Quanto custa o pasto em sistemas intensivos de produção de leite?

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

BARGO et al. (2003) numa excelente revisão publicada no Journal of Dairy Science afirmam categoricamente que o uso de pastagens para vacas leiteiras resulta em sistemas de alimentação de custo menor, pois a forragem pastejada é a fonte mais econômica de nutrientes. Esse conceito é aceito por todo técnico e produtor que eu conheço, e não vejo muitas discussões sobre esse tema. Eu mesmo afirmei isso em artigo anterior, publicado no radar técnico de nutrição. Mas quando o sistema é intensificado, onde se busca a maximização do uso dos recursos disponíveis, será que isso é mesmo verdade? Quanto custa formar e manter uma pastagem de gramínea tropical para ser intensivamente manejada?

Um grupo de pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora/MG, buscou responder a essa pergunta, realizando um trabalho muito interessante. O objetivo do estudo de RESENDE et al. (2004) foi estimar os custos de implantação e manutenção de uma pastagem destinada à utilização intensiva em sistemas de produção de leite, e analisar a viabilidade do investimento numa perspectiva de longo prazo.

Principalmente considerando o cenário atual da pecuária leiteira em nosso país, de preços baixos na entressafra, fantasma de aftosa rondando as fazendas, câmbio do dólar desfavorável às exportações, é inegável que é preciso pensar muito antes de fazer um investimento vultoso na fazenda. E a formação de uma pastagem produtiva representa um custo pesado para qualquer produtor. O levantamento de custos feitos por RESENDE et al. (2004) foi feito tomando-se como referência uma situação hipotética, mas que representa bem os projetos de pastagens destinados exploração intensiva de leite na região Sudeste do Brasil. Os autores consideraram a formação de uma área de 20 ha com Tifton 85, em solo típico de cerrado, de baixa fertilidade natural e acidez elevada.

Todos os custos de produtos e serviços foram estimados com base em coeficientes técnicos médios válidos para a região Sudeste do Brasil, e preços médios praticados nesse mercado em fevereiro de 2004 (câmbio: U$ 1,00 = R$ 2,90). Na tabela 1 estão mostrados os custos para implantação e manutenção da pastagem, e na tabela 2 os custos de utilização dessa pastagem. Os autores utilizaram a teoria do custo operacional, que sugere a não inclusão do custo de oportunidade da terra.

Tabela 1: Orçamento para implantação e manutenção da pastagem (valores em reais).

Figura 1

Tabela 2: Estimativa do custo anual de utilização da pastagem (valores em reais).

Figura 2

O custo de implantação previu a aplicação, em cada hectare, de 5 ton de calcário, 100 kg P2O5, 150 kg N e 100 kg K2O. Também foram previstos a construção de 2,4 km de cercas fixas e 3,4 km de cercas internas eletrificadas, além da instalação de bebedouros, cochos e sombras artificiais. No orçamento de manutenção anual foi prevista a reposição, em cada hectare, de 1 ton de calcário, 50 kg P2O5, 150 kg N e 100 kg K2O. No custo anual de utilização estão incluídos reposição de corretivos e fertilizantes, reparos e outras despesas corriqueiras, depreciação, juros, projeto e assistência técnica.

Apesar dos valores elevados, os autores chamam a atenção para o fato de que o projeto prevê capacidade de suporte para mais de 3 UA/ha nessa área, o que representa um custo anual do pasto inferior a R$ 364,00 (U$ 125,00) por vaca em produção, de acordo com a relação de preços e câmbio vigentes na época. Se considerarmos que esses valores são de fevereiro de 2004, para que possamos fazer comparações com valores atuais é justo aplicar pelo menos o índice oficial de inflação registrado no Brasil até setembro de 2005, representado pelo IPCA/IBGE. Os valores acumulados em 2004, mais os 9 primeiros meses de 2005 apontam para uma correção de 11,55%, o que leva o custo anual do pasto para R$ 406,04 por vaca em produção. Ao câmbio de 25/10/2005 (U$ 1,00 = R$ 2,264), isso equivale a U$ 179,35 por vaca em produção.

Se essa pastagem for utilizada por 210 dias ao ano, e tiver capacidade para alimentar 3 vacas/ha, bem manejadas e corretamente suplementadas com concentrados, produzindo em média 16 kg leite/dia, e considerando um preço para o leite de R$ 0,50/l, pode viabilizar uma receita superior a U$ 4.000,00/ha, com o leite e os bezerros produzidos. Considerando que os índices e projeções são verdadeiros, a pastagem compromete apenas cerca de 10% da receita da exploração, valor muito próximo do observado pelos autores do trabalho.

Mesmo que específicos, restritos a uma situação em particular, os dados apresentados por RESENDE et al. (2004) são um bom referencial de custos, que pode ser utilizado em diversas outras situações. Logicamente para se determinar valores precisos para cada situação, os índices devem ser atualizados e adaptados às condições locais e aos preços praticados em cada região.

Com base nesses resultados, a conclusão a que se chega é que efetivamente o pasto custa pouco dentro de um sistema intensivo de produção de leite, desde que seja muito bem formado, e utilizado de forma eficiente. Particularmente, entendo que se o manejo for muito bom, pode-se conseguir mais do que as 3 UA/ha, o que projeta uma situação ainda melhor.

Literatura consultada

BARGO, F., MULLER, L.D., KOLVER, E.S., DELAHOY, J.E. Production and digestion of supplemented dairy cows on pasture. Journal of Dairy Science 86:1-42, 2003.
RESENDE, J. C.; CAMPOS, A. T.; LIMA, J. A.; STOCK, L. A.; CAMPOS, A. T. "Estimativa e análise do custo da pastagem na produção intensiva de leite." In: 41ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, Campo Grande/MS, 2004. CD-ROM.
Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Fernando Antonio de Azevedo Reis
FERNANDO ANTONIO DE AZEVEDO REIS

ITAJUBÁ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/11/2005

Alexandre,



Achei o custo alto e a lotação muito baixa, mas não conheço o cerrado, ano passado eu utilizei pastejo em tifton 85 numa área de várzea no sul de Minas onde a lotação é de 10 U.A. (jersey) no período das águas, sendo a única fonte de volumoso. Este pasto foi formado em 1994/1995, ano passado apliquei meia tonelada de calcário por hectare mais 140 kg de super simples e 450 kg de uréia pecuária por hectare.



Seria o meu solo muito bom! Cada caso é uma situação diferente? Estes trabalhos não acabam sendo muito específicos e deixam de dar uma visão mais ampla do pastejo?



Obrigado pela atenção,



Fernando Azevedo Reis (produtor de leite com Jersey)



<b>Resposta do autor:</b>



Prezado Fernando,



Conforme eu afirmei no final do artigo, se o manejo do pasto for bom, dá pra conseguir uma lotação melhor. Em pastagens de Elefante, com solos de alta fertilidade e adubações da ordem de 300-400 kg N/ha, já trabalhei com 18 UA/ha nas águas. Nessa situação, se vc trabalhar muito bem, consegue baixar bastante o custo do pasto.



Com 450 Kg de uréia você aplica mais de 200 kg N, o dobro da dose utilizada no trabalho citado. Logicamente, cada caso é um caso, e o intuito desse artigo foi mostrar que a intensificação do uso da pastagem é uma prática econômica, que, se for bem feita, pode aumentar a rentabilidade dos sistemas de produção de leite.



Não acho que esses trabalhos deixam de dar uma visão ampla do pastejo, são apenas exemplos do que pode funcionar. Cabe a nós utilizarmos da melhor forma os conceitos que retiramos dos trabalhos de pesquisa, fazendo os ajustes necessários a cada situação, a cada fazenda.



Atenciosamente,



Alexandre Pedroso
Fernando Enrique Madalena
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 28/10/2005

O assunto é sem dúvida importante, mas continua-se a insistir com simulações "chutadas". Precisamos é de dados reais.



<b> Resposta do autor: </b>



Prezado Prof. Madalena,



Concordo integralmente que precisamos de grande número de dados reais para podermos ter mais segurança nas recomendações. Enquanto não temos, as simulações são ferramentas úteis para gerar parâmetros que servem como indicadores. E esses trabalhos da UFRGS são foram feitos com muito bom senso e critérios coerentes, de forma que os resultados podem ser usados como referência.



Atenciosamente,



Alexandre

Qual a sua dúvida hoje?