Síndrome do Leite Anormal: um problema nutricional

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Em animais bem nutridos o leite tem uma composição relativamente constante. Mesmo assim, alguns componentes podem ter seus teores manipulados pelo tipo de dieta utilizado. Exemplo disso é o teor de gordura do leite, que pode variar em até 2-3 unidades percentuais, dependendo da dieta em uso. O teor de proteína também permite manipulação, porém em menor intensidade (0,2 a 0,4 unidades percentuais). Outros componentes têm teores relativamente fixos, como é o caso da lactose.

Além de sua composição, algumas análises físico-químicas também se mantém dentro de limites estreitos. É o caso das análises de pH, densidade, prova do álcool e ponto crioscópico, entre outras. De forma semelhante, a composição do sangue tende a manter um equilíbrio (homeostase) em animais submetidos a dietas balanceadas. Teores de hemoglobina, pH e bicarbonato no sangue têm valores padrão e devem variar dentro de uma estreita faixa.

Em função dessa relativamente baixa capacidade de variação, a composição do leite pode ser utilizada para monitorar o estado nutricional do rebanho. Através da comparação com valores de referência, valores discrepantes podem indicar problemas nutricionais no rebanho.

Valendo-se de milhares de análises de composição de leite, e desta característica pouca variação na composição do leite, pesquisadores cubanos identificaram em 1996, o que denominaram de Síndrome do Leite Anormal (SILA). Em termos gerais foi denominado SILA, o conjunto de alterações nas propriedades físico-químicas do leite, que estão associadas a transtornos fisiológicos, metabólicos e/ou nutricionais com implicações nos mecanismos de síntese e secreção do leite.

Alguns parâmetros que caracterizam a SILA através de análises do leite são listados abaixo:



Em um primeiro momento os pesquisadores também observaram que a ocorrência desta síndrome era concentrada em rebanhos com sérias deficiências nutricionais (animais recebendo somente 75% dos requerimentos nutricionais), especialmente em épocas de escassez e/ou baixa qualidade dos volumosos, e também em situações em que as deficiências dos volumosos não eram corrigidas (especialmente em dietas com cana-de-açúcar) ou ainda quando os animais estavam sob estresse. Estudos posteriores demonstraram que os rebanhos leiteiros com quadro de SILA tinham também baixa condição corporal, quadros de acidose metabólica e baixo pH ruminal.

Uma vez identificada, e na tentativa de entender a "Síndrome", uma série de experimentos foram conduzidos pelos pesquisadores cubanos. Um deles teve como objetivo reproduzir os "sintomas" da síndrome em um grupo de animais. Para isso foram utilizadas 3 dietas: a) dieta controle, à base de pastagem, 20% de cana-de-açúcar e concentrado, balanceada para 100% dos requerimentos nutricionais dos animais; b) dieta à base de 50% de cana e bagaço como volumosos e concentrado, balanceada para menos de 80% dos requerimentos dos animais; c) dieta à base de 80% de cana e bagaço como volumosos, balanceada para somente 50% dos requerimentos dos animais.

Os resultados das análises físico-químicas do leite antes e durante a aplicação das dietas experimentais podem ser vistos na tabela 1.

Tabela 1: Análises físico-químicas




Pode ser notado que a composição do leite foi alterada, se aproximando muito dos parâmetros que caracterizam a SILA. A tabela 2 traz os resultados das análises de sangue.
Em palavras, o que os números traduzem é que 40% das vacas estavam anêmicas e 100% das vacas tinha acidose metabólica. Somado a isto, os autores relatam quedas na produção de leite da ordem de 31 e 44%, respectivamente para as dietas com 50 e 80% de cana, além da perda da condição corporal, o que indica um quadro de desnutrição.

Tabela 2: Análises de sangue




Em um segundo experimento foi feito exatamente o oposto. Um rebanho de 24 vacas apresentando os sintomas da síndrome teve sua dieta corrigida, através da adição de uréia e aditivos como bicarbonato de sódio, carbonato de cálcio e fosfato bicálcico. Os resultados das análises de leite e sangue dos animais podem ser vistos na tabela 3.

Tabela 3: Análises de leite e sangue




Enquanto os padrões foram restabelecidos, os animais que receberam a correção das dietas tiveram ainda um aumento na produção de leite que variou de 1,4 a 2,2 litros.

Os autores concluem que a SILA é um fenômeno de causa multifatorial, ainda não muito bem identificada. Também afirmam que desbalanços de energia e proteína associados às características da ração, com implicações no ambiente ruminal e comprometimento do metabolismo geral (acidose), são os fatores de maior consideração, no caso de Cuba.

As alterações na composição do leite diminuem sua capacidade térmica e tamponante, alterando sua aptidão para o processamento industrial.

Comentário do autor: as características da SILA são observadas com freqüência em laticínios de diversas regiões do Brasil. Os resultados destes experimentos demonstram que, ao invés de um "fenômeno", esta síndrome poderia ser melhor definida como uma severa deficiência nutricional, que pode ser facilmente evitada, ou corrigida, através do correto balanceamento da dieta.

Fonte: Ceballo, P.P. e Hernández, R., 2001. Propriedades físico-químicas do leite e sua associação com transtornos metabólicos e alterações na glândula mamária. In: Uso do Leite para Monitorar a Nutrição e o Metabolismo de Vacas Leiteiras. Porto Alegre - RS.
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Material escrito por:

José Roberto Peres

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VANDERLAN SAWARIS
VANDERLAN SAWARIS

PALMEIRA DAS MISSÕES - RIO GRANDE DO SUL

EM 05/04/2010

1) qual a temperatura exata e acidez do leite na ordenha?
2) porque tem leite com acidez menor que 13°?
3) A lina esta ocorrendo em todos os estados da federação?
marcelio afonso marques
MARCELIO AFONSO MARQUES

UNAÍ - MINAS GERAIS

EM 28/09/2009

Artigo importante e esclarecedor,neste periodo seco desta regiao tem aparecido varias queixas de produtores rurais que o leite esta cortando na prova do alizarol sem que na realidade esteja acido. E na maioria dos casos ha um relcionamento com desbalencemento nutricional, má administraçao de minerais bem como estress térmico em animais de sangue europeu mais puro.Existe na regiao tambem um grande uso de cana de açucar como volumoso e muitas vezes associada a um baixo consumo de proteinas e tambem com casos de indigestoes (acidose ).

O artigo sera importante para a correçao da sindrome.

Att. Marcelio A Marques
Laércio Barbosa Marques
LAÉRCIO BARBOSA MARQUES

GOIÂNIA - GOIÁS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 11/08/2009

José Roberto, boa tarde!

Este artigo é de fundamental importância, pois, existem com frequência problemas dessa natureza.
Animais subnutridos cujo leite não resiste à prova do alcool nas recepções de leite de todo estado de Goiás.
Este fato é agravado pois a maioria das empresas utiliza em suas recepções alizarol de 74 a 80%.
Ainda hoje estive em um assentamento rural que 100% do leite analizado na prova de Alizarol deu Positivo.

Em entrevista aos produtores foi detectado que a grande maioria utilizava cana como volumoso sem a preocupação de correção de Proteina e Minerais.

Outro fator é que a cana utilizada é triturada em um Desintegrador com as facas mal reguladas tornando muito desuniforme a forragem fornecida aos animais.

Nós técnicos devemos ficar atentos ao problema, pois, existe muito despreparo para a resolução do problema.
Como exemplo, alguns indicam efetuar a prova de Alizarol Vaca a Vaca e comercializar somente o leite que passar na prova. Esse procedimento pode levar o produtor à falência, pois, tal prova não deve ser utilizada desta forma.

Parabéns pelo artigo, creio que o mesmo ajudará muitos produtores com problemas.

Att.
Laércio Marques
62 8413-3990
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