Um grupo de pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora/MG, buscou responder a essa pergunta, realizando um trabalho muito interessante. O objetivo do estudo de RESENDE et al. (2004) foi estimar os custos de implantação e manutenção de uma pastagem destinada à utilização intensiva em sistemas de produção de leite, e analisar a viabilidade do investimento numa perspectiva de longo prazo.
Principalmente considerando o cenário atual da pecuária leiteira em nosso país, de preços baixos na entressafra, fantasma de aftosa rondando as fazendas, câmbio do dólar desfavorável às exportações, é inegável que é preciso pensar muito antes de fazer um investimento vultoso na fazenda. E a formação de uma pastagem produtiva representa um custo pesado para qualquer produtor. O levantamento de custos feitos por RESENDE et al. (2004) foi feito tomando-se como referência uma situação hipotética, mas que representa bem os projetos de pastagens destinados exploração intensiva de leite na região Sudeste do Brasil. Os autores consideraram a formação de uma área de 20 ha com Tifton 85, em solo típico de cerrado, de baixa fertilidade natural e acidez elevada.
Todos os custos de produtos e serviços foram estimados com base em coeficientes técnicos médios válidos para a região Sudeste do Brasil, e preços médios praticados nesse mercado em fevereiro de 2004 (câmbio: U$ 1,00 = R$ 2,90). Na tabela 1 estão mostrados os custos para implantação e manutenção da pastagem, e na tabela 2 os custos de utilização dessa pastagem. Os autores utilizaram a teoria do custo operacional, que sugere a não inclusão do custo de oportunidade da terra.
Tabela 1: Orçamento para implantação e manutenção da pastagem (valores em reais).

Tabela 2: Estimativa do custo anual de utilização da pastagem (valores em reais).

O custo de implantação previu a aplicação, em cada hectare, de 5 ton de calcário, 100 kg P2O5, 150 kg N e 100 kg K2O. Também foram previstos a construção de 2,4 km de cercas fixas e 3,4 km de cercas internas eletrificadas, além da instalação de bebedouros, cochos e sombras artificiais. No orçamento de manutenção anual foi prevista a reposição, em cada hectare, de 1 ton de calcário, 50 kg P2O5, 150 kg N e 100 kg K2O. No custo anual de utilização estão incluídos reposição de corretivos e fertilizantes, reparos e outras despesas corriqueiras, depreciação, juros, projeto e assistência técnica.
Apesar dos valores elevados, os autores chamam a atenção para o fato de que o projeto prevê capacidade de suporte para mais de 3 UA/ha nessa área, o que representa um custo anual do pasto inferior a R$ 364,00 (U$ 125,00) por vaca em produção, de acordo com a relação de preços e câmbio vigentes na época. Se considerarmos que esses valores são de fevereiro de 2004, para que possamos fazer comparações com valores atuais é justo aplicar pelo menos o índice oficial de inflação registrado no Brasil até setembro de 2005, representado pelo IPCA/IBGE. Os valores acumulados em 2004, mais os 9 primeiros meses de 2005 apontam para uma correção de 11,55%, o que leva o custo anual do pasto para R$ 406,04 por vaca em produção. Ao câmbio de 25/10/2005 (U$ 1,00 = R$ 2,264), isso equivale a U$ 179,35 por vaca em produção.
Se essa pastagem for utilizada por 210 dias ao ano, e tiver capacidade para alimentar 3 vacas/ha, bem manejadas e corretamente suplementadas com concentrados, produzindo em média 16 kg leite/dia, e considerando um preço para o leite de R$ 0,50/l, pode viabilizar uma receita superior a U$ 4.000,00/ha, com o leite e os bezerros produzidos. Considerando que os índices e projeções são verdadeiros, a pastagem compromete apenas cerca de 10% da receita da exploração, valor muito próximo do observado pelos autores do trabalho.
Mesmo que específicos, restritos a uma situação em particular, os dados apresentados por RESENDE et al. (2004) são um bom referencial de custos, que pode ser utilizado em diversas outras situações. Logicamente para se determinar valores precisos para cada situação, os índices devem ser atualizados e adaptados às condições locais e aos preços praticados em cada região.
Com base nesses resultados, a conclusão a que se chega é que efetivamente o pasto custa pouco dentro de um sistema intensivo de produção de leite, desde que seja muito bem formado, e utilizado de forma eficiente. Particularmente, entendo que se o manejo for muito bom, pode-se conseguir mais do que as 3 UA/ha, o que projeta uma situação ainda melhor.
Literatura consultada
BARGO, F., MULLER, L.D., KOLVER, E.S., DELAHOY, J.E. Production and digestion of supplemented dairy cows on pasture. Journal of Dairy Science 86:1-42, 2003.
RESENDE, J. C.; CAMPOS, A. T.; LIMA, J. A.; STOCK, L. A.; CAMPOS, A. T. "Estimativa e análise do custo da pastagem na produção intensiva de leite." In: 41ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, Campo Grande/MS, 2004. CD-ROM.
