Primeiramente, gostaria de esclarecer que existem técnicos e “técnicos”. Existem profissionais capacitados no mercado e profissionais desqualificados. Seja no setor agropecuário bem como em todo o mercado, mundial. Cabe ao produtor ter a competência suficiente para fazer uma boa pesquisa no mercado e investir seu capital numa consultoria de qualidade. Acredito que os técnicos quando são chamados para um trabalho em conjunto com o produtor não devem ser incumbidos de dizer: “o que deve ser feito” ou “o que não deve ser feito”, bem como não são juízes para “julgar” o que é o “certo” e o que é o “errado”. Consultores competentes se associam aos produtores de maneira inteligente, compreendendo a demanda de cada um e “sugerindo” alternativas para cada produtor conduzir sua atividade. Em post anterior comentei muito sobre isso (papel da assistência técnica numa propriedade) – para acessá-lo clique:
http://www.milkpoint.com.br/mypoint/11521/p_o_papel_do_consultor_tecnico_especializado_quando_devemos_procuralo_215.aspx.
A decisão sobre o caminho a ser seguido e a condução do “negócio” como um todo, na minha opinião particular, é de responsabilidade do produtor/capitalista.
Acredito que o tema por ser complexo e extenso, acaba gerando discussões e dissertações muitas vezes desfocadas. Precisamos, antes de tudo, saber distinguir o que é: paixão (aspecto emocional) e o que é: razão (aspecto prático, econômico-financeiro e técnico).
Em poucas palavras: não há um sistema de produção único e perfeito. Bem como, não há meios de se introduzir uma técnica ou sistema que consiga suprir e resolver os desafios em se produzir leite competitivamente. O que existe é trabalho. E são dois os “tipos de trabalho” possíveis de se encontrar (como tudo na vida): o bem feito e o mal feito.
A meu ver, cada pecuarista/produtor de leite deve fazer uma análise fria: qual é o melhor sistema para o meu caso (a minha propriedade), em particular? De acordo com as condições climáticas, topográficas, fertilidade do solo, mão de obra disponível, qualidade da mão de obra, assistência técnica disponível, etc, haverá, de modo racional, sempre uma melhor alternativa/escolha.
Muitas vezes o aspecto emocional, acaba atrapalhando. Diversas propriedades têm enorme potencial para produção a pasto e não aproveitam a oportunidade. O contrário também ocorre, ou seja, determinada área é infinitamente propícia a implantação de um sistema de produção confinado e o mesmo acaba sendo preterido ao pastejo.
É importante destacar que, certamente, não existe um um sistema melhor ou pior que outro. O que existe é um sistema bem conduzido e um mal conduzido, seja ele a pasto ou confinamento. Discutir os casos de fracasso ou sucesso de cada um deles é uma verdadeira perda de tempo. Digo isso porque a produção de leite não é somente um caso de técnica (racionalidade) xs oportunidade e escolha mais indicada de um determinado sistema de produção para se obter a “chave do sucesso”. A produção de leite é uma atividade ímpar no setor agropecuário, que exige por parte do produtor muita dedicação e, principalmente aptidão ao negócio. Definitivamente, não é uma atividade para qualquer um.
Há pouco tempo estive conversando com representante de uma empresa fabricante de ordenha mecanizada. Perguntei como estava o mercado e o mesmo me disse que estava “reagindo” e que inclusive tinha vendido um projeto em fase de implantação numa fazenda próxima. Verifiquei algumas fotos e perguntei como estava indo a obra. A resposta: “vai indo bem, só que o proprietário mal aparece na obra”. O interessante é que o valor investido, no caso, não foi baixo. Pode ser que o projeto venha a dar certo. Torço. No entanto, esta mentalidade e conduta não são compatíveis com os desafios do setor. Acompanhar de longe, ao meu ver, nem pensar! Mesmo acertando na escolha ou dimensionamento de um dado sistema.
Por quê isso ocorre (implantação de um sistema de produção inadequado)? Por quê o aspecto emocional muitas vezes é mais forte do que o aspecto racional? Segundo Tchecov, “O homem é aquilo que ele acredita!”. Simples. Racionalmente, tudo pode indicar, por exemplo, numa dada circunstância, a adoção de um projeto para produção de leite via pastejo rotacionado ou confinamento. Aí eu é que faço a pergunta: “mas se o produtor acredita no confinamento??!!”. A empatia é um fator muito importante e que todos devem saber lidar e respeitar, por mais difícil que isso seja! Por isso que considero esta discussão de certa forma inócua.
Eis outro exemplo. Trata-se de uma propriedade no mercado área há mais 30 anos. Começou pequena, sem grandes investimentos, situada em área de solo pouco fértil, com enormes desafios. Os animais eram de baixo potencial genético e o sistema adotado foi o pastejo intensivo (rotacionado). Com o passar dos anos, o rebanho foi sendo modificado, a genética melhorou muito e novas demandas e desafios foram surgindo, sendo necessária a mudança do sistema de pastejo para confinamento total. Em ambas as fases da propriedade, os sistemas foram muito bem conduzidos. Posteriormente em função de problemas extemporâneos, o produtor/capitalista/investidor, resolveu novamente voltar ao tradicional sistema a pasto, só que com uso de maior tecnologia (melhor qualidade de forragem), mantendo desta vez o antigo rebanho do sistema confinado (vacas holandesas de elevado potencial de produção). Atualmente os índices de produtividade desta propriedade são bastante interessantes e equiparáveis ao sistema confinado de outrora.
E agora? O que é o certo? O que é errado? Qual é o melhor sistema de produção?
Dicussão eterna...
Tudo depende. Diferentes demandas, diferentes realidades, diferentes capacidades... eu respeito todo sistema de produção bem conduzido. E você?!
PS - concordando ou não com o conteúdo, parabéns ao Guilherme Alves de Mello que tem conduzido um dos maiores debates de todos os tempos do MilkPoint!!
