHO, M.P. Citros. SIMPÓSIO SOBRE NUTRIÇÃO DE BOVINOS, 6., Piracicaba, 1995. Utilização de resíduos culturais e de beneficiamento na alimentação de bovinos; Anais. Piracicaba: FEALQ, p. 153-169, 1995.
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1ESALQ/USP, Departamento de Zootecnia