O valor da assistência técnica

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Paulo José Araripe Costa

Às vésperas da comemoração do centenário da mais renomada faculdade de agronomia deste país (ESALQ - 3 de junho de 1901), ainda vivemos uma situação de grande desprestígio nacional e internacional da agropecuária brasileira. Parece patente que a principal causa deste fato é a nossa baixíssima produtividade, baixa qualidade de nossos produtos (principalmente os que são oferecidos ao povo brasileiro) e o enorme descaso governamental para com o setor.

É bem verdade que existem ilhas tecnológicas, onde a aplicação correta das técnicas originadas nos institutos de pesquisa e nas universidades, permitem ao empreendedor rural trabalhar com alta eficiência e lucro na atividade, seja pecuária ou agricultura. No restante impera a falta de planejamento, falta de recursos para investimento e até de alternativas para a saída deste ciclo vicioso entre baixa produtividade e falta de recursos.

Mas, se existe a tecnologia adequada para cada situação, se ela está disponível na maioria das instituições públicas e particulares (quer sejam as universidades ou os órgãos responsáveis pela difusão) e se existem produtores que se beneficiam disto, porque vivenciamos esta trágica situação? Ora, a resposta parece simples: há um consenso nacional que considera que o nível de nossos técnicos é ruim e que o valor da assistência técnica é cara. A consequência é a permanência da maioria dos produtores agropecuários na ignorância tecnológica, com depreciação contínua de seu patrimônio.

Boa parte do problema se inicia em experiências mal sucedidas de produtores que, por um grande infortúnio, receberam a assistência de um profissional desatualizado, não especializado no assunto ou pior que nem é técnico e sim "prático". Estes cobram valores irrisórios, aviltantes para a categoria a que pertencem, sejam eles agrônomos, veterinários ou zootecnistas. Por confiar numa pessoa que não teve suas referências avaliadas, o produtor acaba sendo levado a investimentos não coerentes que o remetem ao fracasso na atividade.

Em contrapartida, é bastante comum ouvir de outros produtores (às vezes os mesmos do caso anterior) reclamações à respeito do alto valor da consultoria, principalmente por estarem num meio onde eles próprios se encontram demasiadamente arrochados.

É importante salientar que a falta de planejamento pode comprometer todo um projeto e que o barato (não o eficiente) por vezes acaba saindo caro. Basta verificar o problema energético a que estamos passando, pura falta de planejamento!

Quanto seria, então, o valor nominal de uma assistência técnica? Realmente é difícil de dizer, embora existam valores mínimos determinados pelas associações e conselhos de profissionais.

Apesar dos resultados de um bom trabalho de planejamento e de prevenção demorarem um pouco a aparecer, em virtude da agropecuária depender de fatores como clima, algumas considerações podem ser feitas até por um leigo. Por exemplo, quanto se perdeu ou deixou-se de ganhar com a ausência de uma dieta balanceada (baixa produção de leite, alto custo de alimentação do rebanho, vacas que não entram em cio, presença de doenças metabólicas, morte de animais por intoxicação, etc.)? E com uma lavoura de milho sem um plano de conservação de solos (erosões, assoreamento de cursos d'água, fertilizantes aplicados sem resposta, híbridos caros que produziram o mesmo que os bem baratinhos, etc.)? E o que dizer daquelas mastites incontroláveis que com uma orientação no manejo da ordenha, teriam sido eliminadas (leite jogado fora, medicamentos aplicados aos montes, morte de vacas, etc.)? Quanto custou tudo isso? Certamente este valor é a diferença entre o lucro e o prejuízo, entre a permanência na atividade e a falência. E vejam que a maioria das recomendações tem custo de execução muito baixo, muitas vezes só dependem de uma melhor orientação da mão-de-obra já empregada ou da adoção de outros conceitos desconhecidos pelo produtor, mesmo relacionados à administração do empreendimento. A contabilização destes valores provará que a assistência técnica é muito mais barata que se pensa.

Há ainda aqueles casos onde o produtor inicia uma atividade, mesmo sem antes conhecer a sua rentabilidade, muitas vezes conciliando sistemas de produção incompatíveis com os animais que tem ou com a região onde está a propriedade, por copiar modelos inadequados a sua situação. Daí para o fracasso total é um curto espaço de tempo, pois quando este se dá conta de que investiu em fatores sem importância ou até mesmo em tecnologias que não tem comprovação acadêmico-científica, já perdeu muito dinheiro, inviabilizando sua permanência na atividade. Os erros cometidos na implantação perduram por quase toda a vida útil da atividade, tendo alto custo e baixa praticidade para solucioná-los quando possível. Assim, toda e qualquer tecnologia que se queira implantar, precisa ser avaliada por técnico responsável e capacitado, evitando que colapsos aconteçam.

Nos EUA (referência mundial em produtividade agropecuária), por exemplo, os consultores cobram por hora e suas agendas vivem lotadas de serviços. A assistência agronômica a valores de 60, 70, 80 dólares a hora trabalhada são comuns por lá. Os serviços veterinários, que não incluem emergências, tem preço mínimo de US$ 100,00 mais despesas de alimentação e transporte, qualquer que seja a rotina de trabalho. Será que estes valores são altos? Ou será que a perda em produtividade é que determina o valor da assistência?

Isto tudo não isenta os profissionais nacionais (o mesmo acontece com os estrangeiros) de se atualizar constantemente e da exigência por parte dos produtores da aplicação da melhor técnica disponível em suas propriedades, sempre com responsabilidade. O reconhecimento dos técnicos no Brasil, país tão sem parâmetros, se dá através de resultados, pois estes são colocados à prova a todo momento. E resultado, em forma de aumento da produtividade, é o que esta enorme fronteira agropecuária mundial chamada Brasil, necessita.

De qualquer maneira, continua valendo a máxima da administração que diz:

"Planejando, talvez você erre; se você não planejar, talvez você acerte."


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1Colaborou

Alexandre de Campos Gonçalves - Mestrando Depto. Produção Animal ESALQ/USP.
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