José Roberto Peres
Dando continuidade ao artigo anterior, apresentamos aqui as alterações esperadas para a nova versão no NRC gado de leite, a ser editada este ano.
1. Alterações na Ingestão de Matéria Seca (IMS).
Diferindo da última versão, a IMS deverá ser prevista baseada em dados reais de consumo. Na edição de 1989, a IMS era determinada pela divisão do requerimento energético do animal por uma assumida densidade energética da dieta. Esta era então a quantidade de matéria seca que o animal precisava consumir para atender seus requerimentos e não a estimativa da verdadeira quantidade que o animal consumiria. Com isso, freqüentemente os animais consumiam mais do que o indicado (principalmente vacas de baixa produção ou novilhas), o que pode provocar ganho de peso acima do desejado. No novo NRC, a equação para estimativa da IMS deverá ser baseada no teor de energia da dieta. No entanto, embora esta nova forma de cálculo deva estimar melhor a ingestão, ela não eliminará a necessidade de obtenção de valores reais controlados nas fazendas. As melhores estimativas de desempenho ocorrerão quando a IMS e o teor de nutrientes dos alimentos específicos para a situação de uma fazenda forem conhecidos e utilizados no modelo.
2. Proteína - Mudanças e Terminologia dos Nutrientes.
A nova versão irá incluir vários novos termos na definição dos nutrientes. Entender e começar a adotar estes novos termos fará a transição para o novo sistema mais fácil e rápida. Uma descrição destes novos termos é descrita abaixo:
Serão separados os requerimentos protéicos para o animal e para os microorganismos do rúmen. O sistema irá prever melhor a degradação da proteína no rúmen e estimar o fluxo de proteína não degradável para o intestino e produção de proteína microbiana que o velho sistema de proteína bruta.
Proteína microbiana ou bacteriana (PM ou PB) é definida como a quantidade de proteína produzida pela população de microorganismos do rúmen durante a fermentação dos alimentos. A quantidade e eficiência da PM produzida será variável, dependendo da fermentabilidade dos alimentos no rúmen, IMS e da quantidade e disponibilidade do nitrogênio na dieta.
O temo proteína não degradável no rúmen (PNR) irá substituir a proteína não degradável ingerida na descrição da proteína do alimento que escapa da degradação microbiana no rúmen. PNR é considerada a fração B não degradada mais a fração C (veja abaixo).
A proteína degradável no rúmen (PDR) substitui a proteína degradável ingerida como a proteína do alimento que é degradada no rúmen pelos microorganismos.
Proteína Metabolizável (PM) será definida como a proteína realmente absorvida do intestino, originária da proteína bacteriana e da fração da proteína dos alimentos não degradável no rúmen. Os requerimentos protéicos de novilhas serão expressos na forma de PM. A passagem de PNR e a estimativa de digestibilidade da PNR em cada alimento serão utilizadas para determinar a contribuição da PNR para a PM. No NRC de gado de corte, 1996, PM é definida como sendo PM x 0,64 + PNR x 0,8.
Frações da proteína a serem adotadas:
A - Rapidamente degradada no rúmen e consiste de nitrogênio não protéico, proteína solúvel e proteínas verdadeiras de rápida degradação.
B - Proteína que é degradada no rúmen, mas a taxas variáveis.
C - Consiste de proteína que é considerada não degradável no rúmen tanto por uma questão de taxa de passagem quanto por ser verdadeiramente não degradável.
3. Energia
O sistema básico de energia líquida permanecerá no NRC 2000. A energia líquida para Lactação (ELl), manutenção (ELm); e crescimento (ELc) serão utilizadas para expressar os requerimentos de energia. A energia metabolizável será a base para o cálculo dos requerimentos energéticos de novilhas e bezerros.
A maior alteração deverá ocorrer no valor energético dos alimentos, especialmente forragens de baixa qualidade, algumas gorduras e alimentos ricos em proteína. Os valores de energia não foram determinados dos velhos valores de NDT como utilizado nas versões anteriores, mas calculados como a soma dos carboidratos não fibrosos digestíveis, proteína bruta digestível, extrato etéreo digestível e fibra detergente neutro digestível. O efeito desta mudança é mínimo para a maioria dos alimentos, representando em média uma redução de 2% na energia líquida para lactação, quando comparado aos valores de 1989. Com isto a dieta média terá uma redução de aproximadamente 4% na energia líquida para lactação.
O Dr. Jim Linn apresenta ainda algumas sugestões para aqueles que têm sua atividade relacionada com a nutrição de gado leiteiro, e desejem se preparar para o NRC gado leiteiro 2000:
* Reveja ou estude sobre os novos termos e formas de cálculo para melhor entender os princípios e a dinâmica da fermentação ruminal. O que acontece com os alimentos no rúmen e os produtos produzidos a partir de sua fermentação ou que escapam a fermentação são a base para avaliação de como os alimentos atendem os requerimentos.
* Reveja a última edição do NRC para Gado de Corte, publicada em 1996. Esta será uma boa base para o entendimento dos novos conceitos em nutrição de ruminantes atualmente.
* Comece a formar sua própria biblioteca de dados, analisando os alimentos para mais do que as análises costumeiras.
* Tenha a mente aberta, nem todas as questões serão respondidas pelo novo NRC. Existem muitos pontos que nós acreditamos conhecer a resposta, mas não podem assim ser admitidos por não existir ainda informação suficiente para validá-los. No mundo de hoje, com rápida transferência de informações e tecnologia, afirmações, perspectivas ou simples observações podem ter um grande número de repetições e quando repetidas em número suficiente muitas vezes podem ser admitidas como "fato".
Comentário do autor: Um ponto que deve influenciar o balanceamento de nossas dietas é o novo método de cálculo da energia dos alimentos, já que nossas forragens têm alto teor de fibras (e consequentemente baixo teor de carboidratos não fibrosos). No entanto, talvez esta correção nos permita melhor estimar o real valor energético de nossos alimentos e com isto obter melhor desempenho de nossos animais.
fonte: Linn, J. & Torbert, L, 2000. In: 4th Annual PDHGA National Conference.
Uma visão do novo NRC para gado leiteiro - Parte II
Publicado por: José Roberto Peres
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