A substituição de uma fonte protéica vegetal, por uma com alta concentração de nitrogênio (N), como ureia de liberação lenta ou ureia, pode resultar na redução dos custos do confinamento além de minimizar os efeitos negativos da excreção de N pelos ruminantes para o meio ambiente. Isto ocorre porque a ureia tem um grande equivalente protéico e um preço inferior à proteína verdadeira, viabilizando sua utilização em sistemas de confinamento, nos quais a alimentação responde por grande parte do custo total de produção (Souza et al., 2004).
Os microrganismos ruminais são capazes de sintetizar proteína microbiana a partir de amônia e esqueleto carbônico, sendo o nitrogênio não-protéico (NNP) uma das fontes de amônia para os microrganismos. Portanto, a ureia pode atuar como fonte de NNP que tem a vantagem de geralmente apresentar custo mais baixo que uma fonte de proteína verdadeira, na mesma quantidade de nitrogênio (Oliveira JR, 2002).
Além disso, a grande vantagem dos ruminantes é a transformação de uma fonte de NNP em proteína de altíssimo valor biológico (proteína microbiana) quando comparada às fontes de proteína vegetal (Tabela 01). A proteína microbiana é equilibrada na maioria dos aminoácidos essenciais em relação à proteína do leite ou do tecido muscular (Bechielli et al., 2006).
Tabela 01 - Comparação dos perfis de aminoácidos essenciais (AAE) dos tecidos corporais e leite com os microrganismos ruminais e fontes comuns de alimentos para ruminantes.

A suplementação com NNP, além de fornecer amônia para síntese de proteína microbiana (principalmente em bactérias, mas também de maneira mais reduzida em protozoários e fungos) e ao menor custo (kg de N), apresenta outras vantagens:
1 - cria uma ação tamponante no rúmen, de modo a manter o pH em uma faixa mais adequada para a digestão da celulose;
2 - altera o hábito alimentar no sentido de refeições mais frequentes, resultando em um possível incremento na eficiência energética da dieta (Huber, 1994);
3 - diminui a excreção de resíduos nitrogenados para o meio ambiente.
A quantidade de N exigida pelos microrganismos é função da quantidade de energia disponível no rúmen, porque os protozoários e bactérias precisam de N e energia, simultaneamente, para que ocorra uma proliferação desejável (Lucci, 1997).
Em estudo realizado por Souza et al. (2004) houve substituição da proteína verdadeira da dieta por níveis crescentes de ureia (0; 0,4; 0,8 e 1,2% da matéria seca total) em cordeiros mestiços Ile de France x Corriedale confinados e não foi observado efeito nas características de desempenho e características de carcaça.
Os autores também avaliaram o custo das dietas, e verificaram redução do preço das rações, conforme foi adicionada a ureia, concluindo que a sua utilização foi uma prática viável, recomendando o nível de 1,2% de ureia na matéria seca total, tendo em vista o menor custo apresentado. Por outro lado, a suplementação protéica pode interferir no consumo de matéria seca, seja pela disponibilidade de frações nitrogenadas para a maximização da fermentação ruminal e síntese microbiana, ou pela quantidade e perfil de aminoácidos disponíveis para a absorção no intestino delgado (NRC, 1996 citado por Fernandes et al., 2009).
Neste contexto, Menezes et al. (2009) verificaram que a inclusão de até 2,0% de ureia na dieta de cordeiros aumentou o consumo de matéria seca, assim como trabalhos realizados por Zinn et al. (2003) com bovinos, que constataram um aumento no consumo de matéria seca com os teores crescentes de ureia e proteína bruta (PB) na dieta (0% de ureia e 10,5% de PB; 0,4% de ureia e 11,5% de PB; 0,8% de ureia e 12,5% de PB; 1,2% de ureia e 13,5% de PB).
Segundo Campling et al. (1960) e Russell et al. (1992), a ureia é prontamente utilizada para a síntese de proteína microbiana no rúmen e atua no crescimento das bactérias digestoras de fibra e quando utilizada em conjunto com alimentos ricos em constituintes fibrosos, mostra-se eficiente, pois "doa" grupamentos nitrogenados necessários para a síntese de proteína microbiana, estimulando o crescimento de bactérias que têm a função de degradar a parede celular.
Menezes et al. (2009) avaliaram o efeito da inclusão de níveis crescentes de ureia (0,1,2 e 3 % na matéria seca) em dietas contendo 60% de co produto de vitivinícolas desidratado e 40% de palma forrageira in natura em ovinos machos inteiros Santa Inês e verificaram que a inclusão de até 2,0% de ureia na matéria seca das dietas aumentou o consumo de matéria seca e o coeficiente de digestibilidade dos nutrientes.
Outra fonte de NNP que pode ser empregada como suplementação protéica na dieta de ovinos é a ureia de liberação lenta, a qual apresenta reduzida taxa de liberação de amônia (Van Soest, 1994).
Segundo Bartley & Deyoe (1975) complexos de liberação lenta de ureia melhoram o fornecimento de amônia no rúmen, aumentando a síntese de proteína microbiana, o consumo de matéria seca, a digestibilidade da fibra e proporcionando um maior consumo de energia pelo animal, além de reduzir problemas com toxidez.
Galina et al. (2006) estudaram o desempenho e parâmetros ruminais de cordeiros alimentados com uma dieta controle, a qual era composta por 100% de cana-de açúcar e outras duas dietas com milho ou cana-de-açúcar, ambas com 4% de ureia de liberação lenta na matéria seca. A digestibilidade, o consumo de matéria seca e o ganho de peso foram maiores para os animais alimentados com as dietas suplementadas com a ureia de liberação lenta. Segundo os autores as dietas com ureia de liberação lenta proporcionaram a elevação do pH do rúmen e adequado suprimento de NNP, aminoácidos essenciais, enxofre e fósforo as bactérias ruminais, melhorando a utilização de celulose.
Portanto, é de fundamental importância o emprego de NNP, independente da fonte, ureia ou ureia de liberação lenta em dietas de cordeiros, principalmente para o suprimento das exigências dos microrganismos ruminais. Além disto, a utilização de ureia é benéfica, sobretudo quando associada a uma fonte de proteína verdadeira, aumentando a eficiência da síntese microbiana.
Contudo, o principal fator de decisão de utilização destas fontes em substituição a proteína vegetal é o custo, pois a ureia pode ser utilizada como única fonte suplementar de nitrogênio sem efeito negativo no desempenho e com vantagens econômicas.
A associação de forrageiras com ureia e alguns subprodutos pode ser uma alternativa viável no semi-árido nordestino, onde a ovinocultura de corte é explorada.
Referências bibliográficas
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