Paulo José Araripe Costa
Tem sido objeto de muita discussão o modo de calcular os custos (sejam eles fixos ou variáveis) na atividade de pecuária leiteira. É bastante comum ler e ouvir vários técnicos que, com diferentes metodologias sobre a mesma situação, normalmente chegam a resultados que não se assemelham ou que provocam ainda mais discussões. Isto também acontece de forma intensa na pecuária de corte e, geralmente, os fatores de maior discórdia se concentram nas áreas de amortização do capital investido (terra, animais, equipamentos e instalações) e na remuneração dele (juros, período de amortização, taxas de retorno, comparações com outros investimentos e o montante de retiradas dos proprietários).
É bem verdade que, sobre este tema, cabem várias interpretações, pois existem diversas formas de se chegar aos números que indicariam a rentabilidade da atividade, cada um deles levando em conta fatores como o objetivo dos proprietários, a vocação da propriedade, a eficiência com que é conduzida a atividade, a produção obtida e a velocidade com que se quer chegar ao objetivo traçado.
Porém, existe uma forma bastante simples de se chegar a números interessantes dentro da fazenda leiteira, que considera todas estas variáveis citadas, auxiliando no cálculo do custo final da atividade. A setorização da propriedade funciona como se tivéssemos várias propriedades dentro da fazenda, com características peculiares, como custos específicos e receitas próprias. Pode parecer uma complicação a mais, pois estaríamos multiplicando a discussão, mas, na verdade, a divisão da atividade em setores operacionais simplifica a metodologia, dando maior imparcialidade nos números e facilitando a visualização das falhas em qualquer das etapas do processo produtivo.
Mesmo fazendo a setorização da propriedade, somos obrigados a estipular algumas regras de âmbito geral, antes de iniciarmos as avaliações. O primeiro passo, portanto, é definir alguns parâmetros que serão aplicados em qualquer setor dentro da fazenda, dando condições da criação de alguns índices comparativos. O período de amortização dos investimentos e a taxa de juros sobre o capital empregado são os principais. A taxa de juros pode ser definida de acordo com a atividade concorrente para cada setor ou pela maior taxa encontrada dentro dos diversos setores dentro da fazenda, ou ainda, pelo valor de alguma aplicação bancária. No caso do período de amortização, é sabido que existem normas internacionais que estabelecem a quantidade de anos para cada fator de produção: instalações, equipamentos, animais etc., em função de sua vida útil.
A implantação do sistema é simples e não altera muito a rotina da propriedade, pois também é baseada em anotações. Portanto, é fundamental que os registros dos recursos dispensados (tanto para investimentos, quanto para manutenção) sejam bem organizados e de forma que se consiga dar um destinatário a eles. Assim, o próximo passo é configurar cada setor dentro da fazenda, denominando-os e caracterizando seus custos e receitas. Por exemplo, o setor de produção de alimentos volumosos vai vender a silagem, o pasto, a capineira ou o feno (o que for) ao setor de alimentação, sempre utilizando o valor do custo de produção nesta operação. Note que nesta simples divisão de responsabilidades já obtemos o custo do alimento produzido na fazenda, sem para isso utilizar estimativas, nem sempre condizentes com a realidade da região. Além disso, teremos condições de verificar se este setor é eficiente e se está com o custo de produção alto ou não, identificando um ponto de estrangulamento do processo produtivo.
Dessa mesma maneira pode ser feito com outras receitas de outros setores como: o esterco aplicado na lavoura (que entraria como receita do setor de manejo de animais), os serviços de máquinas (cuja receita tem como base o cálculo do valor da hora-máquina, entrando para o setor de mecanização ou agrícola), o uso da fábrica de ração etc. A mesma filosofia aplica-se nos investimentos e gastos: a compra de cimento para reforma ou reparo da sala de ordenha, não poderá ser contabilizada para o setor de produção de alimentos volumosos, assim como a aquisição de uma ensiladora mais moderna, não poderá ser considerada como investimento do setor de manejo dos animais. O correto seria colocar o custo do cimento no setor de ordenha e o custo da nova máquina no setor de produção de alimentos volumosos, ou ainda no setor de máquinas, dependendo da organização de cada propriedade.
Com relação aos custos comuns a mais de um setor ou aos investimentos que beneficiarão toda a propriedade e não se encaixam a nenhum setor, a recomendação é estipular uma porcentagem de participação para cada setor existente. Esta porcentagem não precisa ser equivalente e deve considerar o setor que mais se utilizará do recurso. Alguns exemplos são o salário de funcionários que desempenham várias funções, a consultoria ou assistência técnica não específica, alguns impostos, energia elétrica etc.
É importante salientar que a divisão em setores permite que o proprietário priorize algumas atividades dentro da fazenda, caso o resultado em determinado setor esteja bem aquém do planejado. Assim, por exemplo, é possível optar por não criar as novilhas na propriedade, quando se chega à conclusão de que este é um setor deficitário dentro do sistema adotado ou que os custos de criação não tem mais como serem reduzidos. É preciso analisar também se o mercado oferece produtos de igual ou melhor qualidade a preços mais atraentes. Esse contexto pode ser extrapolado para o setor de máquinas, agrícola ou o da fábrica de rações, sempre analisando os custos de mercado e da concorrência.
O sistema fica ainda mais interessante quando na propriedade são realizadas mais de uma atividade, adicionais à pecuária leiteira. Nesta situação temos uma maior otimização de setores como o de máquinas e o de produção de alimentos, que não ficam ociosos, evitando o aumento de custos de manutenção e depreciação sem que haja atividade para diluí-los.
De qualquer maneira, para setorizar a propriedade, é preciso planejar antecipadamente e estrutura a ser montada e realizar as alterações de forma definitiva e nunca provisória. A administração deve estar consciente das mudanças e ter pulso firme para que elas sejam implantadas com seriedade e de forma eficiente. Assim, no momento de realizar o balanço total da atividade, o resultado aparece limpo e claro, com a identificação dos pontos falhos na atividade.
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1Colaborou
Alexandre de Campos Gonçalves - Mestrando Depto. Produção Animal ESALQ/USP.
Setorização dentro da fazenda leiteira
Publicado por: Paulo Araripe
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Paulo Araripe
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GABRIEL SOMMERLATTE LAENDER
TEÓFILO OTONI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 25/08/2016
Ola Paulo, quais e quantos são os setores que você considera existir em uma fazenda leiteria convencional ?