Uma característica básica dos ruminantes é sua grande capacidade de digestão de fibras, através da ação dos microorganismos do rúmen. Em função disso, sempre se considerou que a atividade fibrolítica no rúmen não poderia ser significativamente aumentada pela adição de enzimas. Além disso, geralmente se assume que, pelo fato das enzimas serem solúveis, elas não resistiriam à atividade proteolítica no rúmen. Estudos recentes indicam que estes conceitos podem estar errados.
Em pesquisas desenvolvidas principalmente no Canadá, efeitos positivos da adição de enzimas fibrolíticas a dietas de ruminantes têm sido reportados recentemente, tanto para animais em crescimento quanto para vacas em lactação. Um bom exemplo destes resultados é o trabalho de RODE e colaboradores, que testou o uso de enzimas fibrolíticas em uma dieta à base de silagem de milho (24%); feno picado de alfafa (15%) e um concentrado à base de grãos de cevada laminados (61%). A mistura de enzimas utilizadas continha principalmente xilanase e celulase e foi adicionada na proporção de 1,3 g/kg de matéria seca da dieta. Um grupo de vacas recebeu a dieta tratada e outro serviu de controle (mesma dieta sem enzimas).
Os resultados obtidos são bastante interessantes. Não houve alteração na ingestão de matéria seca porém houve um significativo aumento da digestibilidade da dieta, conforme pode ser observado na tabela abaixo. Este aumento na digestibilidade proporcionou um aumento na produção de leite de 35,9 para 39,5 kg de leite/vaca/dia (P = 0,11), muito embora os teores de gordura e proteína do grupo tratado com enzimas tenha sido significativamente inferior (gordura 3,87% x 3,37% e proteína 3,24% x 3,03%, respectivamente para o controle e enzimas), o que acabou por igualar a produção de leite corrigida para gordura (34,4 x 35,8 kg/dia). Este menor teor de componentes não era esperado. Outros experimentos apresentaram incrementos de digestibilidade e produção sem este tipo de alteração.

Apesar destes resultados favoráveis outros experimentos serão necessários para que se entenda completamente a forma de ação das enzimas e as condições nas quais elas apresentam os melhores resultados.
Alguns trabalhos parecem indicar que a combinação de enzimas a ser aplicada deve ser específica ao tipo de forragem (fibra) em questão. Grande parte dos resultados positivos foi obtido em dietas baseadas em feno de alfafa. Outras combinações de enzimas possivelmente terão que ser desenvolvidas para dietas com maior participação de silagem de milho, por exemplo.
Aparentemente o método de aplicação da enzima é decisivo para obtenção de incrementos significativos na digestibilidade da fibra. A aplicação da enzima nos alimentos ao invés de colocá-la diretamente no rúmen parece aumentar sua efetividade. Existem também evidências de que sua efetividade aumenta quando aplicados a alimentos secos em comparação a alimentos úmidos, não havendo diferença se a aplicação é feita no concentrado ou em forragem seca (feno).
Alguns pesquisadores supõe que a aplicação das enzimas nos alimentos aumenta seu tempo de ação no rúmen pois, de outra forma, por serem solúveis, elas seriam rapidamente carregadas pelo fluído ruminal para fora do rúmen. É possível ainda que as enzimas não hidrolizem diretamente a fibra dos alimentos mas aumentem a atividade global das enzimas já existentes no rúmen, que seria sustentada ao longo do tempo pela lenta liberação das enzimas do alimento. Outra hipótese é que as enzimas adicionadas ao alimento facilitariam sua ligação com as bactérias, diminuindo o tempo necessário para a colonização e acelerando o processo de digestão.
Comentário do autor: embora os resultados ainda sejam inconsistentes, e sejam necessários maiores estudos para um perfeito entendimento da forma de ação e a correta forma de utilização, esta tecnologia parece ter evoluído recentemente e pode, num futuro, representar uma grande potencial para o melhor aproveitamento de dietas baseadas em forragens tropicais, como ocorre nas nossas condições, em função do naturalmente maior teor de fibra destas forragens e consequentemente de nossas dietas.
fonte: Rode, L.M. e colaboradores, 1999. J. Dairy Sci. 82(10):2121-2126; Yang, W.Z. e colaboradores, 1999. J. Dairy Sci. 82(2): 391-403