Nos últimos anos vários pesquisadores têm reavaliado a real demanda por um período seco de 60 dias. No último Encontro da Sociedade Norte-Americana de Produção Animal (American Dairy Science Association & American Society of Animal Science Joint Annual Meeting), realizado em Phoenix, Arizona, várias sessões abordaram este tema. Inúmeros artigos científicos têm sido publicados nas revistas especializadas. Muitas fazendas norte-americanas já estão reduzindo a duração do período seco de suas vacas.
A produção de leite tem avançado a passos largos nas últimas décadas. Como demonstrado na Figura 1, a produção de leite média do rebanho norte-americano saltou de 3.188 kg em 1960 para 8.257 kg em 2000, numa evolução de 159%! Apesar deste grande incremento, uma prática de manejo que não se alterou nestas décadas foi a adoção do período seco de 60 dias.
A vaca leiteira de hoje, particularmente a de alta produção, é bem diferente da vaca leiteira de 30-40 anos atrás. Além disso, novas práticas de alimentação e manejo foram adotadas, como maior frequência de ordenha, somatotropina bovina, controle do fotoperíodo, etc. Portanto, será que a vaca de hoje ainda precisa dos 60 dias de período seco?

Se a produção de leite na lactação subseqüente não for comprometida por um período seco anterior de apenas 30-45 dias (ao invés dos tradicionais 60 dias), consideráveis quantidades de leite estão sendo perdidas pela indústria como um todo. Além da quantidade extra de leite produzido nestes 15-30 dias, benefícios adicionais ainda mais importantes poderiam ser alcançados. Períodos secos mais curtos permitiriam mudanças menos abruptas nas práticas de manejo nutricional, o que poderia reduzir o estresse associado com o período de transição e diminuir a incidência de enfermidades no pós-parto. As características de um adequado período de transição já foram discutidas por Almeida (2003) na seção Radares Técnicos - Nutrição do Milkpoint: Alimentação e Manejo de Vacas Leiteiras no Período de Transição - 01/08/2003.
Base histórica para o período seco de 60 dias
A prática de secar as vacas 60 dias antes do próximo parto foi estabelecida mais pela experiência prática de produtores e por análise retrospectiva de bancos de dados, do que baseada em resultados de experimentos planejados com o objetivo de identificar o período seco ideal. Até hoje produtores assumem que a glândula mamária "precisa de um descanso" de 60 dias, antes de iniciar uma nova lactação. Também acreditam que períodos secos inferiores a 60 dias resultam em menos leite na lactação seguinte.
Há duas categorias de experimentos realizados com o intuito de identificar a duração ótima do período seco: análise retrospectiva de dados de produção, em que o banco de dados não foi criado com este objetivo, e experimentos específicos, planejados com o objetivo de identificar a duração ótima do período seco, em que as vacas são distribuídas ao acaso em grupos pré-estabelecidos de duração do período seco, por exemplo; 0, 30 e 60 dias.
Trabalhos que usaram dados de fazendas comerciais na tentativa de identificar o período seco mais adequado apresentam limitações. Estes artigos são tendenciosos tanto para períodos secos excessivamente longos quanto curtos. Por exemplo, vacas com períodos secos longos, maiores de 70 dias, normalmente são vacas de baixa produção e menor persistência (e tiveram que ser secas antes). Esta produção mais baixa não pode ser atribuída diretamente ao maior período seco, mas sim a uma característica do animal, a qual está confundida com a duração do período seco.
Já entre as vacas com períodos secos inferiores a 60 dias estão, por exemplo, vacas com partos gemelares, vacas que abortaram espontaneamente e vacas com datas de inseminação ou cobertura incorretas, fatos associados com menores produções de leite. Em todos estes casos, estas vacas não foram manejadas para períodos secos mais curtos. E mais uma vez esta produção mais baixa não pode ser atribuída diretamente ao menor período seco, mas sim a uma característica do animal. Este fato já foi recentemente frisado por Santos (2003) na Seção Radares Técnicos - Qualidade do Leite: Duração do período seco e saúde da glândula mamária - 14/01/2004.
A novidade dos últimos anos é a realização de vários experimentos conduzidos com o propósito de identificar o período seco mais adequado. E os resultados destes experimentos são promissores...
Resultados
O consumo de matéria seca foi afetado pela duração do período seco; quanto maior o período seco, menos as vacas comem nas semanas que antecedem o parto. Vacas com 28 dias e 0 dia de período seco produziram respectivamente, 420 e 738 kg mais leite antes do parto do que vacas com o período seco tradicional de 56 dias.
A produção de leite nos primeiros 70 dias de lactação foi diminuída em 4,5 e 8,5 kg/dia para vacas com período seco de 28 dias e 0 dia, respectivamente. No entanto, quando a produção de leite foi corrigida para o mesmo percentual de gordura, não houve diferenças significativas entre os grupos 56 dias (período seco tradicional) e 28 dias (Figura 2), devido ao maior percentual de gordura do leite das vacas com período seco reduzido.
O teor de proteína no leite de vacas submetidas a um menor período seco (28 dias) foi significativamente maior (2,97 vs. 2,83) do que o de vacas com período seco tradicional de 56 dias. Quando avaliamos o impacto da adoção desta estratégia de manejo devemos levar em consideração a maior produção de sólidos (gordura e proteína) no leite de vacas submetidas a menores períodos secos.

Após o parto, as vacas de todos os três grupos (0, 28 e 56 dias de período seco) estavam em balanço energético negativo. Mas a diminuição ou a eliminação do período seco reduziu a magnitude do balanço energético negativo (Figura 3) e, conseqüentemente, a perda de condição corporal. Diferenças no balanço energético estão relacionadas com enfermidades no pós-parto e problemas reprodutivos. Vacas em balanço energético negativo por menos tempo estão menos propensas a desordens metabólicas no pós-parto e mais aptas a reiniciar a ovular mais rapidamente.

Não foram verificadas diminuições nos pesos ao nascer de bezerros oriundos de vacas com período seco reduzido. Portanto não devemos nos preocupar em o bezerro ser subnutrido no final da gestação quando estendemos a lactação.
A qualidade do colostro é similar quando comparamos períodos secos de 60 e de 30 dias. Mas períodos secos inferiores a 10 dias comprometem severamente o conteúdo de imunoglobulinas do colostro.
E se eliminarmos por completo o período seco? A maioria dos estudos verificou uma queda de 18 a 29% na produção de leite na lactação seguinte. Em outras palavras, mesmo a especializada vaca leiteira de hoje precisa de um período seco mínimo.
Vantagens
Entre os potenciais benefícios da redução do período seco poderíamos destacar:
- Provável incremento na produção de leite;
- Eliminação das instalações para vacas secas ainda distantes do próximo parto;
- Menos mudanças nas dietas ou dietas mais consistentes;
- Menos mudanças entre lotes de vacas;
- Provável menor incidência de enfermidades metabólicas no pós-parto;
- Possível menor número de infecções da glândula mamária.
Talvez mais importante que a produção adicional de leite no final da lactação, a estratégia de redução do período seco tem atraído bastante a atenção da indústria por simplificar o manejo das vacas no período seco. Não faz sentido ter dois grupos de vacas secas com um período seco de apenas 40 dias.
Uma preocupação imediata com um único grupo de vacas secas é o potencial efeito negativo no escore de condição corporal, em particular se fornecermos uma dieta de alta energia (Energia Líquida de Lactação entre 1,5 e 1,6 Mcal/kg) por todo o período seco. Será que esta dieta alta em energia por todo o período seco não promoveria um excesso de condição corporal? Resultados da Universidade Penn State nos Estados Unidos mostram que não.
A desvantagem de uma única dieta no período seco é a impossibilidade de fornecer um produto aniônico para fazer frente a uma dieta com alta proporção de forragens, normalmente ricas em potássio. Se for necessário fornecer sais aniônicos na dieta de vacas no período de transição (3 semanas pré-parto), não se recomenda manter tão somente um grupo de vacas secas.
A fim de maximizar o desempenho no pós-parto, resultados experimentais recentes mostram que mais importante que um alto consumo de matéria seca no pré-parto é um consumo homogêneo, sem sobressaltos, no pré-parto. Portanto, o menor número de mudanças nas dietas e dietas mais consistentes talvez sejam o grande benefício de se adotar programas de redução do período seco.
Cuidados
Especialistas recomendam cuidado ao alterar a duração do período seco de vacas leiteiras. Pesquisadores norte-americanos das universidades do Arizona e da Flórida são unânimes em afirmar que vacas em primeira lactação não são boas candidatas para a redução do período seco. Novilhas de primeiro parto precisam de períodos secos de 60 dias. Se os produtores não puderem separar as vacas secas em grupos por lactação ou se uma grande proporção das vacas prestes a parir estão entre a primeira e a segunda lactação, estes produtores não deveriam adotar esta estratégia de redução do período seco.
Dados de reprodução na propriedade também precisam ser acurados. Para adotar esta estratégia de manejo as propriedades precisam ter dados confiáveis quanto à data provável do próximo parto.
Rebanhos com uma alta incidência de partos gemelares também precisam questionar a adoção desta prática de manejo, já que vacas com gêmeos tendem a parir 10 dias antes da data provável de parto, o que pode reduzir exageradamente o período seco.
Da mesma forma, vacas em estresse calórico também tendem a reduzir seu período seco. A redução voluntária do período seco de 60 para 30-45 dias, acompanhada da redução involuntária por estresse calórico pode reduzir excessivamente o período seco, comprometendo o desempenho na próxima lactação.
Conclusões
De início recomendamos a redução do período seco dos tradicionais 60 dias para 40-45 dias. Esta prática de manejo não é para todos os rebanhos e nem para todas as vacas do rebanho. As melhores candidatas são: vacas adultas (2 ou mais partos), com razoável produção de leite à secagem (acima de 15 kg/dia) e com adequado Escore de Condição Corporal - ECC (3,50 a 3,75, numa escala de 1 a 5 pontos). Vacas tratadas com somatotropina bovina e ordenhadas 3 vezes ao dia também se encaixam bem neste protocolo de redução do período seco.
No rebanho leiteiro da Fazenda Experimental Gralha Azul da PUCPR, no município de Fazenda Rio Grande, Região Metropolitana de Curitiba, adotamos esta prática de manejo no final do ano passado. Nossa sugestão foi a redução do período seco para 40-45 dias, desde que as vacas preenchessem todos os três pré-requisitos acima citados (não ser novilha de 1o. parto, produção acima de 15 kg/dia e adequado ECC). Embora não tenhamos dados estatísticos para corroborar esta afirmação, nossas impressões com esta mudança são bastante positivas. Esperamos ter dados mais consistentes num futuro próximo que possam ser compartilhados com os leitores do MilkPoint.
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