Perspectivas para o setor leiteiro

Publicado por: e

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Inúmeras vezes recebemos indagações sobre o futuro da pecuária leiteira, sobre os riscos de uma possível inundação de produtos importados, da possibilidade do leite argentino infiltrar-se em nosso mercado, da falta de uma política governamental para o setor, da falta de fixação do preço mínimo ao produtor e por aí vai.

Perceba que apesar do grande leque de perguntas, o objetivo é sempre o mesmo, buscar alguma segurança e confiabilidade econômica no setor leiteiro, muitas vezes com o intuito de justificar a persistência na atividade, com a perspectiva de dias melhores.

O Brasil tem enorme destaque como produtor de leite, figurando entre os cinco maiores do mundo. Apresenta mais que o dobro da produção da Argentina e o equivalente à soma das produções da Austrália e da Nova Zelândia, todos países tradicionalmente produtores e que de certa forma poderiam ameaçar nosso mercado interno. Entretanto, atualmente o produtor brasileiro recebe em média US$ 0,11 (onze centavos de dólar) por litro comercializado, preço inferior ao praticado em qualquer desses países, reduzindo assim o risco da tão temida inundação de produtos importados.

Somando a esse cenário o fato do aumento da produção nacional não acompanhar o aumento de nossa demanda e que qualquer variação positiva na renda per capita alarga ainda mais o déficit entre oferta e demanda (temos demanda reprimida de 37%, isso para atingir os patamares mínimos ditados pela FAO, sem considerar a possibilidade de nos tornarmos exportadores), verificamos que a situação embora complicada, não é terminal e ainda acena com esperanças.

Diante de um quadro promissor, quais seriam as razões para explicar a crise no setor?

Um dos motivos é nossa estrutura fundiária, temos hoje uma produção média inferior a 50 litros por produtor por dia, enquanto a União Européia apresenta números cerca de 9 vezes maiores (400 litros por produtor por dia) e os grandes países produtores entregam acima de 21 vezes mais leite (acima de 1.000 litros por produtor por dia). Sendo nossos produtores pequenos demais, as ínfimas margens de lucro por litro inviabilizam sua produção em pequena escala. É difícil imaginar como um produtor sobrevive com uma renda bruta mensal de até US$ 160,00 (cento e sessenta dólares), e nessas condições é extremamente difícil ser otimista com alguma coisa.

Há que se observar a grande falta de especialização tanto de nosso rebanho como de nossos produtores. A exploração de animais com produção anual inferior a 1.000 litros, a ausência de cuidados sanitários e com a alimentação do plantel e a total falta de controle econômico da atividade, podem ser citados como alguns dos inúmeros problemas técnico-econômicos do setor. São comuns ainda os produtores safristas, que tiram leite de vacas de corte, ou ainda aqueles não especializados, que tem no leite uma fonte de receita a mais para a propriedade, ambos extremamente ineficientes.

Observe que a média de produtividade de nossas áreas leiteiras é de 900 litros por hectare ao ano, sendo que, com a adequação do sistema de produção, esse valor poderia alcançar os 18.000 litros por hectare ao ano e até ir além; isso representaria um incremento de 2.000% na produtividade da atividade. Contudo, a baixa eficiência com que é obtido o produto leite leva a um custo agregado altíssimo, na maioria das vezes inviabilizando a atividade.

O sistema de produção extensivo adotado na grande maioria das propriedades leiteiras levou ao aproveitamento dos recursos naturais disponíveis, ao uso de mão-de-obra sem capacitação e ao aporte de um mínimo de insumos no sistema, induzindo o setor leiteiro a um grande atraso tecnológico.

Um entrave de difícil solução, onde o consumidor tem grande parcela de culpa, é o leite informal. Cerca de 40% do leite consumido é de origem “desconhecida”, ou seja, não sofre nenhum tipo de controle sanitário por parte dos órgãos fiscalizadores e, com isso, não tem controle algum de sua qualidade. Por falar nisso, a baixa qualidade do nosso leite acaba por nos excluir do mercado internacional e muitas vezes até mesmo do mercado interno. Apesar da necessidade de ajustes nesse sentido serem enormes e, em muitos casos envolverem mudanças culturais dos produtores, elas são indispensáveis, obrigando o produtor a adequar-se aos novos padrões de qualidade ou sair da atividade.

Vocês agora devem estar se perguntando qual a saída para essa situação? Embora relutem em afirmar, a resposta todos já conhecem, o que na verdade falta é agir em prol dela. A seguir vamos listar algumas das ações fundamentais para reestruturação do setor; avaliem o quanto vocês estão fazendo em prol disso e percebam o quanto já contribuíram para uma pecuária leiteira competitiva e acima de tudo rentável:

- definição de sistema de produção adequado à sua região, propriedade e perfil pessoal, inclusive com a escala mínima de produção necessária para obtenção de lucratividade compatível com suas aspirações;

- estabelecimento de um plano de ação, reestruturação e crescimento de sua atividade, com metas, custos e prazos bem definidos;

- aprimoramento genético do plantel conforme o sistema de produção adotado;

- adoção de dietas equilibradas e viáveis, quer seja para o sistema à pasto, semi-estabulado ou confinado, sempre com a supervisão de um técnico especializado;

- adoção de calendário sanitário coordenado por técnico responsável;

- adoção de um plano de capacitação de sua mão-de-obra;

- desenvolvimento de instrumentos contratuais para formação de relações entre produtor e indústria;

- adoção apenas de tecnologias comprovadas, e não de práticas sem fundamento técnico – o ideal é que a propriedade receba assistência técnica de profissionais especializados, através do setor público ou privado;

- adoção de um plano próprio de melhoria da qualidade do leite, em sintonia com o plano governamental;

- reuniões com outros produtores, técnicos, fornecedores de insumos e, se possível, com a própria indústria para traçar metas e planos de ação conjunta, objetivando definir estratégias de ação para defesa dos interesses corporativos.

Considerando o enorme potencial de exploração leiteira de nosso território, ajustando-se os ponteiros e organizando a cadeia produtiva, certamente os demais países produtores é que passarão a temer o Brasil e não o inverso. Um dia teremos qualidade para brigar no mercado internacional de leite e, nesse instante, nossa pecuária leiteira dará o salto tão esperado.
Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Alexandre de Campos Gonçalves

Alexandre de Campos Gonçalves

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?