Nos últimos anos tem se tornado popular o aumento no teor de proteína bruta (PB) nos concentrados de bezerros de 16% (na matéria original) até níveis de 22%. Isto tem justificativa científica? Simplesmente não. Vamos rever o que se sabe sobre o assunto.
O NRC (National Research Council), publicação norte-americana que dita exigências nutricionais, baseadas em dados de publicações científicas, e que é adotada pela grande maioria dos nutricionistas, teve suas recomendações revistas recentemente (2001). A publicação anterior era de 1989 e recomendava que as dietas de bezerros deveriam ter 18% de PB na matéria seca. É importante destacar, no entanto, que os teores apresentados nos rótulos dos concentrados comerciais são expressos na matéria original. Sendo assim, 18% de PB na matéria seca, em um concentrado com 88 a 90% de matéria seca, na matéria original corresponderia a um concentrado com 16% de PB. Isso mesmo, uma "ração" para bezerros com 16% de proteína bruta é suficiente para garantir seu completo desenvolvimento. A mais recente versão do NRC 2001 manteve esta recomendação pois, nos últimos 10 anos, não houve pesquisas que demonstrassem qualquer benefício em teores superiores.
O maior estudo realizado nestes últimos 10 anos foi feito em Minnesota (EUA) e comparou quatro concentrados variando de 15 a 22,4% de PB na matéria seca. As conclusões do trabalho foram que o teor ideal de proteína em concentrados, para promover o máximo crescimento de bezerros do nascimento até 8 a 12 semanas de vida, estava entre 16,6 e 19,5% da matéria seca, desde que o consumo deste concentrado seja suficiente para atender os requerimentos energéticos dos animais. Sendo assim, a recomendação de 18% de PB feita pelo NRC parece ainda válida.
Quais seriam então os argumentos daqueles que pregam valores maiores?
1) O consumo de concentrado é muito baixo para atender os requerimentos protéicos com 16% de proteína.
Se isto for verdadeiro, então o consumo será também muito baixo para atender a exigência energética dos animais, o que provavelmente se tornará o nutriente mais limitante ao crescimento. Na essência, isto é o que os pesquisadores de Minessota concluíram. Proteína adequada sem energia adequada não irá resultar em crescimento ideal. O problema então é baixo consumo de concentrado, não seu teor de proteína.
2) Outro argumento é que o teor de proteína do concentrado precisa ser igual ao do leite ou do substituto de leite.
Em relação a isto, é importante lembrar que o leite (ou sucedâneo) passa direto para ser digerido no abomaso, enquanto o concentrado é fermentado no rúmen antes de chegar ao abomaso, o que determina grandes alterações em sua composição (produção de ácidos graxos como fonte energética e proteína microbiana). Ironicamente, enquanto o teor de proteína dos concentrados vem subindo, o dos sucedâneos lácteos vem caindo de valores de até 22% para níveis de 18%.
Existem muitas questões importantes em relação aos concentrados para bezerros, mas as realmente importantes estão mais relacionadas ao seu manejo. Estas questões incluem sua qualidade, as práticas de fornecimento, o nível de gordura no leite, ou no seu sucedâneo, e a ingestão de água.
A qualidade do concentrado inclui os ingredientes utilizados, a maneira como é produzido, como é estocado, e se ele permanece fresco, sem bolores e sem se pulverizar.
Se um concentrado não é palatável os bezerros não irão consumi-lo em quantidade suficiente. Se ele é consumido, mas não fermenta bem no rúmen, o consumo também é comprometido. Ambos precisam ocorrer para complementar um ao outro.
Erros de manejo também limitam a ingestão de concentrado. Dentre eles pode-se citar a colocação de concentrado em excesso no cocho, especialmente quando o consumo ainda é baixo, nas primeiras semanas. Se o manejo não for feito de forma a se colocar concentrado fresco diariamente, o empedramento, bolores ou a simples transformação dos pellets em pó irá limitar o consumo.
Outro problema comum é que as pessoas não separam (fisicamente) o concentrado da água. Os bezerros adoram brincar com o concentrado e derrubá-lo na água, ou vice-versa. Com isso o consumo, tanto de concentrado (empedrado, embolorado), quanto da água (suja), cai. Com pouco esforço, este tipo de problema é corrigido e o consumo cresce.
O teor de gordura do concentrado também pode ser um problema. Muitas vezes, na tentativa de fornecer um concentrado com mais energia, ele é "enriquecido" com gordura. Teores superiores a 12-15% de gordura no concentrado deprimem o consumo. Nestas situações, o que se ganha em concentração energética no concentrado é mais que perdido no menor consumo.
Outros artigos publicados nesta seção já demonstraram que a ingestão de água é intimamente relacionada ao consumo de concentrado. Na realidade, os bezerros consomem cerca de 4 litros de água para cada quilo de matéria seca de concentrado. Portanto, se a água não for fornecida, estiver suja, ou o acesso a ela for problemático, o consumo de concentrado e de matéria seca será limitado. Em regiões quentes isto é ainda mais dramático. Em um estudo na Flórida bezerros chegaram a consumir 24 litros de água por dia.
O fornecimento de água em temperatura ambiente, duas vezes ao dia, após as duas mamadas diárias, juntamente com um fornecimento adicional no meio do dia, é a forma mais prática de se garantir o fornecimento de água. Este terceiro fornecimento adicional de água aumenta a disponibilidade de água em 50%. Lembre-se: se os bezerros consumirem apelas mais alguns litros de água, isto pode ser suficiente para garantir a ingestão de mais um quilo de matéria seca na forma de concentrado.
Comentário do autor: como pode ser concluído, a "qualidade" de um concentrado inicial para bezerros infelizmente não pode ser avaliada unicamente por seus teores de nutrientes. Sua palatabilidade e seu manejo, que refletem em seu consumo, são fatores de grande importância. Níveis maiores de proteína irão encarecer substancialmente as fórmulas, sem benefício em crescimento.
Adaptado de: Kerts, A.F., 2002. What really dictates how calves grow. Hoard's Dairyman. January, 10.
Qual o nível ideal de proteína no concentrado de bezerros?
Publicado por: José Roberto Peres
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Material escrito por:
José Roberto Peres
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VALDEIR FERREIRA DA SILVA
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/07/2020
Bom dia !!!Um veterinário me recomendou colocar a ração 24% para bezerro o que você me diz sobre isso?

ANDRÉIA MACHADO PEREIRA
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 02/03/2010
boa tarde,
Alguns técnicos tem sugerido sim uma ração de 22%, dizendo que os animais assim alimentados tem um crescimento melhor, e são animais maiores e sem acumulo de gordura. Ainda não encontrei nenhum trabalho que afirma isso. Gostaria de saber se este artigo acima ainda vale para os dias atuais ou se realmente mudou essa recomendação.
Alguns técnicos tem sugerido sim uma ração de 22%, dizendo que os animais assim alimentados tem um crescimento melhor, e são animais maiores e sem acumulo de gordura. Ainda não encontrei nenhum trabalho que afirma isso. Gostaria de saber se este artigo acima ainda vale para os dias atuais ou se realmente mudou essa recomendação.