A determinação da demanda de volumosos, é um processo sequencial, de múltiplas etapas, que se inicia com a determinação da composição do rebanho da propriedade. Para tanto, deve-se determinar as diferentes categorias de animais existentes, sendo o mínimo recomendado: vaca seca, vaca em lactação, novilhas e bezerras e touros. Sempre que possível, é interessante que se trabalhe com um grau maior de detalhamento, subdividindo as vacas em lactação de acordo com o estádio de lactação (inicio, meio e fim) e as novilhas de acordo com faixas de peso ou faixas de idade dos animais, gerando uma tabela maior, mas mais fiel à realidade do rebanho.
A seguir, determina-se o número de indivíduos existentes em cada categoria, e o peso médio de referencia dos animais de cada categoria. Assim, é gerada uma tabela de composição do rebanho, como na Tabela 1.
Tabela 1. Exemplo de composição do rebanho.
Na seqüência, deve-se realizar a projeção da dinâmica do rebanho com base nos índices zootécnicos (médios ou desejados para o rebanho), e no planejamento de reprodução (parição), compra e venda de animais ao longo do ano, bem como no calendário de secagem de vacas.
Os índices mínimos necessários para se projetar o rebanho são:
- Taxa de prenhez;
- Taxa de descarte anual de vacas;
- Taxa de natalidade;
- Taxa de desmama;
- Taxa de mortalidade de cada categoria animal;
- Idade da primeira cobertura e/ou idade do primeiro parto.
Com base nesses valores, se faz a projeção da composição do rebanho ao longo dos meses, com as variações no número de animais em cada categoria, e na condição física (peso médio) desses animais (Tabela 2).
Tabela 2. Evolução mensal da composição do rebanho.
A partir daí, com a estrutura do rebanho determinada em cada mês, para cada categoria do rebanho deverá ser estimada a ingestão de forragem, normalmente definida como ingestão de matéria seca (IMS). A IMS por um animal, de forma geral, varia de acordo com seu peso corporal, estádio fisiológico e com a qualidade do alimento fornecido. Em sistemas de produção de leite, além do estádio fisiológico que é representado pelas diferentes categorias animais, as fases da lactação também são fonte de variação na IMS (Figura 1).
Figura 1. Variações na curva de lactação, ingestão de matéria seca e ganho de peso de vacas leiteiras em função da fase do ciclo produtivo.
O próximo passo é determinar a produtividade média das vacas em lactação do rebanho, já que a IMS também ira variar de acordo com a produção diária de leite do animal. Mais uma vez, caso se opte um grau maior de detalhamento, passa ser importante projetar a produção de média diária de leite de cada lote de vacas em lactação.
Apesar de existirem diferentes fontes como referencia para determinar a IMS de rebanho leiteiros, atualmente, considera-se o NRC (2001) como sendo a mais precisa para a estimativa do IMS dos animais de rebanhos leiteiros, principalmente de vacas em lactação. Isso se deve principalmente ao fato de as equações apresentarem a vantagem de serem mais simples e de requererem poucos dados inerentes aos animais para seu cálculo.
Apenas para exemplificar, na equação do NRC de 2001 para vacas em lactação, a estimativa do IMS total leva em consideração as fases de lactação e de gestação da vaca, possuindo um ajuste exponencial para a diminuição de consumo normalmente observado tanto no início, quanto ao final da lactação: IMS (kg/d)= (0,372 x LCG + 0,0968 x PV0,75) x (1- e[- 0.192 (SL + 3,67)]), em que: LCG = leite corrigido p/ gordura; PV = peso vivo; SL = semana da lactação.
Após a determinação da necessidade de forragem de cada categoria em cada mês, para se finalizar a determinação da demanda, é necessário que se considere também as perdas, pela falta de eficiência na colheita da forragem em pastejo. Assim, a dementada final é a combinação entre forragem consumida e as perdas.
Se considerarmos a eficiência de pastejo de 40% (ou 0,4) por exemplo, um valor normalmente observado, como os 38% reportados por Balsalobre (1996), significa que para consumir 10 kg MS, o animal precisa receber 25 kg (10kg de IMS/ 0,4).
De forma geral, a eficiência de pastejo varia em torno de 40 a 60%, depende do método de pastejo e da condição da pastagem. Combinando a demanda líquida com a eficiência de pastejo, tem-se a demanda bruta, que seda o valor usado para o ajuste de suprimento e demanda.
Ajustando suprimento e demanda
Com os valores e o perfil do suprimento e demanda bruta de forragem determinados, confronta-se os perfis de ambas, através de gráficos ou tabelas, identificando épocas de escassez e de excesso de forragem (Tabela 3).
Tabela 3. Exemplo de comparação da produção e da demanda de forragem para um cenário hipotético de produção
Uma vez identificados períodos de déficit ou excedente de forragem, deve-se considerar as possibilidades de alteração no sistema produtivo, de forma a corrigir esses desbalanços. Tal correção ou ajuste, pode ser feito com base em diferentes estratégias, alterando tanto a demanda, como a oferta. Pode-se por exemplo, optar por conservar a forragem excedente no período propício ao crescimento das forrageiras no ano, para depois fornecer ao rebanho na época de deficit, conformo observado na Figura 2.
Figura 2. Representação gráfica da relação entre oferta e demanda, identificando épocas de excedente e de déficit de alimento.
Outra forma de realizar os ajustes necessários, seria adotar alguma das estratégias apresentadas na Tabela 4.
Tabela 4. Ações para controle da relação demanda e oferta de forragem
O importante com a realização tanto da quantificação da oferta de volumosos, como da demanda pelo rebanho, é que se possa identificar previamente, ainda na fase de planejamento, os desajustes em sua relação. Isso não apenas no que diz respeito às épocas em que tais desequilíbrios podem ocorrer, mas também ter uma noção, mesmo que aproximada, da amplitude desses desajustes, possibilitando alterar o sistema de produção, ou prepara-lo melhor, para que tais desajustes tenham uma amplitude menor e por conseqüência, menor impacto na produtividade e na rentabilidade do negócio.
Referências Bibliográficas
BALSALOBRE, M. A. A. Desempenho de vacas em lactação sob pastejo rotacionado de capim-elefante (PennisetumpurpureumSchum.) Piracicaba, 1996.139p. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo.
BARIONI, L. G.; MARTHA JR., G. B.; RAMOS, A. K. B.; VELOSO, R. F.; RODRIGUES, D.C.; VILELA, L. Planejamento e gestão do uso de recursos forrageiros na produção de bovinos em pastejo.In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DA PASTAGEM, 20, 2003, Piracicaba. Anais, Piracicaba: FEALQ, 2003. p. 105-154.