Suplementar com concentrados pode aumentar os lucros

Freqüentemente eu vejo técnicos, produtores e pesquisadores afirmando que o fornecimento de concentrados deve ser minimizado, por representar um fator crítico de elevação dos custos de produção.

Publicado em: - 2 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 14
Ícone para curtir artigo 0

Freqüentemente eu vejo técnicos, produtores e pesquisadores afirmando que o fornecimento de concentrados deve ser minimizado, por representar um fator crítico de elevação dos custos de produção. No entanto, a suplementação via de regra proporciona uma receita adicional, que deve ser comparada a esse aumento de custos. Será que o menor custo alimentar por litro de leite produzido e o lucro máximo ocorrem quando se minimiza o custo diário por vaca? É mais importante saber a margem de lucro que a suplementação com concentrados irá proporcionar do que manter uma estreita relação entre o fornecimento de concentrado e o volume de leite produzido. Afinal, o produtor não vive de custo mínimo, mas sim de lucro máximo.

Quando a elevação dos custos de alimentação é compensada por maior escala de produção e maior rentabilidade por animal e por área, a suplementação vale a pena. Claro que para isso é preciso que os animais respondam com eficiência à suplementação, o que não é problema para vacas especializadas bem manejadas. No entanto, quaisquer fatores que possam prejudicar essa eficiência, tais como falhas no manejo do pasto, utilização de animais não especializados, ocorrência de distúrbios metabólicos, doenças e parasitas, falta de conforto para os animais, etc., comprometerão a viabilidade da suplementação.

Vamos tentar imaginar uma situação hipotética em que uma fazenda que tem um ótimo manejo de pastos e consegue uma lotação média anual de 4,85 vacas/ha, com produção média de 10kg de leite/vaca/dia, exclusivamente no pasto, sem qualquer suplementação. Imaginemos que ao adotar a suplementação com concentrados a produção salte para 15 kg leite/vaca/dia, com um consumo de 5 kg concentrado/vaca/dia. Considerando que o pasto custo R$ 0,09/kg MS, o concentrado R$ 0,45/kg e o produtor esteja recebendo R$ 0,50/litro de leite (Cotação CEPEA de julho/2006), a situação ficará como mostrado na tabela 1.

Tabela 1. Impacto da suplementação com concentrados em sistemas de produção intensivos a pasto
 

Figura 1

(1) Consumo de 1 Kg de concentrado para cada 3 kg de leite

Nesse caso, a suplementação com concentrado resulta na quase duplicação da produtividade da área. Apesar de os custos de alimentação aumentarem em cerca de 2,8 vezes, a receita foi praticamente duplicada, e a margem sobre os custos de alimentação foi 34% maior.

Considerando que o custo de alimentação é dos maiores, senão o maior, dentro dos sistemas de produção de leite, a suplementação pode ter um impacto muito significativo na margem líquida do negócio. Se o produtor conseguir baratear o custo do concentrado, utilizando subprodutos e outros ingredientes alternativos, essa situação pode ficar ainda melhor.

Logicamente cada fazenda tem as suas particularidades, e os dados mostrados aqui não podem ser extrapolados para qualquer tipo de situação. O que todo produtor precisa ter em mente é que se trabalhar com um pasto bem manejado e com animais especializados, o uso de suplementos concentrados pode ser uma excelente ferramenta para aumentar a lucratividade do sistema.


 

Figura 2

Ícone para ver comentários 14
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Adauto
ADAUTO

CUIABÁ - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/05/2009



Prezado Alexandre,

Bom dia,

Apesar já do tempo discorrido do seu texto, a questão sempre será atual.

Minha questão é simples: então para ter o benefício do concentrado, eu preciso ter animais disponíveis para entrar em lactação(rebanho maior), pois o ganho está na verdade na folga que haverá no pasto. Se eu simplesmente der o concentrado(neste contexto de preços) com o plantel que tenho, estarei trocando seis por meia dúzia, sem falar nos custos de instalações necessárias e em mão de obra.



Alexandre M. Pedroso
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 23/03/2009

Prezado Thiago,

O período considerado é de um ano (365 dias). Note que isso é uma simulação, que visa apenas embasar o conceito de que a suplementação pode ser uma boa ferramenta para melhorar a lucratividade do sistema. Em qualquer fazenda produtora de leite será preciso ter uma alternativa volumosa para o período seco. Via de regra consideramos 180 - 210 dias como período de utilização possível dos pastos. No período restante é preciso lançar mão de alguma alternativa, seja na forma de forragem conservada, diferimento de parte da área, etc.

Att,

Alexandre
Thiago Bianchi Silveira
THIAGO BIANCHI SILVEIRA

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/03/2009

Prezado Alexandre,

Achei o texto fantástico, concordo plenamente com a visão de intensificar a produção por ha. Não consegui apenas entender o período de lactação utilizado para compor os cálculos. Se não me engano, você coloca 284 dias de lactação a pasto. Por acaso esta simulação se baseia em uma propriedade que esteja localizada em uma região com o período chuvoso compatível com essa lactação?

Faço essa pergunta porque em nossa região (Triangulo Mineiro) o período chuvoso não ultrapassa 180 dias, e não temos alternativas a não ser irrigar ou fornecer outro tipo de volumoso.

Att.
Thiago Silveira
Leandro Campelo Camara
LEANDRO CAMPELO CAMARA

SANTANA DE PIRAPAMA - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 28/10/2007

Gostaria de saber sobre o uso de mineral para vaca de leite, colocamos no cocho ou forçamos na ração?

<b>Resposta do autor:</b>

Leandro,

Isso depende do sistema de produção, mas de maneira geral recomenda-se misturar ao concentrado, pois isso favorece o controle do consumo.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
Luiz Temido
LUIZ TEMIDO

RIO DE JANEIRO

EM 03/01/2007

Você cita em uma das respostas que tem conseguido formular concentrados por menos de 0,35/dia. Você poderia dar um exemplo de formulação de baixo custo?

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Luiz,

À época dessa resposta a que você se refere (final de agosto), o concentrado em questão continha polpa cítrica, milho moído, farelo de algodão, uréia e mistura mineral.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/09/2006

Prezado Alexandre,

Sou criador de gado holandês e possuo, em minha propriedade, grande extensão de pastagens e instalações adequadas ao sistema de confinamento. Neste caso, o melhor é utilizar um sistema misto (semi-confinamento), onde as vacas passam o dia confinadas e, à noite, vão ao pasto? Ou o melhor é adotar só um dos sistemas, abandonando o outro?

Observe-se que já suplemento meu rebanho da maneira que você sugere (um quilograma de ração para cada três litros de leite produzido), na época das águas e, na seca, de acordo com as necessidades do animal e da qualidade do pasto. Todavia, indago a você se esta proporção não deve levar em conta, também, o coeficiente corporal do animal, ou seja, uma vaca grande, com carcaça avantajada, não deve ser alimentada em quantidades superiores às destinadas a uma vaca menor, já que necessita de maior quantidade de nutrientes para manter a solidez de seu sistema corporal?

Parabéns pelo excelente artigo e continue nos orientando.

Um abraço,
Guilherme Alves de Mello Franco

<b>Resposta do autor: </b>

Prezado Guilherme,

A adoção por um sistema específico depende de muitos fatores, e dar uma opinião sem conhecer a propriedade seria leviano de minha parte. De maneira geral, se você dispõe de área considerável, deve considerar a sua necessidade de intensificação, levando em conta o custo da terra, qualidade do rebanho, disponibilidade de instalações e equipamentos, etc.

Com relação à quantidade de concentrado, essa regrinha de "3 x 1" não é uma recomendação técnica, mas um critério adotado pelo mercado. Via de regra funciona em condiçõe médias, mas vc deve avaliar se isso é adequado para o seu rebanho. Sem dúvida que uma vaca grande vai necessitar de mais nutrientes para produzir e repor condição corporal do que uma vaca de porte pequeno. Como em sistemas a pasto normalmente as vacas são de pequeno porte, normalmente essa regrinha se aplica sem maiores problemas, mas se o perfil do seu rebanho é diferente, é preciso avaliar as reais necessidades das suas vacas.

Abs,

Alexandre
Marcelo Simão da Rosa
MARCELO SIMÃO DA ROSA

MUZAMBINHO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/09/2006

Este artigo, juntamente com as cartas apresentadas, são importantes para a elaboração da ração balanceada a ser trabalhada. Gostaria de saber qual fonte que poderia acessar, que pudesse explicar-me como surgiu essa proporção de 1 kg de ração concentrada para 3,0 kg de leite.

Abraços,
Marcelo

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Marcelo,

Ótima pergunta, pois essa recomendação carece de qualquer respaldo científico. É o que chamamos de senso comum, baseado num retorno econômico esperado para o fornecimento do concentrado. Ou seja, o fornecimento de 1 kg de concentrado tem que aumentar a produção de leite em 3 kg para valer a pena. Mas não há nenhuma base científica nisso.

Abs,

Alexandre
Paulo Roberto de Mello
PAULO ROBERTO DE MELLO

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/09/2006

Qual a sua experiência em cana hidrolizada para vaca em lactação? Qual a função dos probióticos ?
Parabéns pelo assunto bem relatado.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Paulo,

Particularmente, não tenho muita experiência com a cana hidrolizada, mas o intuito do tratamento é melhorar a digestibilidade da FDN, e, portanto, melhorar a utilização da cana pelas vacas. É sempre preciso avaliar o custo:benefício do tratamento. No meu entender, se a ração for corretamente formulada, não há necessidade de hidrolizar a cana para se ter bons resultados.

Quanto aos probióticos, sua principal função é melhorar o ambiente dentro do aparelho digestivo. Conceitualmente, os probióticos têm sido utilizados para designar um suplemento alimentar composto de cultura pura ou composta de microrganismos vivos com a capacidade de se instalar e proliferar no trato digestivo, inibindo microorganismos patogênicos e/ou criando condições mais favoráveis ao processo digestivo.

Abs,

Alexandre
Ody Hess Gonçalves
ODY HESS GONÇALVES

VIDAL RAMOS - SANTA CATARINA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 28/08/2006

Acompanho uma propriedade que possui rebanho de vacas hpb de alto potencial genético que trabalha com leite a pasto (em vias de certificação para leite orgânico), em pastgens consociadas de trevo (maioria), missioneira gigante (base) e outras (azevém, cornichão). Temos uma produção média de 12
kg/vaca/dia, mas os animais têm potencial para mais de 25 kg/dia.

Pela conta apresentada na matéria e o preço que estamos recebendo por litro (R$ 0,40), o aumento na produção pagaria apenas o concentrado.
Pergunto se este fornecimento de concentrado não seria benéfico (mesmo só empatando), já que ele melhoraria o escore corporal dos animais, diminuiria o intervalo entre partos, diminuição da quantidade de inseminações/concepção. Esta linha de raciocínio tem algum fundamento?

Obrigado pela atenção dispendida.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Ody,

O raciocínio tem fundamento sim. A suplementação tem vários benefícios, e a melhora do escore de condição corporal é uma delas. Com isso, vários outros benefícios também podem surgir, desde que se maneje corretamente os animais. Além disso, você também pode economizar em forragem, o que abre espaço para trabalhar com mais vacas, aumentando a produção total da fazenda. E como referência, aqui na região de Piracicaba (SP) estamos conseguindo formluar concentrados que estão custando menos de R$ 0,35/kg, utilizando subprodutos em larga escala.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
Rubens Pinheiro de Souza
RUBENS PINHEIRO DE SOUZA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 24/08/2006

Estimado Dr. Alexandre,

Seu artigo mostra de modo resumido e prático o que é necessário para avaliar a eficiência de ganho, o aumento da lucratividade.

Um forte abraço do amigo
Rubens
José Luiz Nelson Costaguta
JOSÉ LUIZ NELSON COSTAGUTA

SANT'ANA DO LIVRAMENTO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 23/08/2006

Exelente artigo, creio que deveria ser mais difundido. Foi muito prático, muito compreensível para todos os níveis de pessoas interessadas no assunto.
Francisco de Assis Lamar
FRANCISCO DE ASSIS LAMAR

SÃO LUÍS - MARANHÃO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/08/2006

Excelente o artigo, concordo plenamente com as colocações do Alexandre, ele realmente conhece o assunto. Quando os animais têm genética para responder, só pode compensar.

Alexandre, ouço falar muito em sistema de produção de leite a pasto, como um dos sistema mais econômicos e produtivos. Qual é realmente o mais econômico e produtivo, e o que mais favorece ao animal no diz respeito ao seu bem-estar, conforto, enfim, o deixa o animal mais à vontade?

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Francisco,

Obrigado pelo elogio, fico satisfeito por você ter gostado do artigo. Quanto ao sistema de produção, entendo que não existe um melhor do que o outro, tanto o confinamento quanto o sistema a pasto podem proporcionar conforto e bem-estar aos animais e boa lucratividade ao produtor. A decisão pela adoção de um ou de outro deve ser tomada considerando-se as condições de cada fazenda, custo da terra, topografia, recursos naturais, instalações disponíveis, etc.

Pelo que temos visto por aí, o sistema de produção a pasto, por exigir menos investimentos em instalações e equipamentos, se mostra mais adequado a pequenas operações. Mas ambos os sistemas podem ser igualmente rentáveis, desde qua sejam bem administrados.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
Heitor Gomes
HEITOR GOMES

NITERÓI - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/08/2006

Achei o artigo muito interessante e de grande utilidade, pois normalmente não conseguimos obter os dados apresentados.

Ou porque não temos a curiosidade de analisar, ou porque realmente é dificil para um produtor independente, que na maioria das vezes tem outros afazeres, acompanhar a coleta de dados necessários para uma conclusão como esta apresentada nesta matéria. Parabéns.

Heitor

<b>Resposta do autor:</b>

Obrigado pelo elogio, fico muito satisfeito por você ter gostado do artigo. O intuito é apresentar argumentos e ferramentas para ajudar na tomada de decisões na fazenda. Não tenho dúvidas de que a utilização de concentrados pode ser uma excelente alternativa para aumentar os lucros em sistemas de produção de leite.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
Luiz Carlos Soares Bemfica
LUIZ CARLOS SOARES BEMFICA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/08/2006

Analise correta. O que é mais importante é a margem líquida. Sugiro em próximas reportagens abordar aspectos ligados à elaboração de concentrados a partir de custos dos ingredientes, tentando minimizar custos do concentrado, mas mantendo a qualidade.

Existe algum recurso computacional que permita simular a composição do concentrado a partir de seus valores nutritivos e de seus custos, fixando os valores nutritivos que se quer chegar, e minimizando custos?

Luiz

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Luiz,

Há no mercado softwares que fazem formulação de rações de custo mínimo e/ou lucro máximo. Esas ferramentas fazem exatamente isso, a partir de critérios determinados pelo usuário, calcula qual a melhor alternativa a partir da composição dos ingredientes disponíveis.

Atemciosamente,

Alexandre Pedroso
Qual a sua dúvida hoje?